A ginga de Báyò Akómoláfé em um mundo de policrise

Corpo, ancestralidade e inteligência artificial se cruzam no pensamento do filósofo nigeriano, que vê na ginga uma forma de escapar às lógicas de captura do presente.

Báyò Akómoláfé em colagem com referências afro-brasileiras, embarcações e arquitetura histórica ao fundo.
Báyò Akómoláfé propõe a ginga como uma forma de escapar às lógicas de captura do presente. Crédito: Divulgação / Fast Company Brasil

Beatriz Felizardo 5 minutos de leitura

Tudo começou com a apresentação Dançando os Orixás, Cantando pro Santo, da Cia Cambona, coletivo artístico e centro cultural de São Paulo. Antes mesmo da fala de Báyò Akómoláfé, a dança afro-brasileira ocupou o centro da sala, antecipando um dos principais argumentos do filósofo nigeriano: o corpo guarda memórias, ancestralidades e formas de conhecimento que sobrevivem ao tempo.

Em mais uma de suas vindas ao Brasil, Báyò participou da série ìdòwú, realizada pelo Instituto Toriba e Dancing With Mountains, em parceria com o Instituto Desacelera e a Casa do Povo. O filósofo nigeriano não começou falando de crise, inteligência artificial ou inovação. “O erro é pensarmos que a dança é entretenimento. Ela é resistência”, disse nos primeiros minutos da palestra.

A frase deu o tom da conversa que viria pela frente: em um mundo que exige rigidez, velocidade e respostas imediatas, talvez seja preciso reaprender a olhar para o corpo. Foi a partir dessa provocação que Akómoláfé apresentou a ginga como uma inteligência corporal capaz de escapar das estruturas que tentam capturar, medir e classificar a vida.

Para o filósofo, o corpo não é uma estrutura isolada, mas um depósito de forças e movimentos que o antecedem. Mais do que uma estrutura física, ele é um território em permanente transformação, habitado por bactérias, ancestralidades e temporalidades diversas. “O corpo nunca cabe completamente em si mesmo”, sugere ao longo da palestra, ao defender que somos atravessados por relações que vão muito além da experiência individual.

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É justamente desse excesso que nasce a ginga. Ela não deve ser lida apenas como uma técnica de dança ou um movimento de capoeira, mas como uma forma de inteligência que escapa às tentativas de controle e classificação. “Ginga é quando seus rastros não somam uma identidade. É o erro de registro dos rastros”, explica.

Akómoláfé insiste que a ginga não pode ser transformada em método, produto ou ferramenta. “A ginga é o convite à arte. Ela não é uma ferramenta ou uma tecnologia. É um convite para olhar de forma diferente para o que nossas comunidades e nossos corpos estão fazendo”, afirma. Não se trata de uma técnica de produtividade, mas de uma forma de perceber aquilo que os corpos já fazem para escapar à captura.

Para ele, nossos corpos estão “sob cerco”, capturados por algoritmos, inteligência artificial e redes sociais que nos empurram para binarismos exaustivos. A urgência permanente de reagir faz com que nos tornemos rígidos, presos a posições cada vez mais fixas, um processo que ele chama de “enrijecimento” (the tightening). “O modo como respondemos à crise é parte da própria crise”, afirma.

QUANDO SE MOVIMENTAR ERA SOBREVIVER

Para Akómoláfé, a origem desse movimento está nos porões dos navios negreiros, onde os corpos roubados eram acorrentados e comprimidos em espaços mínimos. À medida que a embarcação balançava, a imobilidade deixava de ser uma opção: permanecer completamente parado significava morrer. “O navio ensinou ao corpo que a imobilidade é a morte e que o movimento contínuo dentro de uma aparente imobilidade é a sobrevivência”, explica.

Báyò Akómoláfé posa diante de uma parede de pedra, usando camisa amarela.
Para Báyò Akómoláfé, o corpo não é uma estrutura isolada, mas um território atravessado por memória, ancestralidade, tecnologia e crise.

É nessa experiência que Akómoláfé localiza a origem da ginga: não como uma dança, mas como uma inteligência corporal nascida da necessidade de sobreviver quando permanecer imóvel significava morrer.

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Ao conectar essa história ao Brasil, Akómoláfé lembra que cerca de 5 milhões de africanos foram trazidos ao país durante o tráfico transatlântico. Para ele, porém, essa travessia nunca transportou apenas corpos. “Os senhores de escravos tentaram contar os corpos, mas esses corpos contrabandeavam os Orixás”, afirma, explicando que saberes, divindades e formas de existir atravessaram o Atlântico junto com as pessoas escravizadas.

É por isso que, para Akómoláfé, o Brasil ocupa um lugar singular. “A modernidade branca quer que você fique parado. Ela quer te categorizar, te nomear, te fixar no lugar... Mas algo sobre o Brasil resiste a esse tipo de nomeação”, diz.

Essa resistência aparece no samba, na capoeira e nas tradições de matriz iorubá, em que o balanço do corpo preserva formas de saber, memória e sobrevivência. Para Akómoláfé, há no Brasil o “traço de um futuro que ainda não chegou”.

A CRISE TAMBÉM ESTÁ NO CORPO

“O modo como respondemos à crise é parte da própria crise”, afirmou Akómoláfé. Para o filósofo, a crise não está apenas “lá fora”: ela atravessa os corpos, molda percepções e influencia a forma como reagimos ao mundo.

Esse estado de alerta permanente aparece no fluxo contínuo de informações, algoritmos e notificações. A cada nova urgência, plataformas e sistemas disputam nossa atenção e nos empurram para respostas rápidas, posições fixas e identidades cada vez mais previsíveis.

É contra essa repetição que Akómoláfé volta à ginga: um movimento que resiste à fixação e escapa das tecnologias que buscam medir, prever e classificar quem somos.

MUITO ALÉM DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

“Então, quer você odeie a IA ou não, é o mesmo centro de dados que o equipa para usar o seu telefone e o Twitter — ou melhor, o X. Estamos todos conectados com essa realidade”, disse Akómoláfé, depois de pedir que a plateia levantasse a mão para indicar quem usava ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT.

Para o filósofo, a questão não é apenas usar ou rejeitar essas tecnologias, mas reconhecer que todos já habitamos a mesma infraestrutura digital. “Nós não pensamos aqui [na cabeça]. Pensamos em algoritmos, arquitetura e centros de dados.”

É dessa dependência tecnológica que, segundo ele, nasce o “enrijecimento” (the tightening): uma lógica que nos empurra para respostas rápidas, posições fixas e formas cada vez mais previsíveis de existir.

Enquanto a inteligência artificial e outras tecnologias de captura buscam produzir perfis cada vez mais precisos a partir dos nossos rastros digitais, a ginga permanece como aquilo que escapa ao registro. É um movimento fugitivo, que não pode ser reduzido a dados ou convertido em uma identidade estável. Como resume Akómoláfé: “Você pode medir o corpo, mas toda vez que o mede, o corpo escapa. E esse escapar se chama ginga.”


SOBRE A AUTORA

Beatriz Felizardo é estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, apaixonada por direitos humanos e curiosa sobre as transformaç... saiba mais