Airbnb oferece 1 milhão de diárias gratuitas por ano a vítimas de desastres
Empresa prevê investir US$ 500 milhões em cinco anos para ampliar programa que oferece moradia emergencial a pessoas em situação de crise

Susan Bailey ainda se lembra vividamente da primeira vez que recebeu uma família que precisava de moradia emergencial. Era 2017, e ela tinha acabado de reformar um imóvel perto de sua casa, no Colorado, com a intenção de acrescentá-lo à sua crescente carteira de aluguéis pelo Airbnb.
Certa noite, recebeu uma ligação inesperada de alguém do Airbnb Open Homes, como era conhecido na época o programa da empresa voltado a oferecer hospedagem para pessoas em situações de crise.
O Airbnb perguntou se ela estaria disposta a receber uma família de refugiados do Iraque, que chegaria à meia-noite. Naquele mesmo ano, a empresa veiculou anúncios de boas-vindas a refugiados em resposta à proibição imposta pelo presidente Donald Trump à entrada de imigrantes e refugiados de países de maioria muçulmana.
Bailey não sabia nada sobre seus possíveis hóspedes, e ainda havia itens pendentes na lista de conclusão da reforma do imóvel. Mesmo assim, aceitou. Quatro horas depois, a família estava à sua porta.
Nos anos seguintes, Bailey recebeu famílias que enfrentavam crises de diferentes tipos e proporções, incluindo os incêndios florestais que atingiram comunidades no Colorado e na Califórnia, onde ela também administra imóveis para aluguel de curta temporada.
"Em muitos casos, no começo, nem sequer sabíamos se o Airbnb financiaria as estadias", conta. "Era tudo bastante improvisado."
Em 2023, o Airbnb.org respondeu a oito situações de crise. Este ano, já foram mais de 200 ocorrências.
Esses tempos de improvisação ficaram para trás. Em 2020, o Airbnb formalizou a criação do Airbnb.org, uma organização independente sem fins lucrativos. Agora, a empresa está assumindo um compromisso ainda maior com a questão da moradia emergencial.
"Estávamos recebendo uma demanda enorme", afirma Brian Chesky, cofundador e CEO do Airbnb, ao explicar a decisão de criar um novo modelo de financiamento para a organização. Neste ano, à medida que a capacidade operacional do Airbnb.org se expandiu, a entidade passou a responder a uma situação de desastre por dia.
Daqui para a frente, uma pequena parcela da receita de cada reserva feita pelo Airbnb (US$ 0,10) será destinada a estadias temporárias gratuitas, viabilizadas pelo Airbnb.org e seus parceiros.
Essas pequenas contribuições vão se acumular. Em 2025, a empresa registrou 57 milhões de reservas de hospedagem e experiências. Nos próximos cinco anos, pretende destinar US$ 500 milhões à organização sem fins lucrativos, por meio dessas contribuições e de doações complementares.

O novo modelo de financiamento permitirá que o Airbnb.org ofereça um milhão de diárias de hospedagem emergencial por ano. Também dará suporte à ampliação de seu escopo de atuação, que inclui deslocamentos provocados por desastres, como a guerra na Ucrânia e os furacões na Flórida, além de viagens para tratamentos médicos, abrigos seguros para vítimas de violência doméstica e apoio a veteranos de guerra.
Os hóspedes não pagam pela estadia; os anfitriões recebem pelo serviço, mas podem oferecer descontos nas diárias. Até agora, o Airbnb.org já proporcionou hospedagem gratuita a 250 mil pessoas.
O momento é propício para fazer mais, afirma Chesky. "Não vamos conseguir oferecer moradia para todo mundo, mas sentimos que finalmente alcançamos uma capacidade operacional que nos permite assumir um compromisso enorme", diz.
"Esse compromisso tem duração de cinco anos, mas vamos fazer isso por muito mais tempo. Esperamos continuar enquanto o Airbnb existir."
NEM TUDO SÃO FLORES
Christoph Gorder, diretor-executivo do Airbnb.org, vê o papel da organização como o de viabilizar a ajuda de outras pessoas, sejam parceiros institucionais ou anfitriões individuais.
"É um impulso muito natural querer ajudar outras pessoas quando elas estão passando por uma crise. Não fomos nós que inventamos isso", afirma. "O que estamos fazendo é usar a tecnologia para levar essa capacidade a uma escala global."
Em 2023, o Airbnb.org respondeu a oito situações de crise em diferentes partes do mundo, incluindo um incêndio florestal em Maui e um terremoto na Turquia. Este ano, já foram mais de 200 ocorrências.

Mas nem sempre os desastres fazem aflorar o melhor das pessoas. A cidade de Los Angeles entrou com uma ação judicial acusando o Airbnb de praticar preços abusivos durante os incêndios florestais de janeiro de 2025.
O Airbnb "estabeleceu e anunciou preços ilegalmente elevados e/ ou cobrou aluguéis ilegalmente altos por centenas, senão milhares, de imóveis para locação" durante o período em que vigorou a declaração de emergência do governo, afirmou o gabinete do procurador municipal de Los Angeles na ação.
Na Califórnia, aumentar em mais de 10% os preços de bens e serviços essenciais durante uma situação de emergência viola a legislação estadual.
Os hóspedes não pagam pela estadia; os anfitriões recebem pelo serviço, mas podem oferecer descontos nas diárias.
Em junho, um juiz decidiu que o processo pode seguir adiante. "Continuamos contestando as alegações imprecisas apresentadas na ação do procurador", declarou o Airbnb em comunicado. "Continuare- mos apoiando a cidade de Los Angeles em seus esforços de recuperação e reconstrução."
Os anfitriões do Airbnb definem seus próprios preços, mas a empresa oferece ferramentas de precificação baseadas em seu conhecimento do mercado. Segundo o Airbnb, depois da declaração de emergência estadual, a companhia tomou providências e enviou mensagens de erro aos anfitriões que aumentaram os preços em mais de 10%.
"A natureza desse modelo é que nunca conseguiremos impedir tudo, porque não controlamos os imóveis nem os preços", afirma Chesky.
"Somos tão bons quanto a humanidade e tão bons quanto nossos anfitriões. Mas é nosso dever nos autorregular da melhor maneira possível, incentivar e valorizar os melhores comportamentos, afastar quem age de má-fé e torcer para que consigamos despertar o melhor nas pessoas."