ONU admite pela primeira vez que aquecimento global vai ultrapassar 1,5 °C

Relatório climático da ONU propõe conter o pico de aquecimento e depois reduzir a temperatura global, hoje 1,4 °C acima do nível pré-industrial.

Planeta Terra cercado por termômetros que representam o avanço do aquecimento global.
Créditos: Elena Mozhvilo via Unsplash

Seth Borenstein 6 minutos de leitura
Favoritar no Google

por Associated Press

Pela primeira vez, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu que o mundo ultrapassará o limite de aquecimento de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, meta estabelecida pelo Acordo de Paris em 2015.

Segundo o novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o aumento da temperatura global ultrapassará esse limite. Mesmo nas projeções mais otimistas, a expectativa é de um pico de 1,8 °C.

Em vez de desistir, cientistas e autoridades da ONU recomendam tentar limitar esse excesso de aquecimento para, depois, reduzir a temperatura ao patamar estabelecido. Ainda assim, serão décadas de agravamento dos desastres relacionados ao clima, elevação do nível do mar, extinções e derretimento de geleiras e camadas de gelo.

“A humanidade está ultrapassando rapidamente o limite para evitar uma catástrofe climática”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Depois de um período de aquecimento acima do limite, a nova estratégia prevê voltar a ficar abaixo desse patamar, encerrando o uso de combustíveis fósseis e desenvolvendo formas de retirar da atmosfera o dióxido de carbono emitido pelas indústrias.

“É um choque de realidade. Precisamos viver com este mundo mais quente”, disse Richard Betts, coautor do relatório e cientista climático da Universidade de Exeter. “Mas ainda podemos fazer muita coisa para limitar o aquecimento.”

O LIMITE DE 1,5 °C SERÁ ULTRAPASSADO

Depois do Acordo de Paris, a ONU encarregou seu braço científico dedicado ao clima de estudar diferentes limites de aquecimento. A meta de 1,5 °C acima das temperaturas de meados do século 19 passou a ser amplamente aceita depois que cientistas demonstraram que os impactos de um aquecimento de 2 °C seriam significativamente mais graves.

Segundo cálculos de alguns cientistas, o mundo já está 1,4 °C acima dos níveis pré-industriais. A medição se baseia na média de um período de 20 anos, e não nas temperaturas de apenas um ano.

Apesar de especialistas afirmarem que não há mais como limitar o aquecimento a 1,5 °C, autoridades da ONU sustentaram por muito tempo que essa possibilidade continuava aberta. O relatório divulgado na quarta-feira finalmente admitiu que o mundo ultrapassará esse limite “nos próximos anos”.

Segundo o documento, no cenário mais otimista, o aquecimento atingirá um pico de 1,8 °C por volta de meados do século, caso os países adotem metas climáticas ambiciosas. As políticas atuais dos governos, porém, devem elevar a temperatura a 2,6 °C acima dos níveis pré-industriais até 2100.

Em vez de evitar um aquecimento de 1,5 °C, a ONU agora quer que formuladores de políticas públicas “se preparem e conduzam um futuro” no qual o planeta ultrapassará esse limite para, então, corrigir a rota e reduzir as temperaturas.

O relatório prevê que a temperatura global supere 1,5 °C “nos próximos anos”, siga uma trajetória ascendente, atinja um pico e depois caia gradualmente para menos de 1,5 °C, de preferência até o fim do século. O documento e os especialistas chamam esse processo de overshoot, ou ultrapassagem temporária do limite.

“Que fique bem claro: a meta de 1,5 °C continua sendo o objetivo. Mas agora precisamos alcançá-la de outra forma, vindo de cima”, afirmou Inger Andersen, diretora-executiva do PNUMA.

O limite de 1,5 °C não é “um precipício climático mágico” a partir do qual tudo está perdido, disse Andrew Weaver, cientista climático da Universidade de Victoria que não participou do estudo. “Cada décimo de grau que conseguirmos evitar ainda representa menos danos.”

LEIA TAMBÉM: “Extremologistas”: a ciência que tenta analisar os eventos extremos

CONTER A ULTRAPASSAGEM É ESSENCIAL

Segundo Inger, o mais importante é primeiro limitar a nova temperatura máxima e, depois, reduzir o tempo em que o planeta permanecerá acima de 1,5 °C.

Leia também: A humanidade já passou por mais de um apocalipse. Que lições tiramos deles?

Mas o mundo provavelmente ficará nesse período de ultrapassagem por “muitas e muitas décadas”, afirmou Betts.

Cada cinco anos de atraso na redução das emissões acrescenta pelo menos um décimo de grau ao pico de aquecimento, disse Joeri Rogelj, coautor do relatório e cientista climático do Imperial College London.

“Se agirmos agora, podemos limitar a ultrapassagem”, diz o relatório. “Não será um mundo seguro, mas será mais seguro do que permanecer acima” de 1,5 °C no longo prazo.

“Este está entre os relatórios climáticos mais sombrios da ONU que já li. Ele traz um tom inequívoco de desespero, frustração e urgência — mas não de resignação”, afirmou Weaver.

O cientista climático Bill Hare, CEO da Climate Analytics, disse que, “embora o PNUMA faça um bom trabalho ao descrever o buraco em que nos metemos, não consegue mostrar bem que existe uma saída”.

ADAPTAÇÃO A UM MUNDO MAIS MORTAL, FAMINTO E SEDENTO

Os governos precisam ampliar os esforços de adaptação ao agravamento do aquecimento, que atinge com mais força as populações pobres, “porque alguns impactos simplesmente não podem ser evitados”, afirmou Inger.

A urgência da adaptação já aparece em territórios brasileiros, onde comunidades periféricas desenvolvem suas próprias estratégias para enfrentar enchentes e outros eventos extremos.

O relatório chama essa fase de “enfrentamento e contenção”.

Durante o período de ultrapassagem, mais pessoas morrerão ou adoecerão por causa do agravamento da mudança climática e dos eventos extremos, segundo o documento. A produção de alimentos cairá, mais pessoas passarão fome, a escassez de água aumentará, as economias sofrerão e espécies como os corais serão extintas.

Embora os fatores por trás das recentes inundações fatais no Nepal, ocorridas após o desprendimento de uma geleira no Himalaia, sejam complexos, Betts afirmou que “infelizmente, esperamos ver mais acontecimentos desse tipo, e é exatamente por isso que precisamos limitar o pico de aquecimento”.

Cientistas ainda investigam como diferentes fatores, incluindo o aquecimento global, contribuíram para a tragédia no Himalaia.

O relatório alerta para “pontos de não retorno”, com efeitos irreversíveis e em cascata. Entre eles estão a perda das camadas de gelo da Antártida Ocidental e da Groenlândia, o desaparecimento da floresta amazônica e a interrupção do sistema de circulação do Oceano Atlântico que mantém grande parte da Europa aquecida.

“Alguns lugares podem se tornar praticamente impossíveis de assegurar ou até inabitáveis”, afirma o relatório.

A última fase da ultrapassagem consiste em resfriar o planeta, retirando dióxido de carbono da atmosfera e armazenando-o em algum lugar. Segundo o relatório, a abordagem tradicional é plantar mais árvores, mas o reflorestamento poderia reduzir, no máximo, um décimo de grau da temperatura global. Por isso, os autores afirmam que serão necessários métodos mais novos de remoção de carbono.

Outros cientistas consideraram essas alternativas pouco confiáveis e caras.

“Não conseguimos parar o trem desgovernado das emissões globais a tempo de evitar um aquecimento de 1,5 °C”, disse Rob Jackson, cientista climático da Universidade Stanford que não participou do relatório. “Agora, os cenários de ultrapassagem exigem que paremos o trem rapidamente e façamos com que recue. É nossa melhor esperança? Sem dúvida. É provável? De jeito nenhum.”


SOBRE O AUTOR

Seth Borenstein é repórter de ciência na Associated Press. saiba mais