Sentir, imaginar, agir e resistir: o papel da cultura na crise climática

Em meio ao colapso do clima, como pode a cultura nos ajudar a pensar, construir, e lidar com nosso futuro?

Colagem mostra Katú Mirim com um microfone diante de uma área desmatada e pássaros ilustrados.
A arte, a cultura e os conhecimentos indígenas ampliam as formas de compreender, sentir e enfrentar a crise climática.

Sofia Bolina 8 minutos de leitura
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A cosmologia do povo Baniwa entende o dia como o momento de trabalho e produção, e a noite como uma criação que surge depois, da necessidade do descanso, da contemplação e dos sonhos. Para o ativista e artista Denilson Baniwa, a sociedade atual deixou de valorizar o noturno, e assim aprofunda o colapso climático global.

“Decidimos excluir a noite das nossas vidas para viver um eterno dia de labor, com luzes artificiais que prejudicam a nossa saúde, a nossa vida, o meio ambiente; que necessitam de energia para funcionar. Com isso, destruímos grande parte do que a gente considera a natureza. Exploramos recursos naturais para que haja um dia eterno”, disse ele, num painel do 3º Seminário Internacional de Cultura e Mudança do Clima, na última quarta-feira (5). 

Naquele dia ensolarado, a previsão do tempo anunciava máxima de 28 graus na cidade de São Paulo. Em pleno inverno, os termômetros confirmaram o esperado para o mês de agosto na região Sudeste: o Super El Niño, potencializado pela crise climática, traria umidade baixa e temperaturas mais altas que a média para o período. Mesmo quem não estivesse no auditório do SESC 24 de Maio, onde ocorreu o evento da São Paulo Climate Week - a Semana do Clima de São Paulo -, percebia o calor atípico; bastavam cinco minutos andando no Centro da cidade.

O alerta está mais do que soado. Paulo Artaxo, físico e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da Universidade de São Paulo (CEAS-USP), pontuou que os eventos climáticos que enfrentaremos serão cinco vezes mais fortes do que aqueles que aconteciam cem anos atrás. E foi enfático, nomeando o responsável pela “exclusão da noite” descrita por Baniwa: o sistema econômico, pautado no extrativismo dos recursos. 

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“Essa ficha do brasileiro tem que cair", disse, ressaltando o papel da cultura nisso. A capacidade comunicativa e imaginativa da arte contempla aquilo que vai além da racionalidade dos dados e fatos que o próprio Artaxo traz em suas falas. 

Segundo Alessandra Orofino e Bruno Torturra, dois dos apresentadores do podcast Calma Urgente, hoje a cultura tem como desafio explorar a nossa relação sentimental num contexto de colapso climático, na urgência presente nas narrativas climáticas que podemos e devemos criar. A cultura pode nos ajudar a lidar com a emergência que enfrentamos ao nos oferecer perspectivas e linguagens para o futuro, espaços de rebeldia, e de admissão daquilo que não sabemos, mas podemos aprender no contato com as diferentes experiências da crise.

ENTENDER E RECONHECER NOSSAS IGNORÂNCIAS 

O primeiro passo para mudar nossas perspectivas é ter consciência de nossas ignorâncias. 

Segundo a curadora e arte-educadora Keyna Eleison, a cultura pode nos estender a aquilo que não sabemos e, a partir disso, fomentar parcerias. Tanto em âmbito individual como institucional e coletivo, o ponto de partida é reconhecer limites e complexidades. Um exemplo disso é a Bienal das Amazônias, projeto pelo qual Eleison é responsável. Embora haja um imaginário no qual a Amazônia exista de apenas um jeito, o plural no nome do evento já demonstra a multiplicidade da região, incluindo perspectivas negras além de indígenas.

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Um segundo tipo de reconhecimento necessário é aquele vinculado ao modo como o país chegou ao extrativismo, que só piora a crise climática. O arqueólogo Eduardo Goés Neves, professor titular e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP), aponta para duas tragédias da nossa história recente: o genocídio e apagamento das populações indígenas, e a escravidão africana.

“Não podemos pensar nosso lugar no mundo e o nosso lugar no futuro sem levar em consideração esses dois processos - para usar um eufemismo - que são fundadores e fundamentais na construção da nossa identidade", disse ele. 

Obra circular de fundo preto reúne símbolos coloridos inspirados nos petróglifos do Alto Rio Negro.
“Boca do Céu” (2022), de Denilson Baniwa, representa conexões entre seres e diferentes camadas da cosmologia Baniwa. Acrílica sobre tela, 200 centímetros de diâmetro.© Denilson Baniwa/ Cortesia do artista e A Gentil Carioca

Seu trabalho ilumina que a Amazônia é também histórica. As terras pretas, castanhais e a biodiversidade da região apontam para uma longa relação, de milhares de anos, entre os povos indígenas e seus territórios. Para Leila Borari, turismóloga, musicista e ativista do povo Borari, esse legado do manejo indígena está relacionado a uma perspectiva de longo prazo, bem diferente da cultura de curto prazo que é o espírito do nosso tempo.

“A gente não pensa só no hoje. Quando a gente vê as explorações locais, nas quais as pessoas destroem um ambiente no qual elas mesmas vão acabar prejudicadas, é muito difícil compreender, da perspectiva dos povos indígenas. Porque pensamos muito em como as pessoas vão sobreviver no futuro. O processo e o modo de vida dos povos indígenas é pensado em gerações: Não vamos colher a castanha que plantamos, mas a geração futura vai", reforça ela.

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Precisamos implementar mudanças de longo prazo em meio à crise climática e, de fato, agir. "Não adianta comprar arte indígena sem demarcar terra indígena", apontou Benjamin Seroussi, curador da Casa do Povo, que já realizou projetos artísticos com a Aldeia-Escola Indígena, da comunidade Maxakali. Ele acredita que a cultura deve estar menos preocupada com a ideia de empatia amplamente difundida hoje, que é importante, mas não mais que a construção prática e efetiva de solidariedade.

NOMEAR OS SENTIMENTOS QUANTO AO FUTURO

Considerando a crise climática, um dos primeiros sentimentos que vêm à mente é, provavelmente, o mais comum: a ansiedade. De acordo com um levantamento de 2025 do Instituto Cactus, em parceria com a AtlasIntel, 58% dos brasileiros entrevistados se sentiam nervosos, ansiosos ou inquietos, e demonstravam medo (51%) sobre o assunto. 

Ao analisar a própria experiência de ansiedade climática, com a qual Bruno Torturra convive há duas décadas, o jornalista descreveu ter passado a ser mais "negacionista”, comportamento emblemático do nosso tempo. Ultimamente, ele tem evitado ler tanto sobre o colapso do clima, recalcando a ansiedade, o que ele também liga a uma postura hiper-hedonista que adotamos como sociedade. 

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Outra emoção, desta vez apontada por Alessandra Orofino, é o ressentimento geracional das crianças e jovens que nascem e crescem em meio à crise. Para a ativista e produtora de cinema, por mais que a maioria dos adultos não seja direta e individualmente responsável pelo aquecimento global, é preciso pontuar a emergência do clima. "Se não deixarmos isso dito, seremos cúmplices da situação", alertou. 

Quanto ao futuro em meio ao caos climático, não podemos cair nem num fatalismo e nem crer que, de última hora, alguém (ou algo, como a inteligência artificial) encontrará uma solução. Nesta linha de raciocínio, o curador Benjamin Seroussi criticou o uso do futuro para ignorar as urgências do agora. 

“A ideia de futuro, muitas vezes, é usada para apagar o presente. Colocamos ela na nossa frente para ter algum horizonte. Claro que não queremos ficar paralisados e não ter futuro, mas estamos enfrentando uma dificuldade de implementação no presente. Não temos ainda a receita de como essa transformação acontece de fato politicamente. E o campo da arte, da cultura, é um campo que está aqui para radicalizar a nossa imaginação política", disse. 

Além disso, ele frisou a necessidade de pensarmos novos modelos econômicos além do ‘desenvolvimento sustentável’. Citando o trabalho de Aílton Krenak, Seroussi descreve o conceito como um oxímoro, duas palavras que se contradizem e que simbolizam apenas um mito corporativo.

EXPRESSAR E ATUAR NA REVOLTA

Contudo, há no Brasil um grande desafio para a cultura que pretende pensar, imaginar, e questionar o futuro no colapso climático, especificamente nas estruturas de fomento às artes. Muito do que é produzido no setor cultural só é possível com o dinheiro de setores da economia incentivados pela renúncia fiscal. Da mineração ao combustível fóssil e ao agronegócio, grande parte das artes são financiadas com o apoio do extrativismo em massa de nossos recursos naturais.

Em sua conversa sobre o tema, Alessandra Orofino e Bruno Torturra pontuaram que, sendo assim, é extremamente difícil que a cultura produzida no Brasil, que depende desse dinheiro, seja de fato um tipo de arte que possa se revoltar com o sistema extrativista e seu enorme impacto para o colapso climático.

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Ainda assim, há artistas que encaram de frente essa dificuldade. Katú Mirim, cantora e rapper indígena da periferia de São Paulo, é uma delas. Sua composição "Bling Bling” é uma denúncia direta ao garimpo e à violência gerada por ele: “Sua riqueza causa pobreza, estupro e destruição / Quem patrocina o garimpo não é a minha religião / No teu peito tem pingente de ouro em formato de balas / Yanomami é o alvo, aqui o tiroteio não para".

No painel em que participou, a cantora ainda disse que vê sua obra como música indígena futurista não só por causa da estética synth-pop que adota, mas principalmente pelas críticas que ela traz em suas letras: “A minha música faz uma provocação dentro da arte. O que é esse futuro que os brancos tanto estão almejando, com carro voando, essas tecnologias de robôs e IAs? A gente tem que ouvir mais o que os povos indígenas estão falando. O que os professores disseram hoje, o que os jornais falam, isso que o Seminário trouxe… Tudo isso é o que os pajés e os povos indígenas falam desde 1500.”


SOBRE A AUTORA

Sofia Bolina é jornalista, formada em Estudos Culturais pela Universidade Humboldt de Berlim e mestre em escrita de não-ficção pela Un... saiba mais