Assim como uma enfermeira que checa a pressão arterial de um paciente, é possível monitorar os sinais vitais do planeta Terra avaliando a cobertura da floresta Amazônica (“os pulmões do planeta”, ou pelo menos costumavam ser). Pode-se verificar a temperatura do oceano e até mesmo a quantidade de gelo marinho do Ártico, a abundância de biodiversidade e as emissões totais de CO2 — todos os fatores estressores que afetam a saúde do planeta e sinalizam o declínio de sua saúde.

Comparando os indicadores atuais com os dos anos anteriores, o resultado não é dos melhores: os sinais vitais da Terra estão piorando, muitos em níveis recordes. 

Essa é a conclusão do estudo realizado por uma coligação de quase 14 mil cientistas, e liderado por dois pesquisadores da Universidade Estadual do Oregon. A pesquisa, publicada na revista BioScience, rastreia 31 indicadores da saúde planetária, divididos em atividades humanas (população, consumo de energia, transporte aéreo, emissões totais, entre outros) e as respostas do clima (temperatura crescente, perda de gelo marinho, acidez oceânica e assim por diante).

Esse relatório se baseia em uma lista de sinais vitais estabelecida em 2019, que declarou estado de emergência climática. O professor de ecologia da Universidade Estadual do Oregon, e um dos líderes da análise, William Ripple, afirma que as variáveis ​​climáticas pioraram: há mais gases de efeito estufa na atmosfera, menos gelo ártico, temperaturas mais elevadas na superfície terrestre e aumento do nível do mar. “Uma coisa bastante chocante é a magnitude e o número de desastres relacionados ao clima que aconteceram desde que publicamos”, conta. “E não apenas nos últimos dois anos, mas nas últimas duas semanas.”

Desde aquele primeiro relatório, a Terra vivenciou ondas recordes de calor, inundações mortais, níveis recordes de seca e temporadas de incêndios florestais — além da pandemia de Covid-19, que deu um exemplo natural de como uma mudança no comportamento humano poderia afetar o planeta. O efeito dos bloqueios impostos pela pandemia é visível nesse último artigo: o número de passageiros do transporte aéreo caiu 59% em 2020, o PIB mundial e o consumo de energia caíram ligeiramente; mas as respostas climáticas realmente não mudaram. “[Lockdowns] afetaram as variáveis ​​de alguma forma, mas é óbvio que isso não foi nem perto de ser suficiente”, explica Ripple .

A expectativa é de que todas essas variáveis se restabeleçam; isso inclui a projeção de recuperar a perda de mais de um terço dos passageiros aéreos em 2021. “O problema é que ainda estamos em uma sociedade de combustíveis fósseis”, declara Ripple. “Precisamos de políticas que nos afastem da queima de combustíveis fósseis e busquem fontes alternativas”. No entanto, acabar com os combustíveis fósseis não é a solução final. O artigo destaca a necessidade de mudanças sistêmicas e transformadoras na economia, nos sistemas alimentares e nas formas de preservação da natureza.

O número total de ativos da indústria de combustíveis fósseis aumentou para cerca de US$ 14 trilhões em todo o mundo, e os subsídios governamentais aos combustíveis fósseis caíram para o recorde mínimo de US$ 181 bilhões em 2020, uma queda de 42% em relação a 2019. Ripple acredita que esses são “vislumbres de esperança”, mas também há o fato preocupante de que o desmatamento na Amazônia atingiu o ápice em 12 anos — com 1,11 milhão de hectares destruídos.

Quando Ripple e 11 mil cientistas declararam emergência climática em 2019, eles indicaram seis caminhos para a ação. Hoje, com mais signatários a bordo, quase 14 mil cientistas apoiam a pesquisa e fazem o mesmo apelo: eliminar os combustíveis fósseis, reduzir poluentes de curto prazo como metano e carbono negro, restaurar a natureza, mudar para dietas baseadas em plantas (a quantidade de gado mundialmente soma mais de 4 bilhões, o que representa mais massa do que todos os humanos e mamíferos selvagens juntos), reduzir o desperdício de alimentos, deslocar o foco da economia no crescimento infinito do PIB e estabilizar a população por meio da educação de meninas e mulheres e o planejamento familiar.

O documento inclui outra abordagem de três frentes para a gestão pública. Estabelecer taxas para as maiores empresas emissoras de carbono, decretar a diminuição (e eventualmente banir) combustíveis fósseis globalmente, e desenvolver estratégias climáticas para proteger e restaurar a natureza. 

“Devemos abordar esta crise climática imediatamente”, diz Ripple. “Teremos, como estamos testemunhando, sofrimento humano significativo, mas se fizermos grandes mudanças logo, podemos limitar esse sofrimento. Queremos fazer uma atualização com esses sinais vitais, mas também queremos enfatizar a importância de agir rápido neste ponto e pensar grande.”

SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company.