Existem boas notícias para o planeta em meio a pandemia de coronavírus. Com a economia global estagnada, a previsão dos especialistas em energia é de que a demanda por petróleo não voltará aos níveis de 2019 até 2022, no mínimo. Já os futuristas têm uma previsão mais confiante: essa demanda nunca mais retornará.

Haverá altos e baixos, claro. Contudo, é indiscutível que o negócio de hidrocarbonetos entrou em período de declínio. Mesmo com todas as manobras para a manutenção de subsídios pelas indústrias de carvão e de xisto, não há como escapar do vermelho quando empresas fogem de novos investimentos e projetos controversos de carvão ficam parados. A energia limpa está se tornando cada vez mais barata e está na moda as grandes corporações mostrarem sua boa vontade ambiental, pelo menos no papel. O preço das ações da Exxon ao longo do segundo semestre de 2020 é apenas uma indicação desta nova ordem mundial.

Mas o declínio nas emissões não está nem perto de ser suficientemente rápido. Para evitar os piores efeitos da mudança climática, os maiores especialistas sobre clima do mundo dizem que precisamos diminuir pela metade as emissões de gases do efeito estufa dentro de 10 anos e zerá-las até o meio do século. Da forma que estamos hoje, o mundo segue o caminho de um aumento de 3 a 4 graus até o final do século, o que causará uma série de “pontos de inflexão” cataclísmicos no processo.

O governo Biden promete ser embasar-se na ciência, trazendo de volta os planos da era Obama em exigir que todas as agências federais levem em conta a resiliência climática e reforçar a autoridade do EPA para fazer valer a regulamentação. Seria um bom começo, mas não chega nem perto do necessário para transformar a economia americana.

A SOLUÇÃO NÃO ESTÁ SOMENTE EM ESQUEMAS CONTÁBEIS, MAS NA DESCARBONIZAÇÃO DAS PRINCIPAIS INDÚSTRIAS

A solução não está somente em esquemas contábeis, como o comércio de emissões, mas em uma descarbonização agressiva de todas as principais indústrias, da produção de energia, passando pela agricultura até o transporte, construção e manufatura. Quanto menos petróleo consumirmos, maior a sobra da oferta. Nossa única esperança é atacar o lado da demanda na equação.

Não será fácil. Se a sociedade quiser fazer uma tentativa significativa na redução de sua pegada ambiental, precisamos começar fazendo a conta de quanta energia é usada em cada passo da cadeia logística: não somente a energia necessária para a combustão ou para a eletricidade, mas os custos energéticos de extração, processamento, transporte e descarte de tudo que usamos, consumimos, comemos e descartamos. A dura verdade é que grande parte das emissões de gases do efeito estufa não pode ser atribuídas a um único setor.

Em vez de apontar o dedo para os suspeitos de sempre, deveríamos olhar ao nosso redor para ver como o carbono está presente em quase todos os componentes da nossa sociedade moderna. Veja o cimento, por exemplo, Estima-se que a indústria cimenteira responda por 8% das emissões antropogênicas de CO2. Oito por cento. Do cimento. Vendo de outra forma, o cimento contribui mais com as emissões globais de CO2 do que a maioria dos países.

O transporte também é outro setor esquecido, mesmo representando as artérias do comércio global. O frete marítimo de cargas representa de 2.2% a 3.1% do total de emissões globais – próximo da aviação global. Já que a maior parte do que compramos na realidade foi feito em outro lugar, uma análise que não leva em conta a movimentação de itens em massa por meio dos oceanos é irresponsável.

Estes custos energéticos podem aparecer nos balanços contábeis dos fabricantes e transportadores, mas tornam-se invisíveis quando passam para os consumidores. Como resultado, não temos ideia de quanta energia é necessária para encher o nosso tanque ou pagar a conta de luz, muito menos quando compramos um hambúrguer. Imagine um mundo onde os restaurantes mostram as emissões de carbono no cardápio, do jeito que alguns mostram as calorias.

É claro que o comportamento do consumidor é só uma faceta do problema climático. A alavanca mais poderosa está no lado dos investimentos, onde investidores e gestores de portfólios manobram trilhões de dólares na atividade econômica. Houve alguns progressos nesta área e mais fundos levam em consideração fatores Ambientais, Sociais e de Governança (ESG em inglês) nos seus critérios de seleção. Mas o ESG tem uma utilidade limitada sem uma metodologia rigorosa para rastrear os fluxos de energia pela cadeia logística, dos componentes individuais ao produto final.

Uma estratégia mais promissora, chamada Análise do Ciclo de Vida (LCA em inglês), fornece uma contabilidade mais abrangente do consumo de energia total envolvido na produção e entrega de produtos e serviços. A conversa sobre “economia circular” está ganhando terreno nas mesas de reunião e nas comunidades e suas conquistas baseiam-se nos princípios do LCA. Nem os gestores de fundos de trilhões de dólares buscando investimentos ESG, nem as cidades buscando uma nova economia circular estão imunes à contabilidade completa da sustentabilidade. Não é mais possível isolar as “empresas de energia” – todos nós somos empresas de energia agora.

SOBRE A AUTORA

Michael Ferrari é sócio diretor na Atlas Research Innovations e membro sênior da Wharton School. Parag Khanna é fundador e sócio diretor da FutureMap e autor de vários livros, incluindo Connectography.