“Extremologistas”: a ciência que tenta analisar os eventos extremos
Estudos de ciência da atribuição mostram como o aquecimento global altera a intensidade e os impactos de eventos climáticos extremos

Quando uma onda de calor devastadora, um furacão, uma enchente ou um incêndio florestal atingem uma região, muita gente faz a mesma pergunta: até que ponto a mudança climática causada pela ação humana influenciou esse evento?
Por muitos anos, os cientistas só conseguiam responder a essa questão em termos gerais. Já se sabia que a mudança climática provocada pelas emissões humanas estava aumentando a frequência ou a intensidade de alguns tipos de eventos extremos, mas determinar sua influência sobre um episódio específico era muito mais difícil.
Hoje, os pesquisadores conseguem oferecer uma resposta cientificamente fundamentada para avaliar se a mudança climática tornou uma onda de calor mais intensa, aumentou o volume de chuva de um furacão ou agravou uma seca. Mas as respostas nem sempre são simples e não apresentam o mesmo grau de certeza para todos os tipos de eventos extremos.
Nós integramos o comitê de 14 especialistas das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos que elaborou um novo relatório sobre o estágio atual desse campo de pesquisa em rápida evolução, conhecido como ciência da atribuição de eventos extremos.
O relatório conclui que os avanços em dados meteorológicos e climáticos, modelos climáticos e métodos de atribuição fortaleceram consideravelmente a capacidade dos cientistas de avaliar a influência da mudança climática em muitos tipos de eventos extremos, ao mesmo tempo em que identificaram importantes limitações científicas.
COMO OS CIENTISTAS ESTUDAM UM ÚNICO EVENTO?
Os eventos meteorológicos são resultado da interação de diversos fatores, incluindo as condições diárias da atmosfera.
Os cientistas que realizam estudos de atribuição de eventos extremos não perguntam se a mudança climática causou um furacão, uma onda de calor ou uma enchente.
A pergunta é outra: como a mudança climática influenciou esse evento? Como ele teria sido em um mundo sem o aumento da concentração de gases de efeito estufa? Como o aquecimento global alterou a probabilidade de sua ocorrência?
Os pesquisadores respondem a essas perguntas por meio de duas abordagens complementares:
- Uma compara a frequência com que determinado tipo de evento – por exemplo, uma chuva extrema que provoca enchentes – ocorre no clima atual com a frequência com que ocorreria em um clima sem a mudança climática causada pela ação humana.
- A outra analisa como a mudança climática alterou as características do evento observado, verificando, por exemplo, se um furacão produziu mais chuva ou se uma onda de calor foi mais intensa porque a atmosfera está mais quente.

As duas abordagens combinam dados meteorológicos e climáticos, conhecimento sobre o funcionamento do sistema climático e modelos computacionais. Os cientistas podem comparar os resultados obtidos por diferentes métodos para verificar se eles apontam para a mesma conclusão e qual o nível de confiança que ela merece.
Um exemplo é o furacão Harvey, que despejou cerca de 1,27 metro de chuva em partes da região de Houston, em 2017, provocando enchentes generalizadas.
Diversos estudos concluíram que a mudança climática aumentou o volume de chuva produzido pela tempestade. Embora tenham utilizado métodos diferentes, chegaram a conclusões semelhantes, mostrando como diferentes linhas de evidência fortalecem a confiança nos resultados.
MAIS CONFIANÇA PARA ALGUNS EVENTOS QUE PARA OUTROS
Uma das principais conclusões do relatório é que a ciência da atribuição ainda não consegue avaliar todos os tipos de eventos extremos com o mesmo grau de precisão. O nível de confiança é maior para eventos cuja relação com o aquecimento global é bem compreendida e representada nos modelos climáticos.
O exemplo mais claro são as ondas de calor. À medida que a concentração de gases de efeito estufa aumenta por causa da queima de combustíveis fósseis, praticamente todas as regiões do planeta registram ondas de calor mais frequentes e mais intensas.
Os cientistas entendem como esses gases aquecem a atmosfera e tornam esses eventos mais prováveis e severos, o que permite atribuir muitas ondas de calor individuais à mudança climática com alto grau de confiança.

Também existe um nível relativamente elevado de confiança na atribuição da contribuição da mudança climática para episódios de chuva intensa em grande escala, ciclones tropicais e secas em algumas regiões. Uma atmosfera mais quente consegue reter mais vapor d'água, agravando as secas e alimentando chuvas mais intensas quando as tempestades se formam.
Já a contribuição da mudança climática continua mais difícil de avaliar em outros tipos de fenômenos. Tempestades severas, tornados, granizo de grande porte e ventos destrutivos dependem de processos atmosféricos de pequena escala que os modelos climáticos globais ainda têm dificuldade para representar com precisão.
Além disso, os dados disponíveis sobre esses eventos são menos completos, dificultando a identificação de mudanças de longo prazo e a avaliação dos modelos.
as respostas nem sempre são simples e não apresentam o mesmo grau de certeza para todos os tipos de eventos extremos.
Alguns eventos também estão se tornando mais complexos. Em muitos casos, diferentes fenômenos ocorrem ao mesmo tempo ou em sequência, produzindo efeitos cumulativos ou em cascata, como uma seca que aumenta o risco de incêndios florestais. A ciência da atribuição apenas começou a incorporar esse tipo de interação.
Esses desafios não significam que a mudança climática não exerça influência sobre esses eventos. Eles refletem um princípio fundamental da ciência: o grau de confiança depende da força das evidências disponíveis.
Entender como a mudança climática influencia eventos extremos ajuda comunidades, empresas e governos a avaliar melhor os riscos, aperfeiçoar o planejamento e a infraestrutura e tomar decisões mais informadas sobre preparação e adaptação.
Da mesma forma, saber onde o nível de confiança ainda é menor ajuda a garantir que essas decisões continuem fundamentadas na qualidade das evidências científicas disponíveis.
POR QUE A CIÊNCIA DA ATRIBUIÇÃO
A ciência da atribuição de eventos extremos avançou de forma considerável desde a última avaliação das Academias Nacionais dos EUA, publicada em 2016.
Hoje, os pesquisadores têm acesso a séries históricas mais longas e mais completas de observações feitas por estações meteorológicas, satélites e outros sistemas de monitoramento.
Os modelos climáticos também ficaram mais sofisticados e passaram a representar com maior fidelidade os processos físicos responsáveis pelos eventos extremos.

Ao mesmo tempo, cresceu bastante o número de estudos que analisam o papel da mudança climática em eventos extremos, abrangendo uma variedade muito maior de fenômenos do que há uma década.
Grupos internacionais de pesquisa agora utilizam métodos consolidados para realizar estudos rápidos de atribuição, muitas vezes poucos dias após um desastre, oferecendo informações cientificamente fundamentadas enquanto o evento ainda está no centro da atenção pública.
Os cientistas também passaram a fazer uma nova pergunta: como a mudança climática afetou os resultados daquele evento? Por exemplo, qual foi seu impacto no número de mortes relacionadas ao calor, na extensão das enchentes, nas perdas econômicas ou nos danos ecológicos?
O furacão Harvey volta a ser um exemplo útil. O relatório das Academias Nacionais destaca pesquisas que mostram que a mudança climática aumentou o volume de chuva do Harvey em cerca de 20% a 38%.
Os estudos também constataram que esse aumento das chuvas atribuído à mudança climática provocou um crescimento proporcionalmente ainda maior no número de imóveis inundados.
Isso mostra que aumentos relativamente pequenos na intensidade de um evento extremo podem, em alguns casos, resultar em impactos sociais muito mais amplos.
EVENTOS EXTREMOS E MUDANÇA CLIMÁTICA DAQUI PARA FRENTE
À medida que eventos extremos afetam comunidades em todo o mundo, a ciência da atribuição se torna uma ferramenta cada vez mais robusta para entender como a mudança climática influencia eventos específicos. Essas informações podem ajudar cidades e governos a se preparar e a se adaptar aos riscos futuros.
Igualmente importantes, os estudos de atribuição mostram onde há alto grau de confiança científica, onde ainda existem incertezas relevantes e quais áreas precisam de mais pesquisa.
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Em conjunto, esses avanços ajudam a garantir que as conclusões científicas continuem fundamentadas em observações, compreensão dos processos físicos e análises cuidadosas.
Este artigo foi republicado do site The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.