Lançado em dezembro pela STX Entertainment, Songbird, filme produzido pelo cineasta Michael Bay, é uma distopia elevada à enésima potência que fala sobre um mundo consumido por uma pandemia contagiosa chamada COVID-23 (mutação da variedade mais conhecida).

Há muito com o que se identificar na narrativa: pessoas presas em casa por centenas de dias e suspeitando da tosse dos vizinhos. Mas, sendo este um filme de Michael Bay, o tom de drama é bastante elevado. As ruas vazias de Los Angeles são patrulhadas por esquadrões militares com metralhadoras. Em uma das cenas, soldados apontam a artilharia para um homem de joelhos que grita, “Sou imune! Sou imune!”.

O filme foi idealizado praticamente da noite para o dia em março de 2020, quando a ideia de um filme sobre COVID-19 parecia algo legal de ser feito. Oito meses depois, com diversos países ao redor do mundo enfrentando mais um período de restrições — tal qual o governo de São Paulo, que anunciou nesta sexta, 22 medidas para tentar conter a disseminação de novos casos da doença — e até de lockdowns em resposta aos aumentos de contágios, a ideia talvez não seja mais tão boa. Mesmo com a clara abordagem hollywodiana, Songbird, que estará disponível para locação nas plataformas de video on demand, soa como uma trama que falta com o tato, dada a quantidade de mortes diárias por COVID-19. Além disso, não parece ser algo muito divertido de se assistir neste momento.

De fato, com a imposição do vírus no dia a dia por um longo período, os tipos de filmes e séries que Hollywood está produzindo – ou planejando fazer – sofreram drásticas mudanças. Hoje, a chance de algo como Songbird ser aprovado seria mínima. No lugar, filmes sobre temas familiares e que fazem as pessoas se sentir bem, como Um Príncipe em Nova York 2, estão prestes a serem lançados para satisfazer a demanda por entretenimento escapista (em outubro, o filme foi vendido pela Paramount para a Amazon Studios. A estreia está prevista no Prime Video em março de 2021).

Além da mudança de tom, o tamanho das produções – pelo menos as que ainda conseguiram ser produzidas – também mudou. Os filmes que podem ser feitos com equipes menores e com menos locações são favorecidos, assim como as produções que podem absorver os aumentos de 20 a 30% no orçamento devido aos custos de seguro e testes de COVID-19. Os chamados pacotes (filmes que já incluem roteirista, diretor e protagonistas desde o começo) também recebem um olhar mais amistoso que o usual.

Tudo isso influenciará o publico e o que e onde eles irão assistir ao longo de 2021 em diante. Com tantos cinemas ao redor do mundo fechados por conta da pandemia, os estúdios de Hollywood estão cada vez mais transferindo seus lançamentos planejados para o streaming. O anúncio mais emblemático foi o da Warner Media, que lançará todo o seu catálogo de 2021 – uma seleção de 17 filmes, incluindo Dune e Matrix 4 – na HBO Max, e quaisquer outros possíveis lançamentos.

Então, o que o público deve esperar de 2021? Com base em conversas com meia dúzia de agentes e produtores, aqui estão algumas das ideias:

O STREAMING ESTÁ REANIMANDO O VEÍCULO DE $15 MILHÕES

Seja um drama, um thriller ou uma comédia, a tendência do streaming somente se intensificou durante a pandemia, mudança esta amplificada pela notícia da Warner Media. A empresa já tinha tomado a corajosa decisão de lançar Mulher Maravilha 1984, um dos maiores lançamentos do ano, na HBO Max no dia de Natal, junto com o lançamento nos cinemas.

Mas, com o agravamento da COVID-19, os estúdios não estão apenas buscando serviços de streaming para filmes que já estão prontos, mas também para filmes que estão começando ser produzidos. Com lucros destroçados pela perda nas receitas de bilheteria, os estúdios se tornaram mais avessos a riscos do que nunca. Eles não têm problema de apostar em grandes franquias que serão lançadas algum dia; ninguém está mais a par do desenvolvimento das vacinas do que os executivos dos estúdios de Hollywood. Mas em relação aos filmes de orçamentos intermediários, cujo sucesso não será garantido pela venda de brinquedos ou produtos, estão mais temerários. Este nervosismo coincide com um mercado lotado de serviços de streaming como a HBO Max, a Peacock e a Apple TV Plus, que estão clamando por conteúdo, criando um novo ingrediente na biosfera de Hollywood.

Um agente que conversou com estúdios diz que “estas produções de US$ 15 ou US$ 20 milhões, se conseguirem usar nossos talentos, serão encaminhadas à Netflix ou à Apple, para ver se essas plataformas as aceitam. Talvez eles as co-financiem, talvez financiem inteiramente. De qualquer forma, é uma grande mudança”. Outra fonte corrobora: “Há vários estúdios tentando ativamente montar pacotes e levá-los para a Netflix”.

Esta tendência pode não ser duradoura, mas ainda assim representa uma ordem radicalmente nova – uma na qual os estúdios se tornaram produtores, não distribuidores – visto que os streamers independentes (como Netflix e Amazon) eram considerados arquinimigos maligno que estava lá para roubar o ganha-pão dos estúdios e uma plataforma de distribuição útil da qual eles podiam cobrar lucrativas taxas de propriedade.

Agora, de repente, eles se tornaram a maior muleta contra o COVID-19 de Hollywood.

OS DRAMAS DISTÓPICOS PARA MARATONAR JÁ ERAM

Em novembro, foi anunciado que Judd Apatow está produzindo, dirigindo e atuando em uma comédia para a Netflix com a temática COVID-19. No filme, um grupo de atores fica preso em um hotel na quarentena durante as filmagens de um longa.

A percepção de Hollywood, porém, é de que este projeto é mais uma exceção à regra – algo que está sendo feito porque “é do Judd Apatow”.

Além de tudo, é uma comédia.

No geral, compradores estão fugindo de conteúdos que se parecem muito com o estado do mundo atual, por medo de que o público queira diversão que os distraia e os distancie da realidade. Roger Green, sócio e diretor do departamento de cinema da William Morris Endeavor, comenta que: “As pessoas estão evitando coisas muito sombrias. Qualquer produção sobre futuro pós-apocalíptico, pós-pandemia tem menos força. O gênero de terror continua indo bem. E filmes sérios e autorais ainda estão sendo feitos. Nem tudo tem de ser comédia. Mas materiais realistas, sombrios e depressivos não são o que os compradores acham que as pessoas querem consumir agora”.

Outro agente coloca desta forma: “O tema geral procurado pelas, aquela coisa mais sombria, distópica, esqueça. Ninguém que isso. Os atores não querem fazer. Pois estamos vivendo justamente isso”.

Algo como Handmaid’s Tale provavelmente escapará desta tendência: isto é, uma série conhecida baseada em um best seller.

“Existe uma busca por propriedades intelectuais famosas que possuem audiência consolidada, então não acho que estes programas vão desacelerar”, afirma Alexis Garcia, vice-presidente executivo da grupo de cinema na Endeavor Content. “Isso os ajuda a se diferenciar e a atrair cineastas e estrelas de ponta. Mas uma história original, com personagens desconhecidos com este tom ou com estes temas – isso seria mais difícil de vender”.

Outros dizem que pessoas usando máscaras não são um bom tema para uma história. Além disso, existe a percepção de que a pandemia é um período e, portanto, não é um assunto perene. Contudo, essa natureza efêmera (assim esperamos), também significa que, com o passar do tempo, as pessoas se tornarão menos sensíveis à pandemia, tornando-a mais atraente para filmes e séries de TV.

Outro membro da indústria disse: “Acho que como qualquer trauma sofrido por determinada geração, é preciso um tempo para processá-lo. Não houve uma enxurrada de filmes sobre a Segunda Guerra logo após a Segunda Guerra. Demora um tempo. Não houve uma tonelada de livros sobre o cólera, mesmo depois de o mundo ter passado por aquela pandemia. Acho que ninguém quer ver um filme sobre a COVID agora, mas eu acho que veremos mais histórias sobre a COVID mais adiante, quando tivermos tido um pouco de tempo enquanto sociedade para deixar isso para trás”.

GRANDES ELENCOS ESTÃO FORA

O tamanho das produções também foi afetado pela COVID-19. Mesmo que filmes de grandes orçamentos ainda estejam em produção (eles são, afinal, vitais para os estúdios), há uma ascensão de filmes que as pessoas estão chamando de “confortáveis”. Isto significa projetos com um número limitado de atores e locações e que possam ser filmados com o mínimo de risco.

Os maiores exemplos são filmes sendo feitos pelo Bazelev Studio, produtora russa do cineasta Timur Bekmambetov, pioneiro do gênero screenlife. A produtora está por trás de filmes como Unfriended e Searching, ambos narrativas que se passam em telas de computadores e celulares, o que diminui dramaticamente os custos e o tamanho da produção. Os filmes screenlife são filmados com GoPros ou até câmeras de celular e envolvem um número mínimo de atores. O estilo é particularmente apropriado para o momento; em junho, a Universal assinou um contrato de cinco filmes com o Bazelevs Studio.

Outro fator que está influenciando decisões sobre o que é feito é o custo dos seguros durante a pandemia – número que pode aumentar o orçamento em até 30%. “Algo comum que venho ouvindo é, se o presidente de um estúdio olha um projeto e diz ‘Certo, este é um filme que queremos fazer. Eu gosto do astro, eu gosto do diretor. Mas queremos pagar mais 20% por conta da COVID ou podemos adiar mais um ano, quando não teremos que gastar esse dinheiro adicional?’”, comenta Green.

Os estúdios, pelo menos, têm escolha. Produções independentes que não possuem capacidade ou recursos para fazer o próprio seguro, como grandes estúdios e empresas como Netflix fazem, podem não conseguir pagar o custo extra e deixar de receber ofertas das companhias de seguro. Sem cobertura, muitos produtores não conseguem a garantia que os bancos exigem para emprestar dinheiro às produtoras.

O resultado é uma queda significativa no número de filmes e séries alternativos sendo feitos no momento. É uma aposta segura de que produções alternativas vão voltar quando a pandemia passar, assim como o dilema dos seguros contra COVID-19 e conteúdos mais sombrios.

O que não está tão claro, porém, é como a distribuição de conteúdo será afetada a longo prazo. Seja lá o que as pessoas voltarem a assistir após a pandemia, onde assistirão? Com empresas como Warner Media mudando drasticamente as expectativas sobre o que o público pode ver no conforto dos nossos lares, alguém voltará aos cinemas, mesmo quando for seguro?

“É bem possível que as pessoas decidam que tiveram uma ótima experiência assistindo Palm Springs (no Hulu) ou O Gambito da Rainha (na Netflix) em casa, então não veem porque ir ao cinema”, diz Alex Rincon, agente cinematográfico literário da United Talent Agency. “Esta é a grande questão a ser enfrentada. Dito isso, pessoalmente estou otimista de que as pessoas irão retornar aos cinemas assim que for seguro”.

SOBRE A AUTORA

Nicole LaPorte é uma colunista senior da Fast Company baseada em L.A. que escreve sobre a intersecção entre tecnologia e entretenimento. Ela já foi colunista do The New York Times, da Newsweek/The Daily Beast e da Variety.