Sentir, imaginar, agir e resistir: o papel da cultura na crise climática
Em meio ao colapso do clima, como pode a cultura nos ajudar a pensar, construir, e lidar com nosso futuro?

A cosmologia do povo Baniwa entende o dia como o momento de trabalho e produção, e a noite como uma criação que surge depois, da necessidade do descanso, da contemplação e dos sonhos. Para o ativista e artista Denilson Baniwa, a sociedade atual deixou de valorizar o noturno, e assim aprofunda o colapso climático global.
“Decidimos excluir a noite das nossas vidas para viver um eterno dia de labor, com luzes artificiais que prejudicam a nossa saúde, a nossa vida, o meio ambiente; que necessitam de energia para funcionar. Com isso, destruímos grande parte do que a gente considera a natureza. Exploramos recursos naturais para que haja um dia eterno”, disse ele, num painel do 3º Seminário Internacional de Cultura e Mudança do Clima, na última quarta-feira (5).
Naquele dia ensolarado, a previsão do tempo anunciava máxima de 28 graus na cidade de São Paulo. Em pleno inverno, os termômetros confirmaram o esperado para o mês de agosto na região Sudeste: o Super El Niño, potencializado pela crise climática, traria umidade baixa e temperaturas mais altas que a média para o período. Mesmo quem não estivesse no auditório do SESC 24 de Maio, onde ocorreu o evento da São Paulo Climate Week - a Semana do Clima de São Paulo -, percebia o calor atípico; bastavam cinco minutos andando no Centro da cidade.
O alerta está mais do que soado. Paulo Artaxo, físico e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da Universidade de São Paulo (CEAS-USP), pontuou que os eventos climáticos que enfrentaremos serão cinco vezes mais fortes do que aqueles que aconteciam cem anos atrás. E foi enfático, nomeando o responsável pela “exclusão da noite” descrita por Baniwa: o sistema econômico, pautado no extrativismo dos recursos.
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“Essa ficha do brasileiro tem que cair", disse, ressaltando o papel da cultura nisso. A capacidade comunicativa e imaginativa da arte contempla aquilo que vai além da racionalidade dos dados e fatos que o próprio Artaxo traz em suas falas.
Segundo Alessandra Orofino e Bruno Torturra, dois dos apresentadores do podcast Calma Urgente, hoje a cultura tem como desafio explorar a nossa relação sentimental num contexto de colapso climático, na urgência presente nas narrativas climáticas que podemos e devemos criar. A cultura pode nos ajudar a lidar com a emergência que enfrentamos ao nos oferecer perspectivas e linguagens para o futuro, espaços de rebeldia, e de admissão daquilo que não sabemos, mas podemos aprender no contato com as diferentes experiências da crise.
ENTENDER E RECONHECER NOSSAS IGNORÂNCIAS
O primeiro passo para mudar nossas perspectivas é ter consciência de nossas ignorâncias.
Segundo a curadora e arte-educadora Keyna Eleison, a cultura pode nos estender a aquilo que não sabemos e, a partir disso, fomentar parcerias. Tanto em âmbito individual como institucional e coletivo, o ponto de partida é reconhecer limites e complexidades. Um exemplo disso é a Bienal das Amazônias, projeto pelo qual Eleison é responsável. Embora haja um imaginário no qual a Amazônia exista de apenas um jeito, o plural no nome do evento já demonstra a multiplicidade da região, incluindo perspectivas negras além de indígenas.
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Um segundo tipo de reconhecimento necessário é aquele vinculado ao modo como o país chegou ao extrativismo, que só piora a crise climática. O arqueólogo Eduardo Goés Neves, professor titular e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP), aponta para duas tragédias da nossa história recente: o genocídio e apagamento das populações indígenas, e a escravidão africana.
“Não podemos pensar nosso lugar no mundo e o nosso lugar no futuro sem levar em consideração esses dois processos - para usar um eufemismo - que são fundadores e fundamentais na construção da nossa identidade", disse ele.

Seu trabalho ilumina que a Amazônia é também histórica. As terras pretas, castanhais e a biodiversidade da região apontam para uma longa relação, de milhares de anos, entre os povos indígenas e seus territórios. Para Leila Borari, turismóloga, musicista e ativista do povo Borari, esse legado do manejo indígena está relacionado a uma perspectiva de longo prazo, bem diferente da cultura de curto prazo que é o espírito do nosso tempo.
“A gente não pensa só no hoje. Quando a gente vê as explorações locais, nas quais as pessoas destroem um ambiente no qual elas mesmas vão acabar prejudicadas, é muito difícil compreender, da perspectiva dos povos indígenas. Porque pensamos muito em como as pessoas vão sobreviver no futuro. O processo e o modo de vida dos povos indígenas é pensado em gerações: Não vamos colher a castanha que plantamos, mas a geração futura vai", reforça ela.
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Precisamos implementar mudanças de longo prazo em meio à crise climática e, de fato, agir. "Não adianta comprar arte indígena sem demarcar terra indígena", apontou Benjamin Seroussi, curador da Casa do Povo, que já realizou projetos artísticos com a Aldeia-Escola Indígena, da comunidade Maxakali. Ele acredita que a cultura deve estar menos preocupada com a ideia de empatia amplamente difundida hoje, que é importante, mas não mais que a construção prática e efetiva de solidariedade.
NOMEAR OS SENTIMENTOS QUANTO AO FUTURO
Considerando a crise climática, um dos primeiros sentimentos que vêm à mente é, provavelmente, o mais comum: a ansiedade. De acordo com um levantamento de 2025 do Instituto Cactus, em parceria com a AtlasIntel, 58% dos brasileiros entrevistados se sentiam nervosos, ansiosos ou inquietos, e demonstravam medo (51%) sobre o assunto.
Ao analisar a própria experiência de ansiedade climática, com a qual Bruno Torturra convive há duas décadas, o jornalista descreveu ter passado a ser mais "negacionista”, comportamento emblemático do nosso tempo. Ultimamente, ele tem evitado ler tanto sobre o colapso do clima, recalcando a ansiedade, o que ele também liga a uma postura hiper-hedonista que adotamos como sociedade.
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Outra emoção, desta vez apontada por Alessandra Orofino, é o ressentimento geracional das crianças e jovens que nascem e crescem em meio à crise. Para a ativista e produtora de cinema, por mais que a maioria dos adultos não seja direta e individualmente responsável pelo aquecimento global, é preciso pontuar a emergência do clima. "Se não deixarmos isso dito, seremos cúmplices da situação", alertou.
Quanto ao futuro em meio ao caos climático, não podemos cair nem num fatalismo e nem crer que, de última hora, alguém (ou algo, como a inteligência artificial) encontrará uma solução. Nesta linha de raciocínio, o curador Benjamin Seroussi criticou o uso do futuro para ignorar as urgências do agora.
“A ideia de futuro, muitas vezes, é usada para apagar o presente. Colocamos ela na nossa frente para ter algum horizonte. Claro que não queremos ficar paralisados e não ter futuro, mas estamos enfrentando uma dificuldade de implementação no presente. Não temos ainda a receita de como essa transformação acontece de fato politicamente. E o campo da arte, da cultura, é um campo que está aqui para radicalizar a nossa imaginação política", disse.
Além disso, ele frisou a necessidade de pensarmos novos modelos econômicos além do ‘desenvolvimento sustentável’. Citando o trabalho de Aílton Krenak, Seroussi descreve o conceito como um oxímoro, duas palavras que se contradizem e que simbolizam apenas um mito corporativo.
EXPRESSAR E ATUAR NA REVOLTA
Contudo, há no Brasil um grande desafio para a cultura que pretende pensar, imaginar, e questionar o futuro no colapso climático, especificamente nas estruturas de fomento às artes. Muito do que é produzido no setor cultural só é possível com o dinheiro de setores da economia incentivados pela renúncia fiscal. Da mineração ao combustível fóssil e ao agronegócio, grande parte das artes são financiadas com o apoio do extrativismo em massa de nossos recursos naturais.
Em sua conversa sobre o tema, Alessandra Orofino e Bruno Torturra pontuaram que, sendo assim, é extremamente difícil que a cultura produzida no Brasil, que depende desse dinheiro, seja de fato um tipo de arte que possa se revoltar com o sistema extrativista e seu enorme impacto para o colapso climático.
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Ainda assim, há artistas que encaram de frente essa dificuldade. Katú Mirim, cantora e rapper indígena da periferia de São Paulo, é uma delas. Sua composição "Bling Bling” é uma denúncia direta ao garimpo e à violência gerada por ele: “Sua riqueza causa pobreza, estupro e destruição / Quem patrocina o garimpo não é a minha religião / No teu peito tem pingente de ouro em formato de balas / Yanomami é o alvo, aqui o tiroteio não para".
No painel em que participou, a cantora ainda disse que vê sua obra como música indígena futurista não só por causa da estética synth-pop que adota, mas principalmente pelas críticas que ela traz em suas letras: “A minha música faz uma provocação dentro da arte. O que é esse futuro que os brancos tanto estão almejando, com carro voando, essas tecnologias de robôs e IAs? A gente tem que ouvir mais o que os povos indígenas estão falando. O que os professores disseram hoje, o que os jornais falam, isso que o Seminário trouxe… Tudo isso é o que os pajés e os povos indígenas falam desde 1500.”