A “maioria silenciosa” é a chave para lidar com os grandes desafios globais
Há 3 bilhões de pessoas perdidas em um “meio-termo silencioso” que os líderes globais ignoram, mas que precisam levar em conta
Para muita gente que mora no hemisfério norte, o outono não é sinônimo apenas da volta das crianças à escola e da mudança de temperatura, mas também de um tipo diferente de temporada: é a época das conferências.
Durante minhas viagens nas últimas semanas, ouvi uma frase comum ser repetida várias vezes nos salões de conferência e nas conversas de networking nos corredores. É a ideia de “o meio-termo silencioso”. Talvez você também já tenha ouvido isso.
O meio-termo silencioso (missing middle, na expressão em inglês ) tem sido usado em um contexto amplo, que vai desde a política habitacional até os mercados de trabalho.
Em um nível mais abrangente, ouço esse termo ser usado para descrever a população global de pessoas que nem são de alta renda nem vivem na linha da pobreza ou abaixo dela. São os três bilhões que se encontram em algum lugar intermediário: com empregos, alguma renda disponível e alguma oportunidade de subir na pirâmide social.
QUEM SÃO AS PESSOAS QUE ESTÃO NO MEIO-TERMO?
O "meio-termo silencioso" é geralmente percebido como uma pequena fatia da população espremida entre dois grupos maiores. Mas essa percepção não poderia estar mais longe da verdade. O meio-termo corresponde a mais ou menos a maioria da população global. Na Tala, chamamos esse grupo de maioria global e prestamos serviços a esse grupo há mais de uma década.
São comunidades que vivem, em sua maioria, em mercados emergentes com cerca de US$ 10 a US$ 20 por dia, de acordo com o Pew Research Center.
Têm empregos, atividades paralelas e contribuem imensamente para as economias locais, mas também podem ter dificuldades para economizar para a aposentadoria ou para conseguir fundos para uma emergência.
Esses desafios são agravados por um sistema financeiro que não foi projetado para atender às suas necessidades específicas.
Também sabemos que a Tala é apenas um agente quando se trata de organizações, empresas e governos que atendem à maioria global. Essa é parte da razão pela qual decidimos apoiar uma agenda de pesquisa global em parceria com o Atlantic Council, analisando essa maioria global, com um relatório de pesquisa completo previsto para o início de 2025.
O IMPACTO SOBRE OS DILEMAS GLOBAIS
Raramente ouvimos falar dessa população com o reconhecimento pleno de que ela tem o poder de moldar o cenário mundial. As estimativas indicam que liberar o poder econômico dessa maioria global poderia resultar em um impulso de US$ 10 trilhões para a economia.
Além disso, o enfrentamento das barreiras que impedem essa população de realizar o seu potencial pode ter um efeito cascata em alguns dos maiores dilemas globais.
Pense no caso da migração. Sabemos que a oportunidade econômica é um impulsionador da migração, sendo que um dos principais corredores de migração é o das economias de mercados emergentes para economias maiores.
Se pudermos abrir a porta para mais empregos locais para aqueles que fazem parte da maioria global, conseguiremos impulsionar as economias locais e limitar a migração para o exterior por razões econômicas.
O mesmo vale para a saúde global. Cerca de três bilhões de pessoas não dispõem de recursos financeiros para ter uma dieta saudável. A alimentação é uma das bases da nossa saúde. Quando as comunidades da maioria global têm mais acesso a alimentos nutritivos, cultivamos um pilar fundamental de comunidades saudáveis e prósperas.
A maioria global é composta por pessoas que nem são de alta renda nem vivem na linha da pobreza ou abaixo dela.
Ou pense na crise climática, talvez a questão mais importante de todas. De acordo com o Fundo Monetário Internacional, os países de baixa renda estarão particularmente expostos ao impacto das mudanças climáticas, sendo que muitas comunidades já estão sofrendo o impacto de desastres relacionados ao clima. Mais um motivo para investir em tecnologia verde e energia renovável – e criar mais oportunidades de emprego – para essas comunidades.
A maioria global é o fator unificador na solução desses desafios intersetoriais que o mundo enfrenta atualmente. Na Tala, vemos uma clara necessidade de olhar para essa população de forma mais holística, reconhecendo o imenso potencial que podemos liberar ao fazer isso.
Agora, quando ouço a expressão “meio-termo silencioso” em conferências, não consigo deixar de pensar na oportunidade que temos pela frente se dermos à maioria global o tempo e a atenção que ela merece.