Compra consciente: como identificar empresas que fazem greenwashing?
O combate ao greenwashing não depende apenas de órgãos reguladores ou da Justiça, passa, sobretudo, pela postura crítica do consumidor e pela valorização da transparência

Em um cenário de crescente preocupação ambiental, consumidores brasileiros enfrentam um desafio de como diferenciar iniciativas sustentáveis reais de estratégias de marketing enganosas. Com discursos verdes espalhados por embalagens, campanhas publicitárias e redes sociais, o greenwashing se consolida como uma prática que exige atenção redobrada.
Nos últimos anos, especialmente após a intensificação do debate climático e da pressão por responsabilidade corporativa, empresas de diferentes setores passaram a incorporar termos como sustentável, ecológico e carbono neutro em suas comunicações.
O fenômeno ocorre em todo o país, do varejo alimentar à indústria da moda, impulsionado por um consumidor mais atento ao impacto ambiental de suas escolhas e disposto a premiar marcas alinhadas a esses valores, segundo o Iberdrola.
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O problema surge quando esse discurso não se sustenta na prática, o greenwashing aparece justamente nesse descompasso entre o que a empresa comunica e o que efetivamente faz.
O QUE CARACTERIZA O GREENWASHING?
Greenwashing é a tentativa de construir uma imagem ambientalmente responsável sem mudanças reais nos processos produtivos, na cadeia de fornecedores ou nos impactos gerados.
Em geral, a prática envolve mensagens vagas, dados incompletos ou o destaque exagerado de ações pontuais que não representam o conjunto das operações da empresa.
Isso pode se manifestar em embalagens verdes sem comprovação ambiental, slogans inspiradores sem metas claras ou campanhas que exaltam uma linha específica de produtos enquanto o restante do negócio segue com alto impacto ambiental.
POR QUE O CONSUMIDOR DEVE FICAR ATENTO?
Além de induzir o consumidor ao erro, o greenwashing compromete a confiança no mercado como um todo. Quando práticas enganosas se tornam frequentes, cresce o ceticismo em relação a iniciativas ambientais legítimas, enfraquecendo avanços importantes na transição para uma economia de baixo carbono.
Do ponto de vista legal, a prática também é problemática. A legislação brasileira considera publicidade enganosa aquela que omite ou distorce informações relevantes, o que inclui alegações ambientais sem comprovação.
SINAIS DE ALERTA PARA IDENTIFICAR A PRÁTICA
Alguns indícios ajudam o consumidor a identificar quando uma empresa pode estar apenas pintando de verde sua comunicação:
- Linguagem genérica ou imprecisa, sem explicação clara do que torna o produto sustentável;
- Ausência de dados mensuráveis, prazos ou metas públicas relacionadas às promessas ambientais; e
- Destaque excessivo de atributos irrelevantes para o impacto ambiental do produto.
Falta de coerência entre o discurso sustentável e outras práticas da empresa, como histórico de multas ambientais ou ausência de políticas públicas de sustentabilidade.
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CERTIFICAÇÕES E TRANSPARÊNCIA
Certificações independentes e reconhecidas são um dos caminhos mais seguros para validar alegações ambientais. Selos concedidos por organismos externos indicam que o produto ou a empresa passou por auditorias e critérios técnicos específicos.
Conforme o Ministério da Justiça e Segurança Pública, também vale observar se a empresa divulga relatórios de sustentabilidade, metas climáticas e resultados periódicos. Transparência, nesse caso, não é um diferencial, mas um requisito mínimo para quem se apresenta como parte da solução ambiental.
PRINCIPAIS CERTIFICAÇÕES AMBIENTAIS
| Certificação | O que avalia | Onde se aplica |
|---|---|---|
| FSC | Manejo responsável de florestas | Produtos de madeira e papel |
| Selo Orgânico | Produção sem agrotóxicos e com práticas sustentáveis | Alimentos e produtos agrícolas |
| ISO 14001 | Gestão ambiental eficiente | Empresas de diversos setores |
| Fair Trade | Comércio ético e condições justas de trabalho | Produtos agrícolas e manufaturados |
CONSUMO CONSCIENTE VAI ALÉM DO RÓTULO
Adotar um consumo mais responsável não se resume à escolha de produtos com aparência ecológica. Envolve avaliar o ciclo de vida do que se compra, considerar impactos sociais e ambientais e buscar informações antes da decisão final.
Ao questionar, comparar e exigir clareza, o consumidor ajuda a desestimular práticas enganosas e fortalece empresas que realmente investem em mudanças estruturais.
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O combate ao greenwashing não depende apenas de órgãos reguladores ou da Justiça, passa, sobretudo, pela postura crítica do consumidor e pela valorização da transparência.