Democratização da educação financeira: caminhos para inclusão e autonomia econômica

Ao adaptar recursos às realidades da população negra, oferecemos a chance de um futuro mais equitativo e inclusivo

Créditos: Iryna Melnyk e porcorex/ Getty Images/ Karolina Grabowska/ Pexels

Fernanda Ribeiro 3 minutos de leitura

“Preto e dinheiro não são palavras rivais.” Essas palavras poderosas dos Racionais MC’s ressoam como uma verdade profunda e incômoda. Os laços históricos entre raça, classe e dinheiro que moldam a vida de muitos negros nos convidam a pensar como essas coisas estão interligadas e como, apesar da competição, a luta e a busca pelo sucesso estão presentes na comunidade negra.

Esse grupo representa mais de 56% da população, conforme o censo do IBGE, mas ainda enfrenta barreiras históricas para acessar o sistema financeiro – e, com essa exclusão, tem problemas recorrentes como o endividamento.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), o percentual de famílias endividadas no Brasil chegou a 78,9% em 2023 e a maior parte delas é composta por negros.

Considerando que o Brasil é um país onde o racismo estrutural perpetua desigualdades em diversas esferas, a exclusão financeira se destaca como uma das mais cruéis formas de marginalização. Para a população negra, essa restrição não é apenas uma questão de falta de recursos, mas de acesso ao conhecimento e às ferramentas necessárias para conquistar autonomia.

Além disso, essa parcela da população continua a enfrentar dificuldades para acessar o mercado de trabalho formal, o que agrava ainda mais a situação econômica. Segundo o IBGE, pessoas negras têm menor renda média e são mais afetadas pelo desemprego. Isso reforça a importância de estratégias e políticas públicas voltadas para a inclusão financeira.

Apesar dos avanços, ainda há obstáculos para que a educação financeira seja acessível a todos. Existe um desafio cultural, onde a desconfiança em relação ao sistema financeiro e o histórico de exclusão levam à baixa adesão de  produtos bancários formais.

Isso é agravado pela publicidade inadequada de produtos (como investimento, financiamento e cartão), que em geral não fala diretamente com as necessidades da população negra e a carência de formação adequada. Essas questões, muitas vezes, não são abordadas nas escolas, deixando os jovens sem as habilidades necessárias para lidar com orçamento, poupança e investimentos.

Crédito: Fast Company Brasil

Para contornar esses obstáculos, é fundamental desenvolver programas de democratização da educação financeira inclusivos que sejam adaptados a diferentes faixas etárias e níveis de conhecimento. A utilização de plataformas online, como cursos gratuitos e aplicativos de gerenciamento, pode proporcionar aprendizado interativo e prático.

Além disso, a criação de parcerias com instituições locais e organizações sem fins lucrativos pode ampliar o alcance desses programas, garantindo que mais pessoas tenham acesso a informações valiosas sobre gestão.

Importante que essas iniciativas sejam ampliadas e adaptadas para alcançar mais pessoas. A democratização da educação financeira deve ser vista não apenas como um conjunto de ferramentas de sobrevivência, mas como uma forma de empoderamento.

Os laços históricos entre raça, classe e dinheiro nos convidam a pensar como essas coisas estão interligadas.

Ao fornecer à população negra os meios para administrar seus recursos e planejar sua vida financeira, estamos também promovendo inclusão social e justiça econômica.

Precisamos dar um passo essencial para corrigir as desigualdades históricas que afetam esse grupo. Mais do que simplesmente aprender a lidar com dinheiro, trata-se de romper com um ciclo de exclusão e vulnerabilidade que perpetua a pobreza e a marginalização.

Ao adaptar recursos às realidades da população negra, oferecemos a chance de um futuro mais equitativo e inclusivo, onde preto e dinheiro possam, finalmente, caminhar juntos.


SOBRE A AUTORA

Fernanda Ribeiro é cofundadora e CEO da Conta Black. saiba mais