Amazônia já emite mais carbono do que absorve, aponta estudo brasileiro

Estudo liderado pelo Inpe mostra que a floresta só se aproxima da neutralidade de carbono nos anos mais chuvosos

floresta amazônica já emite mais carbono do que retira da atmosfera
Créditos: Aleksandr Vorobev/ Adobe Stock/ Pok Rie/ Pexels

Kristin Toussaint 4 minutos de leitura
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A floresta amazônica há muito é chamada de “pulmão do planeta” por sua capacidade de absorver e armazenar bilhões de toneladas de dióxido de carbono. Mas ela vem perdendo essa capacidade. Anos de desmatamento, secas e incêndios têm comprometido a quantidade de CO₂ que a floresta consegue absorver.

Agora, um novo estudo revela que a Amazônia frequentemente libera mais carbono do que absorve. Apenas nos anos mais chuvosos a floresta fica próxima de um equilíbrio nas emissões de carbono.

Publicado na revista "Nature", o estudo foi liderado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e contou com uma equipe internacional de pesquisadores. Os cientistas utilizaram 15 anos de medições de carbono na atmosfera, coletadas por aviões de pesquisa.

Os anos analisados foram agrupados de acordo com diferentes características, como o nível de atividade humana – que inclui desmatamento, exploração madeireira e uso do fogo para limpar terrenos – e o grau de estresse climático, provocado por fatores como secas e ondas de calor.

O QUE OS PESQUISADORES DESCOBRIRAM

Alguns anos foram marcados por chuvas abundantes e baixa atividade humana. Outros tiveram pouco estresse climático, mas intensa atividade humana. Houve ainda períodos de “eventos climáticos globais intensos, como o El Niño”, combinados com níveis elevados de atividade humana.

Nos anos em que a floresta permaneceu relativamente úmida, com taxas relativamente baixas de desmatamento e poucos incêndios, a Amazônia ficou próxima da neutralidade de carbono.

A floresta ainda liberou uma pequena quantidade de carbono na atmosfera, mas, segundo os pesquisadores, “não contribuiu significativamente para o balanço global de carbono” nesses períodos.

Quando as secas ou ondas de calor foram moderadas, mas houve mais desmatamento e incêndios florestais, as emissões líquidas de carbono da Amazônia “aumentaram drasticamente”, de acordo com um comunicado.

Os piores resultados foram registrados nos anos que combinaram forte estresse climático com intensa atividade humana prejudicial à floresta. Ainda assim, as emissões líquidas ficaram próximas das observadas no segundo grupo de anos.

Isso levou os pesquisadores a concluir que a maior parte do carbono liberado pela Amazônia tem origem nas atividades humanas, principalmente nas mudanças no uso da terra.

clareira na floresta amazônica aberta por extração de madeira
Crédito: Getty Images

“Os fatores climáticos globais e os agentes de estresse mediados pelo clima são importantes elementos de modulação, mas as escolhas das pessoas sobre como utilizar e viver nessa região são fundamentais para compreender o movimento do carbono entre a terra e a atmosfera”, afirma a coautora Jen Johnson, professora assistente de ecologia e biologia evolutiva da Universidade do Kansas.

Este não é o primeiro estudo a apontar que a Amazônia já não é o grande reservatório de carbono que costumava ser. Uma pesquisa de 2021 analisou como a derrubada e a queima de enormes áreas da floresta vêm reduzindo sua capacidade de capturar carbono.

Em 2023, um ano de seca extrema e temperaturas elevadas, pesquisadores demonstraram como a Amazônia se transformou em uma fonte de emissões de carbono, liberando entre 10 milhões e 170 milhões de toneladas da substância, em vez de absorvê-la.

UM PROBLEMA QUE SE AGRAVA LENTAMENTE

Também sabemos há muito tempo que a atividade humana ameaça a sobrevivência da Amazônia. Em 2019, mais de 74 mil focos de incêndio foram registrados no Brasil, a maioria na região amazônica – um aumento de 80% em relação ao ano anterior.

Esses incêndios são provocados principalmente por pecuaristas que usam o fogo para abrir espaço para a criação de gado, de modo a atender à demanda por carne bovina.

Quanto maior o desmatamento, sabemos, mais seca a Amazônia fica. Isso torna ainda mais difícil a recuperação das áreas remanescentes da floresta.

Crédito: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

“Há muitas décadas existe a preocupação com a possibilidade de um ponto de não retorno, no qual o ressecamento gradual e a perda progressiva da floresta poderiam retroalimentar um ao outro, criando um processo que se intensifica sozinho”, afirmou Johnson.

Isso poderia provocar uma transição de um tipo de ecossistema que armazena enormes quantidades de carbono na vegetação viva para florestas mais secas ou outros tipos de ecossistemas que armazenam muito menos carbono.

“Quanto mais carbono da Amazônia chega à atmosfera e fica nela, maiores são os problemas para o nosso sistema climático”, explica Johnson.

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Embora o cenário seja preocupante caso essas atividades continuem, os pesquisadores afirmam que mudanças nas políticas públicas podem ajudar.

“Esta análise aponta uma recomendação clara para as políticas públicas. É necessário adotar medidas para zerar o desmatamento e controlar as emissões líquidas de carbono da Amazônia. (...) Não se trata de algo que esteja fora do nosso controle por ser impulsionado por fatores climáticos globais. É algo que está, em grande medida, sob o controle de governos e pessoas”, afirma a pesquisadora.


SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company. saiba mais