Como a humanidade tem encarado desastres naturais ao longo do tempo

“Sim, é uma catástrofe. E não, você não estaria melhor se continuasse a se convencer do contrário”

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Kiley Bense 4 minutos de leitura

No século 14, o poeta italiano Petrarca escreveu uma carta para um amigo em Avignon – uma cidade no sul da França que durante vários anos foi a residência dos Papas da Igreja Católica –, contando sobre a angústia que sentia após um terremoto ter abalado as estruturas das igrejas de Roma. “O que devo fazer, lamentar ou temer?” perguntou. “Em todos os lugares há motivo para medo, em todos os lugares há motivo para tristeza.”

Este terremoto foi apenas mais uma das muitas catástrofes que o poeta havia testemunhado até aquele momento: inundações, tempestades, incêndios, guerras e, por fim, “a praga divina sem precedentes”, a temida Peste Negra, que acabaria por matar mais de um terço da população da Europa.

Seiscentos anos depois, o efeito que as catástrofes têm nas mentes das pessoas é tema de vários novos artigos, todos relacionados ao fim do mundo como o conhecemos. Eles abordam uma questão central, a nossa (in)capacidade coletiva de enfrentar uma ameaça existencial: como lidar com o desastre global que são as mudanças climáticas?

Para evitar as armadilhas da negação e do desespero, precisaremos aprender a lidar com a contradição de manter o otimismo em meio à desgraça.

Elizabeth Weil, cujo ensaio “How to Live in a Catastrophe” (Como Viver Durante uma Catástrofe) foi publicado na “New York Magazine” no início de novembro, acredita que a enxurrada de matérias sobre o assunto está diretamente ligada ao clima extremo cada vez mais devastador da década de 2020. “A ideia de que ainda não estávamos diante de uma crise climática simplesmente desapareceu”, disse ela. “Não há como continuar negando isso.”

O Boletim de Cientistas Atômicos define o momento em que vivemos como “perigoso e insustentável”, listando entre os motivos as consequências da crise climática, o medo de uma guerra nuclear na Ucrânia e a pandemia de Covid-19. Também aponta que nossa resposta às mudanças climáticas tem sido bastante tímida, “muitas palavras e relativamente pouca ação”.

Saber o que precisa ser feito é uma coisa; ter vontade de fazer é outra. Coletivamente, não estamos lidando com esta catástrofe da mesma forma ou no mesmo ritmo. Alguns de nós ainda estão nas fases de raiva e barganha do luto climático, enquanto outros já passaram da aceitação.

“É ASSIM MESMO”

Durante minha viagem à Islândia, em agosto, parei à beira de uma lagoa alimentada pelo derretimento da geleira Breiðamerkurjökull. Icebergs – fragmentos brilhantes desprendidos da geleira moribunda – flutuavam cheios de cinzas vulcânicas, um registro de antigas erupções.

Perguntei a alguns islandeses o que sentiam ao olhar para essa cena. Para mim, era algo paralisante e trágico; a lagoa está assim por causa das mudanças climáticas e, apesar de toda a sua beleza deslumbrante, é também um presságio perturbador.

Por mais que estejamos apavorados, talvez a mudança possa nos levar a um futuro melhor.

Mas eles não veem isso dessa forma, talvez porque, na Islândia, há muito tempo é impossível ignorar a rapidez com que estamos destruindo o tecido da natureza. A resposta que recebi foi estoica. “É assim mesmo”, disse um deles.

A verdade sobre a catástrofe é que, mesmo diante de todo o caos, geralmente seguimos em frente, suprimindo nosso medo. Acabamos nos adaptando, reerguendo e nos convencendo de que o que está acontecendo não nos atingirá.

Quando tudo desmorona ao nosso redor, o primeiro instinto é nos agarrar a qualquer resquício de normalidade que reste. Pudemos ver isso claramente nos primeiros meses da pandemia: em todo o mundo, o pânico logo deu lugar a uma rotina sombria.

Como Weil ressalta em seu artigo, não há nada de irracional em aceitar que você está vivendo uma catástrofe real. “Sim, é uma catástrofe. E não, você não estaria melhor se continuasse a se convencer do contrário”, ela escreve.

Para evitar as armadilhas da negação e do desespero, precisaremos aprender a lidar com a contradição de manter o otimismo em meio à desgraça. “Teremos que viver com esperança”, disse Weil. “Ainda que precisemos viver com muito medo.”

Para evacuar um prédio em chamas com segurança e apagar o incêndio, você precisa comunicar a urgência da situação, mas também precisa passar confiança e manter a calma.

na Islândia, há muito tempo é impossível ignorar a rapidez com que estamos destruindo o tecido da natureza.

Essa é outra maneira de lidar com uma catástrofe: buscar consolo na clareza da ação. Weil cita a relei- tura de Günther Anders do Grande Dilúvio, na qual Noé aparece em trajes de luto, dizendo às pessoas que todos já estão mortos porque a catástrofe logo cairá sobre eles.

Naquela noite, um carpinteiro chega à sua oficina e se oferece para construir uma arca para que a terrível visão de Noé não se concretize. Um futuro que parecia predeterminado é alterado através do esforço e do trabalho.

Em outra carta de Petrarca, ele conforta seu correspondente com uma citação de Virgílio. “Aguente firme”, ele escreve, “e busque a salvação na esperança de coisas melhores”. Nossas esperanças para o futuro não devem se concentrar na preservação de um status quo fracassado e desigual.

“Mudanças são assustadoras, e grandes mudanças são ainda mais, mas nosso mundo não é perfeito. Está muito, muito, muito longe disso”, disse Weil. “Por mais que estejamos apavorados, talvez a mudança possa nos levar a um futuro melhor.”


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