As cidades (também) estão esgotando nossa atenção

De São Paulo a Barcelona, cidades estão encontrando maneiras de reduzir estímulos e criar espaços que aliviam a sobrecarga mental

excesso de estímulos auditivos e visuais nas cidades
Créditos: Deagreez/ Adobe Stock/ OpenStreetMap/ Avanka/ Raphael Lopes/ Unsplash

Julia Gendin 4 minutos de leitura
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Você está parado em uma faixa de pedestres. O sinal está vermelho. Um ônibus passa rugindo perto demais. Seu celular vibra com uma oferta “compre um, leve outro”. Um painel muda de um anúncio de perfume para o número de telefone de um escritório de advocacia especializado em indenizações por acidentes.

Ao seu lado, alguém está falando sobre o ex-namorado que a traiu. O sinal para pedestres começa a piscar. Você dá um passo à frente, mas uma caminhonete ao seu lado já começa a fazer uma conversão à direita.

Antes de atravessar uma única rua, seu cérebro já processou uma dúzia de demandas concorrentes. Então você chega ao trabalho, à escola ou à academia e se pergunta por que, diabos, não consegue se concentrar. O que há de errado com você?

Tendemos a tratar essa sensação como uma falha pessoal. Largue o celular. Pare de rolar a tela. Tenha mais disciplina. Mas o desenho das cidades está exigindo que as pessoas mantenham a atenção em ambientes deliberadamente projetados para fragmentá-la.

A neurociência nos dá um motivo para levar essa questão a sério. A atenção depende de sistemas cognitivos de capacidade limitada que precisam selecionar continuamente quais informações receberão prioridade enquanto suprimem estímulos concorrentes.

A neurocientista Grace W. Lindsay, em um artigo de 2020 sobre atenção, a descreve como “o controle flexível de recursos computacionais limitados”. O cérebro precisa, portanto, determinar continuamente para onde direcionar e encaminhar as informações, em vez de processar tudo o que existe ao nosso redor com a mesma prioridade.

Elementos visuais, incluindo contraste de cores, intensidade e movimento, podem atrair automaticamente a atenção sem esforço consciente. Ainda assim, nossa infraestrutura pública é projetada para manter as pessoas engajadas, não importa o custo.

Urbanistas e formuladores de políticas públicas podem promover a saúde e o bem-estar da população ao reduzir as demandas cognitivas impostas aos moradores. Isso pode significar limitar a publicidade digital em espaços públicos especialmente movimentados, ampliar áreas silenciosas, plantar mais árvores e criar espaços para pedestres que ofereçam alívio sensorial.

A Lei Cidade Limpa, de São Paulo, oferece um exemplo de como isso pode funcionar. Em 2007, a cidade proibiu a publicidade externa, obrigando a retirada de mais de 15 mil outdoors e submetendo centenas de milhares de letreiros comerciais a restrições.

Em 2016, a lei também determinou a retirada de anúncios em ônibus, táxis e painéis, enquanto a cidade posteriormente começou a reintroduzir alguma publicidade de formas mais controladas.

É uma prova de que as cidades podem decidir quais mensagens comerciais ocupam os espaços públicos compartilhados, em vez de tratar cada superfície disponível como espaço publicitário.

Além de reduzir a poluição visual de outdoors e placas de trânsito que distraem tanto pedestres quanto motoristas, as cidades também podem adotar normas para a iluminação externa a fim de manter o céu livre de poluição luminosa desnecessária.

A primeira legislação do gênero nos Estados Unidos, a Dark Sky Ordinance de Pittsburgh, elaborada em parceria com especialistas em céu escuro, utiliza proteção contra o direcionamento da luz, dimmers e iluminação mais quente em todos os parques, instalações e postes de iluminação da cidade.

Além de reduzir distrações e ofuscamento provocados pela iluminação, a medida também diminui o desperdício de energia. Urbanistas podem pensar em como projetar espaços noturnos para ajudar as pessoas a enxergar sem exigir que olhem para luzes desnecessárias.

As cidades também podem proteger nossa atenção simplificando os ambientes que somos obrigados a percorrer. Ruas de trânsito lento e vias exclusivas para pedestres ajudam a eliminar obstáculos e interferências, permitindo que as pessoas se movimentem com segurança sem precisar navegar constantemente por perigos.

As famosas superquadras de Barcelona são um exemplo mais radical de como as cidades podem transformar espaços dominados pelos carros em lugares centrados nas pessoas, recuperando as ruas para usos que vão além da circulação de veículos.

Mesmo com essas intervenções, a atenção continuará sendo um recurso limitado que nossos ambientes e espaços públicos nos pedirão para gastar. Se as cidades exigem constantemente nossa atenção, também deveriam oferecer lugares onde possamos recuperá-la.

Em um estudo de 2008, psicólogos compararam participantes que caminharam por um arboreto com aqueles que caminharam por um ambiente urbano. Depois, o grupo que esteve em contato com a natureza teve um desempenho melhor em um teste de atenção direcionada, sugerindo que a exposição a ambientes naturais pode ajudar a restaurar o funcionamento da atenção.

A atenção merece ser tratada como qualquer outro recurso público, algo que as cidades têm a responsabilidade de proteger, e não de esgotar. Já perguntamos se uma rua é segura, acessível e adequada para caminhar. Também deveríamos perguntar se as pessoas que circulam por ela ainda têm algum espaço mental quando chegam ao destino.

Este artigo foi publicado pela Next City, organização jornalística sem fins lucrativos que cobre soluções para cidades mais equitativas. Leia o artigo original.


SOBRE A AUTORA

Julia Gendin é estudante de neurociência na Universidade de Boston e escreve sobre a interseção entre neurociência, políticas públicas... saiba mais