Crianças de até 11 anos já apostam em bets no Brasil

Pesquisa mostra que quase metade dos alunos do 3º ano do ensino médio já fez apostas, e as perdas acumuladas podem ultrapassar R$ 1 bilhão.

Mãos seguram celular com jogo de apostas diante de um grupo de adolescentes
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Isabella Lura 4 minutos de leitura
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As apostas online deixaram de ser uma prática associada apenas a casas de jogos ou a partidas esportivas e passaram a fazer parte do cotidiano digital. No Brasil, a dimensão desse mercado já pode ser medida em milhões: uma análise do Banco Central estimou que cerca de 24 milhões de pessoas fizeram ao menos uma transferência via Pix para empresas de apostas em agosto de 2024.

Um a cada cinco estudantes do ensino fundamental e médio no Brasil afirma ter feito apostas online, segundo pesquisa feita pela Frente Parlamentar Mista da Educação em conjunto com a Equidade.info, o levantamento ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas de todo o país.  Entre os alunos de até 11 anos, 9,5% disseram já ter apostado. A proporção cresce conforme a idade e chega a 49,7% entre os estudantes do 3º ano do ensino médio.

Os meninos também aparecem mais expostos: 27,8% afirmaram já ter apostado, contra 12,6% das meninas. No ensino médio, 41,7% dos meninos disseram ter feito apostas, mais que o dobro dos 19% registrados entre os alunos do ensino fundamental II. As perdas somadas podem superar R$ 1 bilhão, de acordo com o levantamento.

UM MERCADO QUE CHEGA CADA VEZ MAIS CEDO

Os números da pesquisa mostram que a exposição às apostas começa antes da idade em que os estudantes deveriam ter contato com esse mercado. Embora a participação de menores seja proibida, 9,5% dos alunos de até 11 anos entrevistados afirmaram já ter apostado. Entre os estudantes mais velhos, a prática se torna ainda mais frequente, chegando a quase metade dos alunos do 3º ano do ensino médio.

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A pesquisa estima que as perdas acumuladas podem ultrapassar R$ 1 bilhão entre os estudantes ouvidos. Entre as medidas propostas pelos organizadores estão o aumento da tributação sobre as transações das plataformas, restrições à publicidade e mecanismos específicos para impedir a exposição de menores.

O desafio, portanto, não está apenas em convencer crianças e adolescentes a não apostar. Ele envolve limitar o contato desse público com uma indústria que se tornou parte do ambiente digital e cuja publicidade pode aparecer em redes sociais, conteúdos de influenciadores e transmissões esportivas.

Quando quase metade dos estudantes do último ano do ensino médio já teve contato direto com as bets e até crianças de 11 anos aparecem entre os apostadores, a discussão deixa de ser sobre um comportamento isolado. Ela passa a envolver a forma como esse mercado é apresentado, promovido e colocado ao alcance de uma geração que cresceu conectada.

A APOSTA NO COTIDIANO DIGITAL

A expansão das bets acontece em um ambiente no qual crianças e adolescentes estão cada vez mais conectados. Segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, 92% das pessoas de 9 a 17 anos são usuárias de internet no país. O celular é o principal meio de acesso: 96% utilizam o aparelho para entrar na rede.

A pesquisa também investigou, pela primeira vez, a exposição desse público à divulgação de jogos de apostas. Entre os usuários de internet de 11 a 17 anos, 53% disseram ter visto pessoas divulgando esse tipo de jogo na internet. O percentual faz parte de um cenário mais amplo de contato com publicidade: 55% relataram ter visto anúncios em redes sociais, 52% em sites de vídeos e 52% na televisão.

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A TIC Kids Online identificou que 84% dos usuários de 11 a 17 anos viram conteúdos de divulgação de produtos ou marcas que não eram necessariamente identificados como propaganda. Entre os formatos estão vídeos de pessoas ensinando a usar produtos, mostrando itens recebidos de marcas ou fazendo desafios e brincadeiras.

No caso das apostas, esse tipo de exposição pode aproximar a prática de conteúdos de entretenimento e do universo de influenciadores, tornando a atividade mais familiar para crianças e adolescentes.

Essa relação entre publicidade, influenciadores e a naturalização das apostas também aparece na vida adulta. Uma pesquisa inédita sobre o impacto das bets entre mulheres mostra como a exposição pode ultrapassar o anúncio tradicional e entrar nas redes de confiança e no cotidiano das famílias. Entre as mulheres que já fizeram apostas, 79% afirmam que passaram a receber mais conteúdos sobre o tema nas redes sociais depois do primeiro acesso às plataformas. 

A própria facilidade de acesso é apontada como um fator de preocupação. As plataformas funcionam pelo celular e podem ser utilizadas a qualquer momento, enquanto recursos como notificações, bônus e apostas em tempo real estimulam a continuidade da atividade.

O PROBLEMA VAI ALÉM DO DINHEIRO

A preocupação não se resume à possibilidade de perder dinheiro. O Ministério da Saúde trata o transtorno do jogo como um comportamento aditivo e relaciona o problema a consequências como ansiedade, depressão, culpa, isolamento social, dificuldades financeiras e conflitos familiares.

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Dados reunidos pelo Ministério da Saúde em nota técnica mostram que, entre a população brasileira com mais de 14 anos, 25,9% já haviam apostado alguma vez na vida, segundo o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD). Entre aqueles que já apostaram, 7,3% apresentavam jogo de risco ou problemático e 4,4% preenchiam critérios para transtorno do jogo. Adolescentes aparecem entre os grupos considerados mais vulneráveis.

A pesquisa estima que as perdas acumuladas entre os estudantes pesquisados podem ultrapassar R$1 bilhão. Entre as medidas defendidas pelos organizadores estão maior tributação das transações, restrições à publicidade e mecanismos específicos de proteção para menores de 18 anos.


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar... saiba mais