Bullying e cyberbullying disparam entre crianças e adolescentes no Brasil
Registros de mortes violentas entre crianças e adolescentes diminuem, mas bullying e cyberbullying avançam e impõem novos desafios à proteção da infância

Mais completo retrato da violência e da criminalidade no Brasil, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mostra o avanço de diferentes formas de violência mediadas por tecnologias digitais contra crianças e adolescentes.
A 20ª edição do levantamento aponta que alguns indicadores – como mortes violentas intencionais e registros de estupro de menores – apresentaram queda em 2025.
Já crimes como bullying, cyberbullying, aliciamento online e produção de material relacionado a abuso sexual infantil cresceram e passam a ocupar espaço cada vez maior entre as ocorrências registradas. .
Em 2025, os registros de bullying no Brasil chegaram a 4.549 casos, aumento de 68,2% em relação ao ano anterior. O cyberbullying cresceu 61,4%, totalizando 677 ocorrências. Considerando as duas modalidades em conjunto, os registros apresentaram crescimento de 67,3% entre 2024 e 2025.
Embora os dados já sejam expressivos, o próprio estudo ressalta que eles representam apenas uma parcela do fenômeno, já que muitas vítimas não denunciam ou sequer reconhecem que foram alvo de um crime.
Na apresentação do Anuário, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública destaca que o país enfrenta a expansão das economias digitais ilícitas e que essa mudança afeta diretamente a violência contra crianças e adolescentes.
Segundo dados do levantamento, enquanto os registros de mortes violentas de crianças e adolescentes diminuíram em 2025, cresceram diferentes modalidades de violência mediadas pelas tecnologias digitais.
Leia mais: Como reagir ao sofrer bullying no trabalho – ou em qualquer outra situação
Os registros de bullying correspondem a uma taxa nacional de 10,2 ocorrências para cada 100 mil crianças e adolescentes. Em relação ao cyberbullying a taxa é de 1,7 ocorrência por 100 mil habitantes da mesma faixa etária.
Segundo o Anuário, parte desse crescimento pode estar relacionada à criminalização da intimidação sistemática no ambiente digital.
INTERNET AMPLIA A VULNERABILIDADE DOS ADOLESCENTES
As maiores taxas de bullying foram registradas entre crianças de 10 a 13 anos, seguidas pelos adolescentes de 14 a 17 anos. No caso do cyberbullying, a incidência é ainda mais concentrada entre os adolescentes.
Mas o crescimento da violência digital não se limita aos episódios de intimidação entre colegas. Os pesquisadores chamam atenção para crimes ainda mais graves que têm encontrado espaço no ambiente virtual.
Pela primeira vez, o Anuário apresenta uma análise nacional dos registros de produção, posse e distribuição de material relacionado a abuso sexual infantil.

A maior parte das vítimas é do sexo feminino e a incidência aumenta com a entrada na adolescência, período em que crianças passam a utilizar com maior frequência celulares, redes sociais e outras plataformas digitais.
Em 86,5% dos registros há apenas autores do sexo masculino. Um dos dados revela que 34,2% dos autores identificados são adolescentes. O resultado indica que parte desses crimes ocorre entre jovens da mesma faixa etária e reforça a necessidade de ampliar ações de educação digital e prevenção dentro das escolas e das famílias.
As crianças continuam sendo as principais vítimas dos crimes cometidos no ambiente digital. Nos casos de estupro e estupro de vulnerável, 84,2% das vítimas são do sexo feminino.
Entre as vítimas de estupro de vulnerável, a maioria tem menos de 14 anos, evidenciando que crianças continuam extremamente expostas à violência sexual, ainda que parte dela esteja migrando para os ambientes virtuais.
O DESAFIO DA PROTEÇÃO NA ERA DIGITAL
Apesar da redução dos registros de estupro em 2025, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública recomenda cautela na interpretação desse dado.
Segundo os pesquisadores, a diminuição pode refletir uma menor capacidade de denúncia e não, necessariamente, uma redução efetiva da violência sexual, que historicamente apresenta elevados índices de subnotificação.
As crianças continuam sendo as principais vítimas dos crimes cometidos no ambiente digital.
Ao analisar o conjunto dos indicadores, o Anuário aponta que a violência contra crianças e adolescentes está passando por uma reconfiguração.
Enquanto alguns crimes apresentaram retração nos registros, modalidades como bullying, cyberbullying, aliciamento online e produção, posse e compartilhamento de material de abuso sexual infantil avançam e revelam que a internet passou a ser um espaço onde se fazem novas vítimas.
Nesse cenário, a violência deixa de estar restrita ao ambiente doméstico ou escolar e passa a acompanhar crianças e adolescentes também nas redes sociais, aplicativos de mensagens, plataformas de jogos e outros espaços digitais.