As lições que a água deixou: periferias transformam memória em adaptação climática
Pesquisa com 718 famílias mostra como enchentes recorrentes provocam perdas materiais e ansiedade, mas também geram tecnologias sociais que raramente aparecem nas estatísticas oficiais.

Quando começa a chover, muita gente pensa em fechar a janela para não molhar o quarto ou correr para tirar as roupas do varal. Para milhares de moradores das periferias brasileiras, esses são os menores dos problemas. A chegada de um temporal pode significar perder tudo em poucas horas.
Em comunidades como Kennedy, na Baixada Fluminense, e Acari, na zona norte do Rio de Janeiro, as enchentes fazem parte da rotina. O estudo aponta que o prejuízo médio pode chegar a R$ 22.344 por pessoa, considerando bens perdidos e recursos gastos pelos próprios moradores para adaptar suas casas.
Segundo o cálculo apresentado pelos pesquisadores, o valor corresponde a aproximadamente 45 meses de aluguel ou 37 parcelas do Bolsa Família.
A pesquisa Retratos das Enchentes, realizada pelo Instituto Decodifica em parceria com organizações comunitárias, reuniu 718 entrevistas domiciliares em quatro territórios do Rio de Janeiro e de Pernambuco, alcançando 2.177 pessoas.
Foram 226 entrevistas em Acari, 216 em Passarinho, 170 em Dois Carneiros e 106 em Kennedy.

Mais do que quantificar prejuízos, a pesquisa propõe uma mudança de perspectiva: deixar de enxergar a periferia apenas como vítima da emergência climática e reconhecê-la como produtora de conhecimento, tecnologias sociais e estratégias de adaptação.
O CUSTO DAS ÁGUAS
Diante da ausência de políticas públicas suficientes de adaptação climática, quem financia parte da própria segurança são os moradores.
Enquanto governos discutem planos de adaptação e fundos climáticos internacionais, famílias que vivem, em sua maioria, com até dois salários mínimos retiram recursos do orçamento doméstico para se proteger da próxima chuva.
Esse esforço acontece em um contexto de grande vulnerabilidade socioeconômica. Segundo a pesquisa, cerca de 70% das famílias vivem com até dois salários mínimos. Em média, cada morador dispõe de R$ 503 a R$ 816 por mês.

De acordo com a comparação adotada pelos pesquisadores, esses valores ficam abaixo do parâmetro de pobreza considerado pelo estudo.
Quase quatro em cada dez famílias realizaram algum tipo de intervenção para enfrentar as enchentes. Elevar o piso, construir barreiras e modificar escadas são medidas pagas por moradores que já convivem com renda limitada, falta de saneamento e serviços públicos insuficientes.
O APAGÃO DOS DADOS
Grande parte dos dados utilizados pelo poder público registra os desastres que levam municípios a decretar situação de emergência ou estado de calamidade pública.
Existe, porém, outra realidade que raramente aparece nas estatísticas: enchentes que retornam todos os anos e cujos estragos se acumulam lentamente.
Como esses episódios nem sempre entram nos levantamentos oficiais, deixam de orientar políticas públicas. É esse vazio que pesquisadores e moradores chamam de “apagão de dados”.
Entre as famílias entrevistadas, 70,5% afirmaram que suas ruas alagam com frequência. Em Acari, o percentual chegou a 91,2%; em Kennedy, a 84,9%; e, em Dois Carneiros, a 73,5%.
Se o dado oficial não enxerga o problema, a política pública é desenhada a partir de um mapa incompleto.
Em 2025, uma consulta ao Sistema Integrado de Informações sobre Desastres identificou 2.222 reconhecimentos de situações de emergência ou calamidade no país. Desse total, 488 estavam relacionados a chuvas intensas e 92 a inundações.
Esses registros ajudam a dimensionar grandes desastres, mas não mostram necessariamente a frequência com que uma mesma rua é alagada ou quantas vezes uma família precisa reconstruir a própria casa.
QUANDO A MEMÓRIA VIRA CONHECIMENTO
Embora grande parte do debate sobre mudanças climáticas destaque o protagonismo da juventude, moradores mais velhos sustentaram boa parte da construção desse conhecimento.
A idade média dos participantes da pesquisa foi de 48 anos, com forte presença de pessoas com mais de 50.
Esses moradores sabiam quando um córrego havia sido canalizado, quando uma obra alterou o caminho da água, como a expansão urbana modificou o comportamento dos rios e por que determinadas ruas passaram a alagar depois de intervenções viárias.
Em Kennedy, por exemplo, moradores relacionam mudanças no comportamento das enchentes às transformações provocadas por obras no entorno da Rodovia Presidente Dutra.

Trata-se de uma memória geográfica que dificilmente aparece em documentos oficiais, mas permanece preservada por quem vive há décadas no mesmo território.
Esse saber vai além da lembrança. É ele que orienta as estratégias de sobrevivência das famílias.
Cada enchente deixa uma lição prática: até onde a água costuma chegar, onde instalar barreiras e quando já não é seguro permanecer dentro de casa.
Em um contexto no qual 67% dos moradores afirmam não se sentir suficientemente informados sobre como agir durante uma inundação, essa inteligência comunitária acaba funcionando como um sistema informal de prevenção.
QUANDO A EXPERIÊNCIA SE TRANSFORMA EM ADAPTAÇÃO
Mais da metade dos entrevistados, 55%, afirma nunca receber alertas prévios da Defesa Civil ou de outros órgãos públicos.
Muitos moradores assumem, na prática, a função de monitoradores comunitários. Observam o céu, acompanham a direção do vento, conhecem o comportamento dos rios e identificam quando uma chuva aparentemente comum pode se transformar em enchente.
A experiência acumulada também se traduz em adaptações dentro das casas.
Algumas famílias elevaram o piso das residências. Outras construíram portões que funcionam como barreiras contra a água. Há quem mantenha eletrodomésticos sobre plataformas improvisadas ou amplie escadas para transportar móveis rapidamente quando a água começa a subir.
Entre os relatos reunidos pela pesquisa está o de um casal de 80 e 85 anos que precisou modificar a casa depois de perder repetidamente seus pertences.
Os dois construíram pilastras para reforçar a estrutura da residência, desenvolveram uma massa removível para vedar as frestas por onde a água entrava e ergueram um degrau de aproximadamente 60 centímetros na entrada.
A barreira ajuda a impedir a entrada da água, mas hoje também dificulta a entrada e a saída do casal.
Nenhuma dessas soluções foi ensinada por um engenheiro ou financiada por um programa público. Elas foram construídas aos poucos, depois de cada enchente, a partir do que o casal aprendeu sobre a própria casa.
Essas adaptações surgem em territórios nos quais a infraestrutura básica continua insuficiente. Mais de um quinto dos domicílios pesquisados não possui água encanada e 43,3% não contam com tratamento de esgoto.
As condições ampliam os impactos das enchentes e aumentam o risco de doenças depois de cada inundação.
O PESO DE VIVER EM ESTADO DE ALERTA
A capacidade de adaptação também cobra um preço.
O casal de idosos desenvolveu síndrome do pânico e hipertensão associadas ao medo da chuva. Em noites de temporal, os dois fazem revezamentos para acompanhar o nível da água. Dormem pouco e vivem em estado permanente de alerta.
Durante muito tempo, acreditaram que aquela tensão fazia parte da rotina. Somente nas conversas promovidas pela pesquisa descobriram que o sentimento tinha nome: ansiedade climática.
Para muitas famílias, o impacto da enchente não termina quando a água baixa. É nesse momento que começam a limpeza da lama, a tentativa de recuperar móveis, os reparos na estrutura da casa e a reconstrução da rotina.
Ao mesmo tempo, permanece a incerteza sobre quando tudo poderá acontecer novamente.
O estudo mostra que esse sofrimento não é um caso isolado. Além das perdas materiais, as enchentes deixam marcas psicológicas persistentes, como depressão, dificuldades para dormir, pesadelos recorrentes e medo de perder novamente tudo o que foi reconstruído.
LEIA TAMBÉM: Caos climático cria novo sentimento: solastalgia
DA EXPERIÊNCIA AO CONHECIMENTO COLETIVO
Histórias como essas vieram à tona porque o levantamento adotou uma metodologia baseada na construção de confiança.
Para enfrentar a invisibilidade das enchentes recorrentes, o projeto desenvolveu a Geração Cidadã de Dados, abordagem na qual moradores deixam de ser apenas entrevistados e passam a atuar como produtores de conhecimento sobre os próprios territórios.
Antes dos formulários, vieram os cafés, a escuta e o tempo. Pesquisadores chamam esse processo, informalmente, de “tecnologia do café”.
Mais do que coletar informações, era preciso construir confiança para que os moradores compartilhassem lembranças marcadas por perdas, medos e décadas de convivência com as enchentes.
Essa aproximação permitiu que os participantes identificassem prioridades, corrigissem mapas, interpretassem resultados e avaliassem os diagnósticos.
Em uma das oficinas, ruas inteiras que não existiam na base cartográfica passaram a integrar o levantamento depois de serem apontadas pelos moradores. O episódio mostra como a ausência de dados também pode produzir ausência de direitos.
Foi desse processo que nasceu uma aliança entre gerações.
Enquanto moradores mais velhos contribuíram com a memória das enchentes e a leitura do território, jovens pesquisadores e coletivos comunitários transformaram esse conhecimento em mapas, indicadores, relatórios e propostas para políticas públicas.
Os resultados retornaram às comunidades em fóruns populares, nos quais os moradores validaram os dados, definiram prioridades e transformaram diagnósticos em reivindicações.
A principal conclusão do estudo é que as periferias não esperam que alguém descubra como enfrentar a crise climática.
Há décadas, seus moradores desenvolvem formas de monitorar o território, adaptar moradias, proteger vizinhos e produzir respostas para um problema que faz parte do cotidiano.
O que falta não são soluções, mas o reconhecimento de que esse conhecimento precisa ser incorporado às políticas públicas.
Enquanto o Estado ainda aprende a olhar para esses territórios, seus moradores — especialmente aqueles que carregam décadas de memória sobre as enchentes — continuam ensinando como sobreviver a um futuro que, para eles, começou há muito tempo.