O fim do sonho de cidade vertical na Arábia Saudita

Após custos explosivos e metas irreais, governo saudita prioriza portos, energia e IA em vez da cidade futurista

The Line, cidade vertical no deserto da Arábia Saudita
Crédito: Neom

Jesus Diaz 3 minutos de leitura

Após sucessivos atrasos e reduções de projeto, a Arábia Saudita interrompeu até 2030 a construção da The Line, a megacidade que prometia cortar o deserto como uma espada espelhada.

Qualquer pessoa com dois olhos funcionando e um mínimo de bom senso poderia prever esse colapso espetacular. O conceito desafiava abertamente princípios básicos da física e da economia. Era um delírio de ficção científica condenado desde o momento em que saiu das renderizações.

The Line começou como uma supernova de promoção institucional. Em 2021, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman lançou oficialmente o empreendimento como peça central utópica da Visão 2030, programa nacional de US$ 500 bilhões criado para modernizar o país e reduzir sua dependência do petróleo.

A ideia era construir uma cidade inteligente sem carros, capaz de abrigar nove milhões de moradores dentro de duas estruturas paralelas espelhadas com cerca de 170 quilômetros de extensão, 500 metros de altura e 200 metros de largura.

The Line, cidade vertical no deserto da Arábia Saudita
Projeção de como seria a The Line (Crédito: Neom)

The Line, assim como os demais projetos arquitetônicos e de engenharia na província de Tabuk, na Arábia Saudita, é administrada pela Neom, empresa estatal que afirma estar “construindo as bases para um novo futuro”.

Céticos do urbanismo logo apontaram que erguer uma cidade linear gigantesca era uma proposta absurda, citando precedentes históricos, leis da física e fundamentos econômicos que simplesmente não sustentam a ideia de um arranha-céu horizontal em escala monumental – muito menos atravessando um deserto inóspito.

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Mesmo assim, o reino seguiu adiante, cavando enormes crateras no meio do nada até que a magnitude da imprudência se tornou impossível de ignorar.

A GUINADA PARA O PRAGMATISMO

A utopia de vidro finalmente se estilhaçou sob o peso da realidade financeira. Os gastos sauditas, que cresceram de forma astronômica sob Mohammed bin Salman, estão sendo redirecionados para infraestrutura imediata e prática, numa tentativa de enfrentar o aumento do déficit nacional, agravado pela desaceleração econômica e pelos impactos econômicos da guerra com o Irã.

Segundo uma revisão estratégica liderada pelo executivo-chefe da Neom, Aiman al-Mudaifer, estimava-se que a cidade linear custaria mais de US$ 1 trilhão. O fundo soberano saudita determinou que a versão reduzida do projeto passe a gerar retorno financeiro real, ao invés de apenas consumir capital.

The Line, cidade vertical no deserto da Arábia Saudita
Crédito: Neom

Em vez de priorizar uma cidade no interior do deserto, o foco agora mudou para o litoral. Ali, a Arábia Saudita ainda pretende investir cerca de US$ 3 bilhões em Oxagon, uma zona industrial com porto no Mar Vermelho que ganhou importância estratégica para o planejamento comercial após o fechamento do Estreito de Ormuz.

É nessa região que o governo está ampliando sua capacidade de fornecer água, eletricidade e conectividade digital.

É uma decisão pragmática. As melhorias em Oxagon buscam atrair empresas de inteligência artificial interessadas em construir data centers. A lógica por trás dessa mudança é simples: data centers precisam de água para resfriamento, e Oxagon está à beira-mar.

Oxagon, zona industrial com porto no Mar Vermelho
Acima: representação do projeto Oxagon. Abaixo: vista de satélite do início da construção da cidade (Imagens: Neom/ Gallo Images/ Orbital Horizon/ Dados do Copernicus Sentinel 2025)

Planos para outros projetos da Neom também estão desmoronando. Destinos turísticos no Mar Vermelho foram adiados para depois de 2030 e o resort de montanha Trojena – antes cotado para sediar os Jogos Asiáticos de Inverno de 2029 – não vai receber novos investimentos antes de 2031.

“Se anunciarmos algo e precisarmos ajustar, acelerar e tornar mais prioritário do que outros projetos, ou adiar, ou cancelar, faremos isso sem hesitar”, afirmou o ministro das finanças saudita, Mohammed al-Jadaan.

O príncipe herdeiro também reforçou a mensagem ao afirmar: “não hesitaremos em cancelar ou fazer alterações radicais em quaisquer programas ou metas se concluirmos que o interesse público assim exige”.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produ... saiba mais