Planeta caminha para um “ecocídio”, alerta Carlos Nobre

Com o El Niño em curso e mais de 90% de chance de atingir intensidade muito forte, climatologista explica os riscos para o Brasil e o que ainda pode ser feito

Planeta Terra entre uma floresta em chamas e uma geleira em processo de derretimento
Crédito: bhautik-patel, ob-oa e joseph-corl via Unsplash.

Camila de Lira 6 minutos de leitura
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Em 26 de agosto, uma massa de gelo, água, lama e rochas desceu pelo Himalaia após o colapso de uma encosta envolvendo uma geleira no Parque Nacional de Langtang, no Nepal.

O fluxo percorreu quase 100 quilômetros, atingiu áreas povoadas e destruiu infraestrutura na fronteira com a China. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) ainda investiga se houve um colapso glacial ou um deslizamento que incorporou parte da geleira. O movimento gerou energia equivalente à de um terremoto de magnitude 5,2.

O desastre não foi provocado pelo El Niño. Um evento isolado também não pode ser atribuído, sozinho, ao aquecimento global. Mas o episódio dá dimensão física a riscos que costumam aparecer em mapas, projeções e décimos de grau.

Em 2 de setembro, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente publicou um relatório afirmando que, nas trajetórias atuais, ultrapassar 1,5°C de aquecimento global passou a ser considerado inevitável. Quanto maior o pico de temperatura e mais tempo o planeta permanecer acima desse nível, maiores serão os riscos para pessoas, economias e ecossistemas.

No mesmo dia, o Painel El Niño 2026-2027 divulgou seu terceiro boletim. Os modelos apontam mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte entre setembro e novembro e 100% de chance de permanência do fenômeno pelo menos até o início de 2027.

Leia também: El Niño de 2026 pode antecipar, por alguns meses, o calor previsto para 2037

Pouco mais de um mês antes, o climatologista Carlos Nobre havia falado sobre esse risco em entrevista à Fast Company Brasil. Naquele momento, os modelos indicavam 63% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte. Mesmo assim, o tom do cientista já era de altíssima preocupação.

“Isso levará o planeta ao que nós demos o nome de ecocídio, um suicídio ecológico para o planeta.”

“Nós temos que realmente estar muito preparados para isso”, afirmou.

O QUE UM EL NIÑO MUITO FORTE PODE FAZER NO BRASIL

Os efeitos variam entre as regiões.

No Sul, o El Niño favorece chuvas mais volumosas. Na Amazônia e no Nordeste, aumenta o risco de seca. No Sudeste e no Centro-Oeste, períodos sem chuva podem se combinar com temperaturas altas e bolhas de calor.

“Temos que estar preparados para um risco muito grande de uma seca muito forte na Amazônia e também no Nordeste”, disse Nobre. O climatologista também cita o risco de chuvas intensas no Sul e ondas de calor em outras regiões.

Nobre lembra que o último El Niño de “força média” coincidiu com as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, que afetaram 96% dos municípios do estado, resultaram em 184 mortes e 25 desaparecidos e deixaram mais de 500 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas.

Em uma área preservada da Amazônia, as temperaturas extremas da estação seca já aumentaram pelo menos 3,2°C desde 1981.

O boletim mais recente do INPE prevê, entre setembro e novembro, chuvas acima da média em áreas da Região Sul, com destaque para o Rio Grande do Sul, além de partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Norte e Nordeste tendem a enfrentar um trimestre mais seco. As temperaturas devem ficar acima da média em praticamente todo o território nacional.

Na Amazônia Legal e no Pantanal, temperaturas elevadas e menos chuva podem prolongar a estiagem e deixar o solo e a vegetação mais suscetíveis ao fogo.

Um estudo publicado nesta quinta-feira (10) mostra que esse processo já avança mesmo em áreas preservadas. Em uma região de mais de 700 mil quilômetros quadrados no centro-norte da Amazônia, as temperaturas extremas da estação seca aumentaram pelo menos 3,2°C desde 1981.

A elevação foi de, no mínimo, 0,75°C por década, ritmo superior ao aumento de 0,2°C por década observado na temperatura média anual da floresta. A pesquisa reuniu 53 cientistas e analisou dados de temperatura e precipitação registrados entre 1981 e 2023.

Como a região fica distante do arco do desmatamento e mantém elevada cobertura florestal, os pesquisadores afirmam que o avanço das temperaturas extremas não pode ser explicado apenas pela perda local de vegetação. Os resultados apontam também para a influência das mudanças climáticas globais.

“A Amazônia já está quase no ponto do não retorno.”

O estudo alerta que um El Niño de intensidade muito forte pode expor novamente a Amazônia a temperaturas elevadas e secas extremas. Também reforça a necessidade de conservar a floresta, combater o desmatamento, restaurar áreas degradadas e reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

“A Amazônia já está quase no ponto do não retorno”, diz Nobre, que estuda o assunto desde o fim dos anos 1980 e se tornou uma das principais referências científicas mundiais sobre o risco de colapso da floresta.

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O PROBLEMA NÃO É SÓ O EL NIÑO

O El Niño existe há milhões de anos.

“Todos os eventos climáticos, meteorológicos e hidrológicos estão batendo recorde”, afirmou Nobre. “O El Niño existe há milhões de anos. Agora, um El Niño vem, os eventos que ele induz batem recorde, mas isso não é só o El Niño. Esse é o aquecimento global.”

Segundo o climatologista, o aquecimento global acrescenta mais energia à atmosfera e intensifica fenômenos meteorológicos.

“Nós, cientistas, décadas atrás, há mais de 30 anos, já estávamos alertando: não vamos deixar o planeta nem chegar a 1,5 grau”, disse.

O novo relatório do PNUMA trata do que acontece quando esse limite é ultrapassado. O documento chama de overshoot o período em que a temperatura média global passa de 1,5°C, chega a um pico e depois pode voltar a cair, caso as emissões sejam reduzidas e o carbono seja retirado da atmosfera.

Quanto maior o pico e mais longa a permanência acima desse nível, maior o risco de perdas irreversíveis e de ultrapassar os limites de adaptação.

“ISSO LEVARÁ O PLANETA AO ECOCÍDIO”

Sem uma redução acelerada das emissões, principalmente as ligadas aos combustíveis fósseis, Nobre projeta um aquecimento entre 2°C e 2,5°C até 2050.

“Não votem em políticos negacionistas. Cobrem dos políticos de seu interesse antes da eleição.”

“Isso levará o planeta ao que nós demos o nome de ecocídio, um suicídio ecológico para o planeta, que vai nos afetar muito, nós, humanos”, afirmou.

Nobre defende zerar as emissões de combustíveis fósseis e ampliar a remoção de carbono da atmosfera.

“A melhor remoção de gás carbônico é uma mega-restauração florestal”, disse.

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O PNUMA também ressalta que ultrapassar 1,5°C não torna a meta irrelevante. Reduzir o pico de aquecimento e o tempo passado acima desse patamar diminui os riscos. Ultrapassar o limite, portanto, não é motivo para desistir, mas para acelerar as ações de mitigação e adaptação.

“NÃO VOTEM EM POLÍTICOS NEGACIONISTAS”

Embora o cenário climático não seja positivo, Nobre argumenta que ainda há espaço para agir e evitar que as projeções mais catastróficas se tornem realidade.

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Em um ano eleitoral, isso significa colocar o clima e as mudanças climáticas no centro das decisões dos eleitores.

O climatologista diz que a questão independe de posições de direita, centro ou esquerda. Os candidatos precisam reconhecer o risco climático e apresentar medidas para reduzir emissões e preparar a população para eventos extremos.

“Não votem em políticos negacionistas. Cobrem dos políticos de seu interesse antes da eleição. Peçam para eles falarem claramente do risco da emergência climática.”


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é editora-chefe da Fast Company Brasil e jornalista formada pela ECA-USP. Cobre tecnologia, inteligência artificial, in... saiba mais