A mudança climática chegou à taça de champanhe
Uvas estão amadurecendo mais rápido, obrigando produtores a antecipar a colheita e a repensar práticas tradicionais do setor

Na França, produtores de champanhe correm para colher suas uvas enquanto começa a safra mais precoce já registrada na região. O calor extremo e a seca aceleraram o amadurecimento, deixando aos produtores uma janela estreita para preservar a qualidade do mundialmente famoso espumante que leva o nome da região – Champagne.
Nas encostas de Hautvillers, equipes de colhedores começam a trabalhar às 6h30, entre fileiras de vinhedos reconhecidas como Patrimônio Mundial pela Unesco em 2015.
Para Alexandre Gobillard, diretor de produção da vinícola de champanhe Gobillard & Fils, começar a colheita em meados de agosto era algo quase impensável. “É histórico em Champagne”, diz. “Nunca vimos nada parecido.”
Aos 50 anos, Gobillard representa a quarta geração da família a trabalhar nos vinhedos. A Gobillard & Fils cultiva 40 hectares de vinhas e produz cerca de 1,5 milhão de garrafas por ano.
CLIMA EM TRANSFORMAÇÃO ANTECIPA A COLHEITA
A colheita oficial de Champagne começou entre 12 e 17 de agosto (dependendo da área e da variedade da uva), cerca de um mês antes do que costumava ser comum na região.
Colheitas precoces se tornaram cada vez mais comuns em Champagne e em outras regiões vinícolas francesas à medida que as temperaturas aumentam. Na vizinha Itália, o calor extremo também levou produtores de espumantes a antecipar a colheita e colher as uvas durante a noite.
David Chatillon, presidente da Union de Champagne Houses, reconhece que as condições climáticas deste ano resultarão em uma queda cinsiderável na produtividade.
“Mas não é apenas por causa da seca. Perdemos 43% da produção potencial com as geadas da primavera, e a seca claramente tornou o problema da menor produtividade ainda pior”, explica.
Segundo Chatillon, as mudanças climáticas são uma preocupação do setor há 25 anos, levando a investimentos em pesquisa e inovação para adaptar a produção às condições em transformação. Entre as iniciativas estão o desenvolvimento de variedades de uvas mais resistentes a doenças e que amadurecem mais tarde.

As temperaturas recordes deste verão no hemisfério norte comprimiram ainda mais o período de amadurecimento. Em junho, as temperaturas chegaram a 40ºC em algumas partes de Champagne.
“A videira precisa de água para viver”, diz Gobillard. “A água foi retirada das uvas para manter a videira viva e, como resultado, tivemos uma concentração de açúcar muito maior. Foi por isso que tudo aconteceu muito mais rápido.”
TRADIÇÕES COLOCADAS À PROVA
A colheita antecipada também traz desafios logísticos em uma região onde as uvas tradicionalmente são colhidas à mão. Alguns trabalhadores ainda estão em férias de verão, enquanto outros enfrentam atrasos no transporte.
Gobillard espera concluir a colheita na propriedade em cerca de nove dias, um trabalho que exige aproximadamente 120 trabalhadores, recrutados principalmente em diferentes regiões da França e na Polônia.

“Isso realmente muda a maneira como encaramos os métodos tradicionais de Champagne”, diz Geoffrey Bonnet-Gobillard, diretor comercial da vinícola da família. “A colheita manual traz muitas restrições: acomodar as pessoas, alimentá-las, recrutá-las. É muito difícil, especialmente com colheitas antecipadas em agosto.”
Essas pressões podem, com o tempo, levar os produtores a reconsiderar algumas práticas estabelecidas há décadas, à medida que as máquinas agrícolas se tornam mais sofisticadas, afirma Bonnet-Gobillard. Sua vinícola vende a maior parte de seus produtos para Reino Unido, Bélgica, Itália e Espanha, além da África Ocidental.
RISCOS ALTOS PARA UMA INDÚSTRIA GLOBAL
De acordo com o relatório de 2026 do Comité Champagne, 266,1 milhões de garrafas de champanhe foram vendidas na França e no exterior em 2025, gerando US$ 6,6 bilhões. As exportações representaram 56,5% das remessas. A região de Champagne respondeu por cerca de 8% do consumo global de espumantes em volume, mas por 31% em valor.
O setor sustenta aproximadamente 30 mil empregos diretos e depende de cerca de 100 mil trabalhadores sazonais durante a colheita, segundo o Comité Champagne.
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Apesar das condições difíceis deste ano, Gobillard diz que as uvas que inspecionou são promissoras. “Estou muito feliz com o que estou vendo. Estávamos preocupados que a seca deixasse os cachos muito leves, mas, nessas áreas, estamos realmente satisfeitos. A quantidade deve ser suficiente e a qualidade estará presente.”
Mas não há tempo a perder. “É hora de cortá-las. Vamos ter que agir rápido.”