Colete criado no Brasil mapeia o calor no caminho dos pedestres

Colete desenvolvido por pesquisadores da UFPB e da UTFPR reúne sensores e GPS para monitorar condições ambientais na escala dos pedestres. 

Crédito: Fast Company Brasil

Beatriz Felizardo 3 minutos de leitura
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Ao caminhar pelas cidades brasileiras, é possível perceber, em poucos minutos, a diferença entre uma rua quente e sem sombra e outra mais fresca, com árvores e ventilação. 

As mudanças rápidas de calor, umidade e conforto térmico fazem parte do microclima urbano: condições ambientais que podem variar de um ponto a outro e que as estações meteorológicas fixas, por estarem instaladas em locais determinados,têm limitações para representar ao longo dos trajetos. 

Para investigar esse cenário, pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental (PPGECAM/UFPB), desenvolveram o colete MiMon Vest – Microclimate Monitoring Vest. O equipamento é vestível e portátil e coleta dados ambientais enquanto o usuário se desloca por diferentes espaços urbanos. 

O MiMon Vest atua como complemento às estações meteorológicas fixas. Por ser compacto e móvel, pode ser utilizado em ruas, bairros, praças e parques, permitindo registrar como as condições ambientais variam ao longo do percurso de quem circula pela cidade. 

UM LABORATÓRIO QUE PODE SER VESTIDO 

Não é simplesmente um colete com sensores. O professor Oswaldo Hideo Ando Junior, do Centro de Energias Alternativas e Renováveis (CEAR/UFPB) explica em entrevista à Inova UFPB, que o dispositivo integra sistemas de aquisição de dados, GPS, armazenamento local e diferentes possibilidades de configuração.

Entre os parâmetros que podem ser monitorados estão temperatura do ar, umidade relativa, ruído e pressão atmosférica. O sistema pode integrar sensores para medir temperatura do globo, velocidade do ar, iluminância, concentração de CO₂ e radiação ultravioleta. 

Os dispositivos fazem leituras a cada segundo. Depois de 30 medições, o sistema calcula uma média, que é armazenada em um cartão de memória, o equivalente a aproximadamente um registro a cada 30 segundos. 

Além do armazenamento local, que permite o uso do sistema em locais sem Wi-Fi, os registros podem ser visualizados em um visor ou enviados via Bluetooth para um celular. A bateria tem autonomia de pelo menos oito horas, o que permite a realização de longas jornadas de monitoramento em campo. 

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O CALOR NO CAMINHO 

O diferencial está na mudança de perspectiva. Em vez de concentrar as medições em um ponto fixo,o equipamento acompanha o percurso de quem circula pela cidade e registra as condições ambientais encontradas ao longo do caminho. 

De acordo com a pesquisadora Ivonete Borne, do PPGECAM/UFPB, em entrevista ao G1, o equipamento não substitui as estações meteorológicas convencionais, mas permite investigar detalhes que elas não alcançam. Ao acompanhar o deslocamento, o dispositivo consegue registrar como as condições ambientais variam de um ponto para outro. 

Desde o início do projeto, em 2020, o MiMon passou por quatro protótipos. Em campanhas experimentais realizadas em parques urbanos, os pesquisadores combinaram as medições do equipamento com questionários sobre a percepção térmica das pessoas que estavam nesses espaços. A proposta é comparar as condições ambientais registradas pelos sensores com a forma como o calor é percebido pelos usuários. 

Os primeiros experimentos de campo ocorreram em parques urbanos de João Pessoa (PB). Neles, os pesquisadores percorreram os espaços com o colete enquanto aplicavam questionários sobre conforto térmico aos frequentadores. Os dados coletados pelo equipamento registraram variações de temperatura e umidade entre trechos mais sombreados e áreas expostas ao sol. Segundo a equipe, porém, os resultados ainda não são conclusivos.

O projeto também avançou para a proteção da tecnologia: em 3 de agosto de 2026, os pesquisadores depositaram um pedido de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). 

DOS DADOS À AÇÃO URBANA 

Os dados coletados podem ajudar a investigar como características de um mesmo espaço urbano, como sombra, arborização, pavimentação e ventilação, estão associadas às condições ambientais encontradas pelos pedestres. 

A possibilidade de realizar medições em diferentes pontos também abre espaço para estudos de conforto térmico e exposição ao calor. No futuro, caso a tecnologia seja validada e ampliada, esses levantamentos poderão subsidiar pesquisas e avaliações relacionadas ao planejamento urbano e à adaptação das cidades às ondas de calor.


SOBRE A AUTORA

Beatriz Felizardo é estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, apaixonada por direitos humanos e curiosa sobre as transformaç... saiba mais