A ONU quer abrir a caixa-preta ambiental da IA

Secretário-geral da ONU propõe iniciativa para obrigar empresas de IA a divulgar emissões, consumo de água e uso de energia renovável

A ONU quer abrir a caixa-preta ambiental da IA
Créditos: Logan Voss/ Mariola Grobelska/ Resource Database/ Unsplash

Alexa St. John 5 minutos de leitura

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, pediu que empresas de inteligência artificial divulguem informações sobre as emissões de carbono geradas por suas operações, além do consumo de água e da ocupação de terras necessários para manter seus sistemas funcionando.

Em discurso durante a London Climate Action Week, Guterres propôs a criação da Iniciativa de Transparência Ambiental para a IA, defendendo que empresas do setor passem a medir e divulgar o impacto ambiental de suas tecnologias.

O tema ganhou força à medida que críticos apontam o crescimento acelerado dos data centers como um fator que pressiona recursos naturais e amplia as emissões.

Governos nacionais e autoridades locais em regiões que abrigam essas instalações também vêm cobrando mais transparência e padrões de divulgação mais consistentes para toda a indústria.

Guterres afirmou ainda que as empresas de IA deveriam se comprometer a abastecer seus data centers exclusivamente com eletricidade proveniente de fontes renováveis, como energia eólica e solar, até 2030.

"Chega de custos ocultos. Chega de transferir o peso para aqueles que têm menos condições de suportá-lo. É hora de abrir o jogo", disse Guterres durante a maior conferência climática independente da Europa.

A DEMANDA ENERGÉTICA DA IA CONTINUA CRESCENDO

Muitas das maiores empresas de tecnologia já prometeram abastecer suas operações com fontes de energia mais limpas até o fim da década. Algumas, como Amazon e Google, pretendem atingir esse objetivo recorrendo principalmente à energia solar e à nuclear.

Mas a corrida para expandir a inteligência artificial tem dificultado o cumprimento dessas metas e aumentado as emissões de gases de efeito estufa, resultantes da queima de combustíveis fósseis como petróleo, carvão e gás natural. Barreiras regulatórias também têm atrasado projetos de energia limpa.

Segundo a Agência Internacional de Energia, cerca de 30% da eletricidade consumida pelos data centers no mundo vem do carvão. As fontes renováveis (principalmente eólica, solar e hidrelétrica) respondem por cerca de 27%; o gás natural, por 26%; e a energia nuclear, por 15%.

Nos próximos cinco anos, as fontes renováveis deverão suprir apenas metade do crescimento da demanda de energia.

Datacenter do Google no estado do Oregon/ EUA (Crédito: Tony Webster/ Wikimedia/ CC BY-SA)

Embora muitos especialistas, incluindo Guterres, apontem que a IA pode acelerar soluções para a crise climática ao melhorar a eficiência energética e reduzir emissões, o impacto ambiental da infraestrutura necessária para sustentá-la também cresce rapidamente.

Um relatório da ONU divulgado no início deste mês concluiu que a pegada ambiental dos data centers já rivaliza com a de alguns dos maiores países do mundo.

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O documento também projeta que o consumo de água, energia e a poluição associados à inteligência artificial vão dobrar em apenas quatro anos. Em 2025, os data centers voltados para IA responderam por cerca de 1,5% do consumo mundial de eletricidade. Até 2030, essa participação deverá se aproximar de 3%.

"Apesar dessas preocupações evidentes, muitas comunidades continuam sem saber qual é o impacto ambiental da infraestrutura que está sendo construída ao seu redor", afirmou Guterres.

A ONU MANTÉM O ALERTA CLIMÁTICO

Há anos, o secretário-geral da ONU vem defendendo medidas mais rigorosas para enfrentar a mudança climática. Ainda este ano, ele voltará a reunir líderes mundiais na Conferência das Partes (COP), que será realizada na Turquia, para negociar novas ações.

No discurso desta terça-feira, a inteligência artificial foi apenas um dos temas abordados. Guterres afirmou que diversas medidas são necessárias para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais, meta estabelecida pelo Acordo de Paris, de 2015.

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No ano passado, pela primeira vez, a média da temperatura global em um período de três anos ultrapassou esse limite. "Todos os grandes emissores precisam acelerar suas ações. E todos os países devem ir além dos compromissos que assumiram", afirmou.

Ele também defendeu uma redução nas emissões de metano, gás responsável por cerca de um terço do aquecimento global e muito mais potente que o dióxido de carbono, embora permaneça menos tempo na atmosfera. Além disso, voltou a pedir uma diminuição da dependência mundial de carvão, petróleo e gás natural.

AVANÇOS CONVIVEM COM NOVOS DESAFIOS

Guterres destacou que a expansão das energias renováveis vem reduzindo os custos dessas tecnologias e acelerando sua adoção em diversos países.

No ano passado, a geração de eletricidade a partir de fontes limpas – impulsionada principalmente pela energia solar e eólica – cresceu mais do que a demanda global por eletricidade.

Em 2025, as energias renováveis passaram a representar mais de um terço da matriz elétrica mundial pela primeira vez na história moderna, enquanto a participação do carvão caiu para menos de um terço da geração global.

A ONU estima que o consumo de água, energia e a poluição associados à IA vão dobrar em apenas quatro anos.

A China continua liderando a transição energética global. Na Europa, a geração baseada em combustíveis fósseis segue em trajetória de queda.

Já os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, ampliaram o apoio ao carvão, ao petróleo e ao gás natural, ao mesmo tempo em que reduziram incentivos às energias renováveis e às políticas climáticas.

Esse movimento ocorre em meio à crise energética global agravada pela guerra contra o Irã, que Guterres classificou como "a mãe de todos os choques energéticos".O secretário-geral comparou o momento atual a "Um Conto de Duas Cidades", clássico de Charles Dickens.

"Para a agenda climática, este é, ao mesmo tempo, o melhor e o pior dos tempos", disse. "O pior, porque os impactos da mudança climática estão se intensificando, os pontos de não retorno se aproximam e a crise energética revelou os profundos riscos da dependência dos combustíveis fósseis. Mas também o melhor, porque a revolução das energias renováveis já está em pleno andamento."


SOBRE A AUTORA

Alexa St. John é repórter da Associated Press. saiba mais