Eventos climáticos extremos viram apostas e preocupam cientistas
Parceria da Kalshi com a Weather Co. amplia o mercado de previsões sobre o clima e levanta alertas sobre manipulação, incentivos perversos e banalização de desastres.

2026 será o ano mais quente já registrado? Na Kalshi, é possível apostar nisso — literalmente.
A plataforma de mercados de previsão firmou uma parceria com a Weather Co., responsável pelo aplicativo Weather Channel e pelo weather.com, para verificar transações relacionadas ao clima.
Segundo a Kalshi, a iniciativa fornecerá “dados respaldados pela ciência” para que pessoas e empresas possam antecipar e administrar “as maneiras como o tempo e o clima afetam sua vida cotidiana”.
Quem acessar o aplicativo ou o site da Weather Co. também verá os dados de probabilidade da Kalshi em tempo real, ganhando “novas formas de entender como os mercados estão precificando os riscos climáticos”.
Para especialistas em clima, porém, verificar e legitimar apostas sobre o tempo traz uma série de preocupações. A própria Kalshi não usa a palavra “aposta” para descrever as atividades em sua plataforma: chama tudo de negociação. Da mesma forma, classifica seus contratos esportivos como swaps. Mas um tribunal federal de Nevada decidiu recentemente que a empresa não pode escapar das leis estaduais sobre jogos de azar apenas mudando a terminologia.
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Especialistas temem a “gamificação” de eventos climáticos que ameaçam vidas, o risco de manipulação por agentes mal-intencionados e a possibilidade de que apostar no tempo desvie a atenção de discussões mais amplas e necessárias sobre as mudanças climáticas.
MANIPULAÇÃO E AGENTES MAL-INTENCIONADOS
O climatologista Michael Mann diz não ser fã do que chama de “transformação do mundo em aposta”, porque isso pode criar “incentivos perversos” para agentes mal-intencionados.
Mercados de previsão já foram associados a vazamentos, uso de informações privilegiadas e manipulação — até mesmo em torno do clima.
Em abril, uma aposta da Polymarket sobre a temperatura em Paris levou autoridades francesas a investigar se alguém havia adulterado equipamentos de monitoramento meteorológico, após o serviço meteorológico do país registrar uma denúncia.
Ao contrário da Polymarket, porém, a Kalshi é regulada pela Commodity Futures Trading Commission. A empresa afirma proibir negociações com informações privilegiadas e usar vigilância baseada em inteligência artificial para rastrear atividades irregulares ou suspeitas.
A verificação das apostas pela Weather Co. acrescenta outra camada de proteção contra situações desse tipo. No caso de Paris, por exemplo, nenhuma outra estação meteorológica da região registrou aquele pico de temperatura.
Além disso, questões como 2026 ser ou não o ano mais quente já registrado ou qual será a temperatura máxima em Los Angeles em determinado dia — outro exemplo de contrato climático da Kalshi — não são eventos que uma única pessoa possa controlar.
Mesmo deixando de lado uma possível manipulação, Mann afirma que transformar eventos climáticos em matéria-prima para mercados de previsão “só vai alimentar teorias da conspiração sobre geoengenharia, semeadura de nuvens e a ideia de que cientistas ou agentes estatais manipulam o tempo para criar eventos extremos”.
A BANALIZAÇÃO DOS RISCOS CLIMÁTICOS
Cientistas do clima demonstram preocupação especial com os incêndios florestais, muitas vezes provocados por seres humanos, por representarem um risco específico de ação mal-intencionada nos mercados de previsão. A Kalshi afirma não oferecer mercados sobre incêndios florestais, embora pessoas já tenham feito esse tipo de aposta na Polymarket.
“A Kalshi é uma plataforma regulada pelo governo federal e, assim como não permitimos mercados sobre guerra, morte e terrorismo, também não permitimos mercados sobre incêndios florestais, porque eles podem criar incentivos perversos”, disse à Fast Company Laura Frank, porta-voz da Kalshi.
O calor, no entanto, é o fenômeno meteorológico que mais mata nos Estados Unidos. Especialistas em clima já se frustram com a cobertura da mídia em tom de “diversão ao sol”, que minimiza os riscos das ondas de calor. Apostar no calor pode ser mais uma forma de banalizar esses perigos.
A Kalshi não explicou como concilia o impacto mortal do calor com sua proibição de mercados sobre mortes.
“Não acho que os mercados de previsão estejam tentando intencionalmente banalizar a morte”, diz Kaitlyn Trudeau, cientista do clima da Climate Central, organização sem fins lucrativos dedicada à comunicação sobre mudanças climáticas. “Mas também não culparia alguém que perdeu uma pessoa por causa do calor e enxerga isso de outra forma.”
Anthony Leiserowitz, diretor do Yale Program on Climate Change Communication, vê a possibilidade do que chama de “certo risco moral”. “Posso imaginar que os usuários acabem insensíveis às realidades vividas pelas pessoas e pelos lugares danificados ou destruídos nos eventos extremos em que apostam. Eles podem ficar hiperfocados em ‘ganhar a aposta’, sem prestar atenção às consequências concretas no mundo real.”
TODOS TEMOS ALGO EM JOGO QUANDO O ASSUNTO É CLIMA
Mas o contrário também seria possível? Participar de mercados de previsão e criar uma conexão financeira com as mudanças climáticas poderia deixar as pessoas mais conscientes — e preocupadas — com os perigos do clima?
Um estudo de 2025 indica que sim.
Pessoas que apostaram em resultados como julho ser ou não o mês mais quente de uma década ou os níveis de CO₂ ultrapassarem determinado limite passaram a pesquisar ciência do clima para tomar decisões mais bem informadas. Segundo um texto da Columbia Business School sobre a pesquisa, elas também ficaram mais preocupadas com as mudanças climáticas.
Kaitlyn, que não participou do estudo, considera esse potencial interessante. Ainda assim, preocupa-se com a dissonância cognitiva que muitas pessoas já demonstram em relação às mudanças climáticas.
Especialistas afirmam que um dos maiores obstáculos para levar o fenômeno a sério é a ideia de que as mudanças climáticas são um problema a ser resolvido pelas gerações futuras ou de que seus efeitos se restringem a lugares distantes.
“Receio que, ao apostar nesses eventos e transformá-los em algo que recompensa as pessoas, mesmo que a recompensa seja apenas a dopamina no cérebro, nós nos afastemos ainda mais da ameaça muito real e imediata da crise climática”, afirma Kaitlyn.
UMA LONGA HISTÓRIA DE APOSTAS CLIMÁTICAS
Apostar nas mudanças climáticas ou em eventos meteorológicos não é exatamente uma novidade. O Nenana Ice Classic, no Alasca, por exemplo, existe há mais de 100 anos. Nele, milhares de pessoas apostam no dia e na hora exatos em que o gelo do rio Tanana vai se romper na primavera.
Leiserowitz, que estudou o evento, afirma que esse é um exemplo do “efeito sabedoria das multidões”, segundo o qual grupos tendem a fazer previsões mais precisas do que indivíduos — neste caso, com um componente ligado às mudanças climáticas. Ao longo do tempo, o rompimento do gelo passou a acontecer cada vez mais cedo na primavera por causa do aquecimento do planeta.
A Kalshi afirma que é justamente essa “sabedoria das multidões” que tenta aproveitar nas negociações sobre o clima.
Segundo a empresa, companhias já usaram a plataforma para se proteger financeiramente contra o calor extremo. O dono de uma sorveteria fez apostas relacionadas a chuvas ou ondas de frio como forma de ganhar dinheiro quando o mau tempo prejudicava as vendas de sorvete.
As negociações sobre o clima também podem revelar o que o público realmente pensa a respeito das mudanças climáticas, contornando o ruído partidário que costuma obscurecer esse debate.
Em 2005, o cientista do clima James Annan apostou US$ 10 mil com negacionistas que a Terra continuaria aquecendo até 2017. Foi apenas uma das várias apostas climáticas que ele fez com pessoas que rejeitam a ciência do clima.
Os perdedores nunca pagaram, e um dos negacionistas só aceitou participar se recebesse uma vantagem de 50 para 1.
Para Annan, isso mostrou como os críticos estão “dispostos a falar com convicção sem apresentar provas — desde que isso não lhes custe dinheiro”, informou a Politico na época.
APOSTAS NÃO VÃO NOS PROTEGER DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Ainda assim, levar essas apostas para a Kalshi — o maior mercado de previsão do mundo, avaliado em US$ 11 bilhões e com mais de US$ 500 milhões em volume negociado nos mercados climáticos em 2026 — é algo de outra escala.
A área de clima e tempo da Kalshi cresceu 500% em relação ao ano anterior e caminha para alcançar um volume anualizado de US$ 1,1 bilhão.
Com toda essa atividade e, agora, a verificação das negociações pela Weather Co., a Kalshi afirma que seu mercado de previsão fornecerá dados meteorológicos precisos e dará mais autonomia às pessoas.
“Dada a gravidade da crise climática, é crucial que formuladores de políticas públicas e a população tenham acesso a previsões bem calibradas sobre os impactos futuros do clima”, afirma Laura.
Para especialistas, é questionável que mercados de previsão devam ser a fonte desses dados, sobretudo em um momento em que instituições confiáveis como o National Weather Service perderam recursos, prejudicando o acesso do público a informações meteorológicas e climáticas.
“Sabe de onde vêm muitos dados bons e precisos sobre clima e tempo? Da NOAA e de outras agências governamentais que foram dizimadas pelo governo Trump”, diz Mann, destacando que Donald Trump Jr. é consultor estratégico remunerado da Kalshi.
À medida que apostas de mercados de previsão passam a integrar a cobertura jornalística, elas também podem afetar a maneira como os veículos noticiam eventos meteorológicos e climáticos — embora ainda não esteja claro como isso acontecerá.
Em um momento em que o país revoga proteções climáticas e reforça sua aposta nos combustíveis fósseis, transformar o tempo em jogo não é exatamente a melhor conversa a se ter sobre o clima.
“Embora não haja nada de inerentemente errado nesses mercados de previsão, acho importante deixar claro o que eles podem e não podem fazer”, afirma Kaitlyn. “Eles vão nos proteger das mudanças climáticas? Eu não apostaria nisso.”