Anitta no Conselho de Administração do Nubank. Mais uma ação de marketing das dezenas que ela já participou? O que uma das maiores artistas brasileiras da atualidade agregaria a um banco? Assim que a área de PR do Nubank disparou o release, na manhã da segunda-feira, 21, anunciando a chegada da cantora ao board, confirmação que já era esperada há algumas semanas, foram várias as análises, críticas, intervenções, elogios e questionamentos. A notícia, em si, já teria sido um grande trunfo fosse apenas uma estratégia de PR, mas como garantiram David Vélez e Cristina Junqueira, fundadores e CEOs do Nubank, a artista “tem profundo conhecimento do comportamento dos consumidores, além de estar reinventando a cena cultural nos últimos anos.”

Fernanda Ribeiro, COO e fundadora da Conta Black (Crédito: Divulgação)

No Brasil, Taís Araujo, Manu Gavassi, Claudia Leitte e outras celebridades possuem proximidade ao topo de decisões de algumas companhias e startups, mas o caso de Anitta, em si, é emblemático por vários aspectos. Pedro Tourinho, fundador da MAP Brasil, empresário e produtor, postou: “são muitos os motivos que fazem histórica essa parceria, mas destaco o fato dela ser uma mulher periférica, que canta funk e lidera seus negócios…”

Mulher, periférica e funkeira. Esses elementos, por si só, representam a materialização de algo inédito. Se analisarmos os números, fica ainda mais clara a simbologia da presença de Anitta no Conselho do quinto banco mais valioso da América Latina, com US$ 25 bilhões de valuation e um esperado processo de IPO. De acordo com a consultoria Korn Ferry, em 2020, houve uma alta na participação de mulheres em conselhos de administração de empresas brasileiras para apenas 14%. Na União Europeia, o índice chega a 30% e, nos Estados Unidos, 25%.

“O Índice de Igualdade Racial nas Empresas (IIRE) mostra que a participação de negros em cargos de diretoria e nos conselhos de administração é de apenas 6,6%”

Quando esse recorte vai para diversidade racial, a situação é ainda mais alarmante. De acordo com o Índice de Igualdade Racial nas Empresas (IIRE), a participação de negros em cargos de diretoria e nos conselhos de administração é de apenas 6,6%.

Deh Bastos, professora de MBA da FIAP, enfatiza: “conselhos administrativos têm um poder completamente desconhecido para muitos de nós e é justamente onde estão as chances de mudanças estruturais. Acontece que, antes mesmo de colocar pessoas com recortes plurais é preciso preparar o ambiente. Infelizmente, quanto menor a maturidade corporativa, habilidades técnicas e tempo disponível para presença, menos real é a participação.”

Patrícia Muratori Calfat, conselheira independente na Porto Seguro e Rio Alto Energia Renováveis (Crédito: Divulgação)

“Tazer novas lentes é ir muito além de ter mulheres sentadas nessa cadeira. É a diversificação de gerações, etnias, competências, habilidades, vivências, formações e influência cultural”, alerta Patricia Muratori Calfat, diretora-geral do YouTube no Brasil e conselheira independente da Porto Seguro e Rio Alto Energias Renováveis. Rachel Maia, conselheira administrativa e empresária, fundadora da RM Consulting, explica que o mercado é conservador por natureza e expõe seu preconceito em forma de opinião. “Como mulher e negra, em posição de comando, me senti sozinha muitas vezes. Para contribuir com a mudança desse cenário, hoje dedico parte dos meus esforços no letramento social de executivos”, afirma.

POR MAIS OUTSIDERS NA MESA

Patricia, do YouTube, lembra que outros movimentos com celebridades, comunicadores e influenciadores atuando no topo de decisões das companhias já são mais comuns em outros países. “Sem dúvida, esse caminho é muito interessante para avaliarmos aqui no Brasil. É curioso ver essas diversas facetas agora respondendo também pelos resultados de uma companhia e a relevância que sua voz dissonante terá de fato dentro do Conselho”, destaca. De fato, a lista é longa: Nancy Reagan na Revlon, Beverly Sills na Macy´s, Deepak Chopra na Men’s Wearhouse, Oprah na Weight Watchers, Shaquille O’Neal no Papa John’s, dentre vários outros.

Cristina Junqueira, cofundadora e CEO do Nubank no Brasil, Anitta e David Veléz, cofundador e CEO global do Nubank (Crédito: Divulgação)

“O maior desafio é que, normalmente, essas mudanças têm de ser aprovadas pelo status quo, ou seja, mesmo que a empresa necessite de um Conselho com maior diversidade de gênero, raça ou com experiências profissionais diferentes, quem precisa aprovar são os líderes, que nem sempre entendem a importância dessa diversidade ou conseguem conduzir o processo de seleção de um conselheiro (a) sem viés”, pontua Camila Junqueira, sócia da consultoria FLOW.

“De acordo com a consultoria Korn Ferry, em 2020, houve alta na presença de mulheres em conselhos de administração de empresas brasileiras para 14%. Na União Europeia, o índice chega a 30%, nos Estados Unidos, 25%”

Rachel Maia, conselheira e empresária, fundadora da RM Consulting (Crédito: Claudio Gatti)

Fernanda Ribeiro, COO e fundadora da Conta Black, destaca que a realidade atual ainda é de conselheiros com as mesmas bagagens, redes e experiências. “Quando perfis diferentes são colocados em uma mesma discussão, cada um consegue trazer insights baseados nas suas vivências. Mas não me considero uma outsider, muito pelo contrário. O fato de trazer vivências totalmente diferentes às demais pessoas, me permite levar às discussões para outros níveis. As conversas ficam mais ricas e existe muita receptividade dos demais”, sinala.

Adriana Barbosa, CEO do Pretahub e fundadora da Feira Preta, membro dos conselhos Instituto Ethos, Ethos, Grupo de Institutos Fundações e Empresas, Sistema B, Ambev e Litro de Luz, além de colunista da Fast Company Brasil, enxerga avanços. “Existem programas e movimentos com consistência, história, preparo e articulação de advocacy no mercado para a inclusão de mulheres com uma visão de intersecção, e não somente uma figura pública, em uma perspectiva individual, representa essa mudança. Esse processo pela equidade é coletivo e em rede”.

VOLTANDO À ANITTA E AO NUBANK

“Anitta foi convidada, entrevistada, aprovada por votação do board e já exerce o cargo de diretora do Conselho de Administração do Nubank. É muito importante diferenciar esse, dos casos de PR stunt em que artistas tornam-se heads, consultores ou embaixadores. Essa é uma relação totalmente diferente de qualquer outra que tenha marketing no centro da história pois, nesse caso, a conexão com marca é consequência. É uma troca de conhecimento, de relacionamentos, interação entre as fan bases de cada um, uma conjunção de objetivos de como fidelizar e engajar audiências e fãs em todo mundo”, explica Pedro Tourinho.

Jandaraci Araujo, cofundadora do Conselheira 101 (Crédito: Divulgação) 

Ainda de acordo com Tourinho, é importante considerar as experiências anteriores da artista em topos de tomada de decisão de grandes empresas. “Temos um caso real em que Anitta lidera, de fato, a área de inovações em produto e comunicação de Beats, com a Ambev. É um contrato que já caminha para o terceiro ano, no qual nossa remuneração vem direto dos resultados de vendas e onde a participação de Anitta em estratégia e até mesmo tática e real.”

Adriana Barbosa, CEO da PretaHub (Crédito: Divulgação)

“A mídia, hoje, está cada vez mais voltada para as plataformas de influência, personalidades de muita autenticidade, com relevância e engajamento altos. Isso que as empresas precisam, principalmente startups, e não dá para criar esse tipo de influência dentro de casa, tem de buscar no mercado. Nesse ponto, a personalidade passa a investir seu capital social nas empresas em troca de capital social das empresas, é investir tempo, dinheiro, expertise e influência”, conclui Tourinho.

Jandaraci Araujo, co-fundadora do Conselheira 101, programa de incentivo à presença de mulheres negras em conselhos e membro dos conselhos da Kunumi e CIEE SP, sinaliza a simbologia da notícia envolvendo Anitta. “Pode ser um conselho ou uma posição de outsider, porque também existe essa opção como algumas celebridades já são outsider em algumas marcas, mas o mais importante é trazer a perspectiva de inovação e disrupção dentro de uma organização”.

SOBRE O AUTOR

Luiz Gustavo Pacete é editor-contribuinte da Fast Company Brasil