Líderes negros chegam ao topo. A AZO quer ajudá-los a permanecer lá

Escola de negócios voltada a líderes negros captou R$ 1,5 milhão e aposta em repertório, visibilidade e rede para combater a solidão nos espaços de decisão

Duas peças pretas de xadrez aparecem no alto de uma estrutura, diante de uma nuvem e do céu azul.
A AZO aposta em repertório, visibilidade e rede para apoiar líderes negros nos espaços de decisão.

Camila de Lira 7 minutos de leitura
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Do alto do World Trade Center, em Nova York, era possível enxergar um dos maiores centros financeiros do mundo. Dentro da sala, executivos negros brasileiros discutiam carreira, poder, dinheiro e as regras que determinam quem consegue avançar dentro das empresas.

O lugar fazia parte da história. Era uma sala parecida com aquelas em que investimentos são aprovados, estratégias são definidas e sucessores são escolhidos. Naquela tarde, durante a Climate Week NYC 2026, ela estava ocupada por profissionais negros que já haviam conquistado posições de liderança — e queriam entender como chegar ainda mais longe e abrir caminho para outras pessoas.

“Não é tudo sobre a sala, mas também é muito sobre a sala”, disse Talita Matos, uma das fundadoras da AZO. “Na maior parte do tempo, não somos convidados para as salas importantes.”

A AZO é uma escola de negócios brasileira dedicada à média e alta liderança negra. Fundada por Talita, Eliezer Leal e Carolina Spotorno, a empresa foi apresentada ao mercado em um encontro no escritório da VML, em Lower Manhattan.

Eliezer Leal, Talita Matos e Carolina Spotorno, fundadores da AZO, posam diante da paisagem de Nova York.
Da esquerda para a direita, Eliezer Leal, Talita Matos e Carolina Spotorno, fundadores da AZO. Crédito: Dione Lopes

O negócio nasce com um investimento inicial de R$ 1,5 milhão, levantado com investidores-anjo, entre eles pessoas negras que também conhecem os desafios de construir uma carreira em ambientes onde poucas lideranças se parecem com elas.

A proposta parte de um problema que os fundadores chamam de “solidão estratégica”. Ela aparece quando um profissional negro chega a um cargo de decisão, mas não encontra pares com quem possa discutir abertamente os dilemas daquela posição.

São conversas sobre quando falar, como discordar, de que forma negociar uma promoção, quem influencia determinada decisão e como identificar as relações de poder dentro de uma organização. Questões que raramente aparecem nos programas tradicionais de liderança, embora possam definir quem é ouvido, promovido ou convidado para a próxima sala.

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OS CÓDIGOS QUE NÃO ESTÃO ESCRITOS

A presença de pessoas negras diminui à medida que a hierarquia corporativa avança. Segundo o estudo Perfil Social, Racial e de Gênero das 1.100 Maiores Empresas do Brasil, divulgado pelo Instituto Ethos em 2024, profissionais negros representam 70,8% dos trainees, 13,8% da diretoria e 5,9% dos conselhos de administração.

Participante do lançamento da AZO observa Nova York usando uma camiseta com a frase “Viver o poder da periferia”.
Raul Santiago participou do lançamento da AZO em Nova York. Crédito: Dione Lopes

Os números ajudam a explicar por que chegar à liderança não encerra o problema. Em muitos casos, inaugura uma nova etapa de isolamento.

Profissionais cujas famílias circulam há gerações por espaços de poder costumam receber, desde cedo, informações sobre como esses ambientes funcionam. Aprendem quem procurar, como se posicionar, quais movimentos de carreira fazem sentido e quais conversas precisam acontecer fora das reuniões formais. 

São códigos que nenhuma escola de administração ou pós-graduação ensina: como fazer um pitch. Para quem pedir investimentos. Qual a hora de apresentar suas ideias e qual o momento de se expor. 

Para muitos executivos negros, esse conhecimento precisa ser descoberto durante o caminho, frequentemente por tentativa e erro. Sabendo que o erro não é perdoado tão facilmente quando a estrutura da sociedade favorece a branquitude. 

Talita descreve esse processo como a necessidade de decifrar o “código-fonte” das organizações. São normas que existem, produzem consequências e organizam relações de poder, ainda que ninguém as apresente formalmente a quem chega.

Uma alta executiva do setor de saúde contou que levou tempo para perceber que seguir as regras e entregar bons resultados não seriam suficientes para fazê-la avançar.

“Eu teria sido menos ingênua 20 anos atrás”, afirmou durante o evento. “Fazer o que é certo e seguir as regras não leva tão longe. É preciso entender o negócio, como as pessoas tomam decisões, para onde vão o dinheiro e o tempo e quem é chamado a contribuir.”

Essa leitura também envolve saber quando falar, quando observar e como interpretar rapidamente a dinâmica de uma sala. Ela explicou que mulheres negras e integrantes de outros grupos minorizados podem ser considerados agressivos ou inadequados quando se posicionam. O silêncio, por outro lado, também pode reduzir sua influência.

Parte do trabalho consiste em compreender como o jogo está sendo disputado sem permitir que essa vigilância permanente apague sua presença.

UMA SALA PARA PERGUNTAR SEM MEDO

A densidade das conversas durante o encontro mostrou outra dimensão da solidão enfrentada por essas lideranças. Entre pares, os participantes compartilharam dúvidas, erros e situações que dificilmente apareceriam em um evento corporativo convencional.

Havia relatos sobre ser a única pessoa negra em uma reunião, não compreender de imediato como determinada decisão havia sido tomada ou descobrir tarde demais que algumas escolhas importantes aconteciam fora dos canais oficiais.

Também havia espaço para falar sobre medo, cansaço e insegurança sem que essas experiências fossem interpretadas como falta de preparo para liderar.

Participantes do lançamento da AZO conversam em uma sala de reuniões com vista para Nova York.
Encontro de lançamento da AZO reuniu lideranças negras brasileiras durante a Climate Week NYC 2026. Crédito: Dione Lopes

Segundo Talita, as pessoas se apresentam de outra forma quando sabem que podem fazer perguntas sem julgamento. Nesse contexto, o ambiente tem uma função tão importante quanto o conteúdo ensinado. A troca permite transformar episódios vividos individualmente em conhecimento compartilhado.

A solidão estratégica nasce justamente da ausência desse lugar. Quem ocupa uma posição para a qual a estrutura social sempre o preparou costuma ter pessoas próximas que conhecem os mesmos códigos. Pode consultar familiares, antigos colegas, mentores ou amigos que já enfrentaram dilemas semelhantes.

Para quem é o único em uma sala, uma dúvida profissional pode se misturar a questões mais difíceis: o que aconteceu faz parte do jogo corporativo? Houve um erro individual? Houve racismo? É seguro contestar? Qual será o custo de falar?

A AZO pretende transformar essas perguntas, muitas vezes enfrentadas em silêncio, em conversas estruturadas entre profissionais que conhecem o peso de ocupar esses lugares.

Leia também: 8 ideias de lideranças negras para um 2023 mais inclusivo

DA SINGUÊ À AZO

A empresa nasce da experiência da Singuê, consultoria de diversidade, equidade e inclusão criada por Talita e Leal. Em quase seis anos, a consultoria formou mais de 3.700 profissionais negros e trabalhou com empresas como Natura, Itaú BBA, Netflix e Gerdau.

Segundo os fundadores, a Singuê acumulou mais de R$ 15 milhões em faturamento no período. A atuação dentro de grandes empresas também revelou uma lacuna: depois dos programas de formação, os profissionais continuavam precisando de uma rede permanente para discutir carreira, ampliar repertório e construir relações com pessoas capazes de influenciar novas oportunidades.

A AZO foi criada para ocupar esse espaço. Seu principal produto será o AZO Club, um clube por assinatura organizado em três eixos: repertório, visibilidade e rede.

O repertório será desenvolvido por meio de masterclasses, oficinas e discussões sobre as ferramentas necessárias para assumir novas posições. A frente de visibilidade pretende aproximar os integrantes de convidados, embaixadores e pessoas que participam das decisões dentro das organizações. A rede será construída em encontros semanais de até 90 minutos, mentorias coletivas e salas de debate.

O modelo também prevê um clube do livro mensal e uma apresentação qualificada por participante a cada mês. A ideia é evitar conexões genéricas e aproximar pessoas que tenham interesses, desafios ou possibilidades concretas de colaboração.

A operação começa com grupos de convidados e será posteriormente aberta ao público. A empresa também planeja oferecer novas formações e promover imersões internacionais em lugares como Nova York, Ruanda e Tanzânia.

A participação de investidores negros na rodada inicial acrescenta outra dimensão à tese do negócio. Profissionais que conseguiram alcançar espaços de influência estão usando capital, conhecimento e rede para construir uma infraestrutura capaz de apoiar outras lideranças.

Ao fim da tarde no World Trade Center, o lançamento de uma escola de negócios havia se transformado em uma conversa sobre o que acontece depois que uma pessoa negra consegue entrar na sala.

Chegar continua sendo difícil. Permanecer, influenciar decisões e avançar exige conhecer regras que raramente são explicadas. Ao colocar esse conhecimento em circulação, a AZO aposta que as próximas lideranças poderão percorrer esse caminho com menos dúvidas, menos medo e mais pessoas ao lado.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é editora-chefe da Fast Company Brasil e jornalista formada pela ECA-USP. Cobre tecnologia, inteligência artificial, in... saiba mais