Muitas empresas estão enfrentando a crise climática com planos de longo prazo para se tornarem neutras em carbono. Não é o caso do Google. Isso porque ele já cumpriu esta meta em 2007, ao comprar créditos de carbono suficientes para compensar as emissões de gases de efeito estufa que produziu. A empresa acabou acumulando compensações suficientes para zerar todas as emissões geradas desde sua fundação em 1998. E até 2030, ela pretende operar todos os seus data centers de todo o mundo 24 horas por dia, 7 dias por semana, com energia 100% limpa — sem compensação necessária.

Por maior que o Google seja — e por mais que invista em sustentabilidade – continua sendo apenas uma empresa. E, por isso, está assumindo um compromisso que vai além e tem grande potencial: apoiar outras empresas enquanto elas trabalham em seus próprios planos de redução de carbono.

Em sua conferência virtual Next, o braço de computação em nuvem do Google, Google Cloud, lançou ferramentas para medir e relatar as emissões de carbono relacionadas ao uso de seus serviços em nuvem. Também apresentou uma prévia da primeira versão da plataforma de imagens de satélite/dados geoespaciais do Google Earth Engine desenvolvida para uso comercial.

De acordo com Sundar Pichai, CEO do Google e da Alphabet, esses novos recursos não são apenas para o Google tentar tornar seus clientes mais conscientes. As empresas já estão empenhadas em fazer algo a respeito e trabalhar junto com seus parceiros. “Todo CEO com quem converso está focado em sustentabilidade”, diz ele. “E usar o Google Cloud para ajudá-los a fazer essa transição é uma verdadeira oportunidade de inovação.”

Thomas Kurian, CEO do Google Cloud (Crédito: Google)

Além disso, as inovações de hoje podem ser as soluções de amanhã. “Há cinco ou dez anos, a cibersegurança não era assunto em conselhos de empresas”, diz Thomas Kurian, CEO do Google Cloud. “Mas hoje, se tornou parte do processo de auditoria e de gestão de riscos de qualquer organização. Com o aquecimento global, esperamos que o risco climático – e seus impactos nas empresas — se torne cada vez mais um assunto recorrente nos conselhos.”

Antecipar o que os clientes desejam é essencial para a forma como Kurian enxerga seu trabalho. Veterano da Oracle que sucedeu a Diane Greene como CEO do Google Cloud em janeiro de 2019, ficou encarregado de trazer mudanças à empresa, que há muito tempo fica atrás da Amazon Web Services e do Microsoft Azure em participação de mercado. Parte dessa mudança, diz ele, foi o reconhecimento de que a visão do Google sobre si mesmo de ser “o melhor lugar para pessoas que desejam desenvolver uma grande tecnologia” não é suficiente para fazer o Google Cloud prosperar.

“Esse princípio cultural que todos nós compartilhamos no Google Cloud – de que nosso sucesso vem do sucesso de nossos clientes — foi uma das grandes mudanças que tivemos que fazer”, diz ele. “E estamos empolgados com nosso progresso.” Cada vez mais, uma grande parte do nosso sucesso se dá através da ajuda a outras empresas para que se tornem mais sustentáveis.

‘PODEMOS FORNECER INFORMAÇÕES GRANULARES’

Quando se trata de reduzir a emissão de carbono na computação, o Google “merece muito crédito por estimular o mercado, já que eles têm feito isso há muito tempo e são muito transparentes”, diz David Mytton, um empreendedor de Londres que escreve sobre armazenagem em nuvem e sustentabilidade. “Eles não estão dizendo que é tudo ótimo e 100% renovável agora. Estão dizendo, ‘estamos aqui e nosso objetivo é chegar em tal ponto.’” (Mytton também credita a Microsoft pelos esforços do Azure na redução de carbono, mas diz que a AWS foi a mais tímida das três.)

Dado o objetivo do Google Cloud de eliminar totalmente as emissões de carbono de seus data centers, pode chegar o dia em que seus clientes terão uma noção precisa do impacto que causam ao utilizar o serviço. Nesse meio tempo, decisões precisam ser feitas. “Nos próximos 10 anos, enquanto trabalhamos para atingir nosso objetivo, forneceremos novas ferramentas para nossos clientes escolherem opções de baixo carbono em nossa infraestrutura”, diz o líder de sustentabilidade em nuvem Chris Talbott.

Com isso em mente, o Google Cloud atualizou recentemente sua ferramenta que ajuda os clientes a selecionar data centers regionais, adicionando ícones que destacam as opções com o menor impacto de carbono. A empresa afirma que, quando esses ícones estão disponíveis, os clientes têm 50% mais chances de optar por uma escolha limpa; Talbott compara isso ao efeito positivo de apontar os impactos climáticos nas recomendações de rota do Google Maps.

Chris Talbott, líder de sustentabilidade do Google Cloud (Crédito: Google)

Agora a empresa está implementando o Carbon Footprint, um conjunto muito mais rico de ferramentas para informar clientes sobre as implicações ambientais do uso dos serviços da plataforma Google Cloud. Como você pode imaginar, os novos recursos – de forma similar à Calculadora de Sustentabilidade do Microsoft Azure, lançada no ano passado — utiliza os dados que o Google monitora para fins internos há muito tempo. “Estamos constantemente otimizando nossa própria pegada de carbono”, diz Kurian. “Mas os clientes querem ter acesso a isso de uma forma diferente. Portanto, construímos algumas ferramentas personalizadas para eles.”

“Como temos medição granular em toda a nossa infraestrutura subjacente — os data centers, as máquinas, a rede na qual os serviços em nuvem do Google são executados – somos capazes de fornecer informações bastante granulares sobre o produto, o projeto e a localização”, diz Talbott. “Assim, clientes de todo o mundo serão capazes de ver onde suas emissões estão concentradas.” Os dados de cada mês estarão disponíveis em 21 dias — um tempo de resposta rápido para os padrões destes relatórios.

A ferramenta Carbon Footprint do Google Cloud Platform fornece dados de emissões brutas de carbono por produto, projeto e região (Crédito: Google)

A ferramenta Carbon Footprint do Google Cloud Platform fornece dados de emissões brutas de carbono por produto, projeto e região.

Essa precisão e rapidez são essenciais para o banco HSBC, um dos clientes do Google Cloud que está testando os recursos da pegada de carbono. A empresa já controlava suas emissões gerais, mas “agora com essa ferramenta podemos ver o que está acontecendo em nossos aplicativos com tipos específicos de código ou conjuntos de ferramentas que utilizamos em nossos aplicativos na nuvem”, diz Stephen Bayly, CIO do banco para serviços de mercados e títulos. “É essa granularidade que permite uma melhor tomada de decisão.”

Junto com a introdução do Carbon Footprint, o Google Cloud está oferecendo uma atualização voltada para a sustentabilidade na ferramenta Unattended Project Recommendation. Ela utiliza machine learning para encontrar código em execução nos servidores do Google que o cliente talvez tenha esquecido. “Conseguimos identificar com grande precisão que [uma tarefa] pode estar parada ou abandonada”, diz Talbott. “Talvez alguém tenha deixado a empresa ou o projeto não esteja mais em uso.”

Agora, o Unattended Project Recommender também estimará as emissões brutas de carbono que seriam eliminadas se um cliente encerrasse esses trabalhos fantasmas. Em agosto, o Google Cloud calculou o valor mensal agregado para todos os seus usuários e descobriu que chegava a 600 toneladas de CO2 — o equivalente a dirigir um carro por 2,4 milhão de quilômetros.

‘COMO O GOOGLE PODE NOS AJUDAR?’

Outra nova ferramenta do Google Cloud que está sendo anunciada hoje pode ter um impacto generalizado muito além de seus data centers. O Google Earth Engine oferece recursos avançados para analisar dados geoespaciais e de satélite que são essenciais para os diferentes tipos de iniciativas de sustentabilidade.

Embora o Google Earth Engine seja novo no Google Cloud, sua história data de 2009. O serviço “nasceu essencialmente na Amazônia brasileira”, explica Rebecca Moore, diretora do Google Earth. “Estávamos lá fazendo treinamento no Google Earth e fomos abordados por cientistas geoespaciais no Brasil que disseram que estávamos perdendo um milhão de acres da floresta amazônica por ano para o desmatamento. Muito disso estava acontecendo em partes remotas da floresta que não eram protegidas pelas autoridades locais.”

Rebecca Moore, diretora do Google Earth (Crédito: Google)

Imagens de satélite podem desempenhar um papel significativo em ajudar a reduzir esses danos ao meio ambiente. Historicamente, no entanto, permaneceu sem uso em arquivos do governo. Também exigia uma grande capacidade de computação e espaço de armazenamento para análise. O Google possuía as imagens — que estavam coletando para o Google Earth — e os recursos tecnológicos para processá-las. E assim a empresa deu a cientistas, acadêmicos e agências não-governamentais acesso a petabytes (1 petabyte equivale a 1.000 terabytes) de dados que eles processaram usando seus próprios algoritmos. Doze anos depois, mais de 50.000 usuários ativos recorrem ao Google Earth Engine para fazer de tudo, desde observar habitats de tigres até prever surtos de malária.

Durante a maior parte da história do Earth Engine, o Google resistiu ativamente a transformá-lo em um produto voltado para empresas. Ele ofereceu o serviço gratuitamente, mas só concedeu acesso depois que usuários em potencial explicaram o propósito que tinham em mente. O uso para “fins comerciais” foi explicitamente proibido.

Conversas com grandes empresas, cujas pegadas de carbono envolvem cadeias de suprimentos globais, levaram o Google a reconsiderar essa postura. “Começamos a ver muito disso vindo de empresas como Unilever [e Procter & Gamble] e de várias outras grandes corporações”, disse o diretor sênior de gerenciamento de produto do Google Cloud, Sudhir Hasbe. “Eles disseram: ‘ei, temos que nos concentrar na sustentabilidade. Como o Google pode nos ajudar?’”

Uma visualização da mudança da superfície da água no Mar de Aral de 1984 a 2020, gerada usando imagens do Google Earth Engine (Crédito: Google)

“Estava ocorrendo uma transformação na consciência social sobre essas questões e no compromisso corporativo e governamental de resolvê-las”, afirma Moore. “E então parecia que este era realmente o momento de entregar a ferramenta nas mãos dessas organizações.”

Para a Unilever, a grande fabricante de bens de consumo que vão do sabonete Dove ao desodorante Axe; e da sopa Knorr ao sorvete Ben & Jerry’s, nenhuma iniciativa de sustentabilidade é mais importante do que o esforço em mudar sua relação com o óleo de palma. A empresa compra o material em grandes quantidades para usar em muitos de seus produtos. Mas a produção de óleo de palma, que tem sido chamada de “plantio mais odiado do mundo”, é uma das principais causas do desmatamento no Sudeste Asiático. Daí a meta da Unilever de tornar sua cadeia de suprimentos livre de desmatamento até 2023.

Essa meta é dificultada pela forma como a empresa obtém seu óleo de palma – comprando de 1.900 usinas que trabalham com pequenos agricultores. Frequentemente, “o responsável pelo desmatamento é o fornecedor do fornecedor do fornecedor”, diz o diretor da cadeia de suprimentos Marc Engel.

Marc Engel, diretor da Cadeia de Suprimentos da Unilever (Crédito: Google)

Como um dos primeiros testadores corporativos do Google Earth Engine, a Unilever criou a plataforma para entender de onde vem seu óleo de palma, o que também envolve rastrear seu suprimento por meio da geolocalização do celular e trabalhar com a Aidenvironment e a Earthqualizer, duas consultorias sem fins lucrativos. “É uma mudança completa, porque empresas como a nossa, que estão no fim da cadeia desses produtos ou de produtos derivados em todo o mundo, de uma hora para outra, consegue ter acesso a esses dados”, diz Engel. Ele já está investigando como a Unilever pode aplicar o Earth Engine em sua cadeia de suprimentos para outras matérias-primas, como cacau e chá.

A lançamento do Earth Engine como um produto do Google Cloud Platform também pode ser uma virada de jogo para a empresa. Quanto mais o Google Cloud puder aproveitar todos os outros recursos, mais terá chances de oferecer serviços que a AWS e o Microsoft Azure não conseguem.

Com o Google Cloud Platform, “estamos realmente focados em trazer o nosso melhor de maneira que ajude o cliente. E o Google Earth Engine é um ótimo exemplo disso”, diz Pichai.

“UM TRABALHO ÁRDUO, MAS NECESSÁRIO”

Se grandes empresas confiam no Google como parceiro de sustentabilidade, é em parte porque ele descobriu como ganhar a confiança delas, ponto. O Google entrou no ramo de computação em nuvem em 2008 com um serviço chamado Google App Engine. Mas, apesar de toda a sua experiência em implementar tecnologia avançada em grande escala, ele tinha muito o que aprender. Com a criação da AWS, a Amazon já deu um pontapé inicial nos serviços em nuvem e ganhou vantagem formidável em relação aos seus concorrentes. O Azure, por outro lado, tirou proveito das décadas de experiência da Microsoft como fornecedora de tecnologia para empresas de todos os tamanhos. Já o Google – que cresceu devido a produtos que os consumidores amavam e monetizando-os por meio de publicidade – não tinha essa vantagem.

E, por anos, teve de lutar contra a percepção que outros tinham de que não era comprometido o suficiente com as necessidades dos clientes corporativos. Kurian aponta estatísticas para argumentar que isso mudou. “Se você olhar para as 10 maiores empresas do mundo em varejo, mídia, software e serviços, trabalhamos com oito das 10”, afirma. “Na manufatura e no mercado de capitais, trabalhamos com sete das 10. Essas não são apenas empresas digitais que nasceram na nuvem, as quais temos muitas, mas também empresas mais tradicionais que normalmente teriam receio de trabalhar com um novo fornecedor de tecnologia.”

Lori Mitchell-Keller, vice-presidente de soluções para indústria do Google Cloud (Crédito: Google)

Kurian reforçou a capacidade do Google Cloud de atender a setores específicos por meio de contratações como a da ex-executiva da SAP Lori Mitchell-Keller, que ingressou em maio de 2020 como vice-presidente de soluções para indústria. Ela diz que a empresa se aperfeiçoou em “desenvolver a estratégia e a narrativa sobre como abordar [uma] indústria. E isso vai desde documentos de estratégia até soluções reais que iremos construir. Nossa empresa trabalha em estreita colaboração com as equipes de infraestrutura, de engenharia e equipes de I.A./machine learning para apontar: ‘Estes são os maiores problemas de empresas deste setor e essas são as soluções de que precisamos para resolvê-los.’”

Os números da participação de mercado dos três gigantes da computação em nuvem mostram que o Google Cloud Platform continua atrás. No segundo trimestre de 2021, de acordo com a empresa de pesquisas Canalys, ele tinha 8% do mercado, bem atrás da AWS com 31% e do Microsoft Azure com 22%. Ainda assim, por vários motivos, está ganhando força. Canalys diz que o Google Cloud Platform cresceu 66% no segundo trimestre, superando as taxas de crescimento dos seus concorrentes. No trimestre mais recente do Google, a receita do Google Cloud atingiu US$ 4,63 bilhões, um aumento de 54%. E relatou um prejuízo operacional de US$ 591 milhões, porém, inferior aos US$ 1,43 bilhão do ano anterior.

A paciência incomum que o Google demonstrou com o Google Cloud ao longo dos anos pode ter sido uma necessidade, e não uma escolha. “Se o Google ceder esse mercado para a AWS e a Microsoft, será impossível reconquistar desenvolvedores para empreendimentos futuros”, disse Raj Bala, vice-presidente da empresa de pesquisas Gartner. “Então, sim, é um trabalho árduo, mas necessário.” Ele acrescenta que “Thomas Kurian teve um impacto absolutamente positivo no Google Cloud Platform e na postura competitiva da empresa”.

Uma pessoa cuja opinião é muito importante afirma estar satisfeita com o progresso e as perspectivas do Google Cloud. “Obviamente, é um mercado que está crescendo de forma rápida, e Thomas nos posicionou muito bem para termos crescimento de longo prazo”, disse o CEO da Alphabet /Google, Pichai. “E, além de tudo, ele tem uma visão muito clara de para onde o mercado está caminhando.”

Kurian pode creditar o movimento recente do Google Cloud ao seu “foco empresarial e à empatia com o cliente” como um todo, mas não é surpresa que Pichai retome um ponto importante que está sempre presente no Google: a inovação técnica como uma forma de progresso humano. “Estamos investindo profundamente em tecnologia fundamental, seja em I.A. ou em análise de dados; seja em computação quântica ou em segurança”, afirma ele. “Trazer tudo isso para empresas de todo o mundo é um exemplo importante de como podemos causar impacto. E, para isso, adotamos uma visão de longo prazo.”

À medida que o Google Cloud continua tentando alcançar seus concorrentes diretos, mais paciência será necessária, bem como, conseguir convencer clientes de que seu compromisso é real.

SOBRE O AUTOR

Harry McCracken é editor de tecnologia da Fast Company baseado em San Francisco. Em vidas passadas, foi editor da Time, fundador e editor da Technologizer e editor da PC World. Mais