Aquecimento agravou instabilidade antes de desastre no Himalaia

Análise mostra como calor extremo, retração de geleiras, degelo do permafrost e danos deixados por um terremoto contribuíram para tornar a montanha mais vulnerável

Montagem artística mostra bloco de gelo fragmentado para representar a instabilidade das geleiras no Himalaia.
Créditos: Magnific

Beatriz Felizardo 4 minutos de leitura
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No dia 26 de agosto, uma enorme massa de rocha e gelo desprendeu-se do monte Langtang Lirung, na região do Himalaia. O colapso atingiu cerca de dois quilômetros quadrados da parede da montanha e desencadeou uma avalanche que se transformou rapidamente em uma inundação de detritos.

A força do impacto foi equivalente à de um terremoto de magnitude 5,5. Em seguida, uma massa de água, gelo, rocha e sedimentos avançou pelo vale, destruindo casas, estradas, pontes e comunidades.

Mais de 1,5 pessoas morreram e milhares permanecem desaparecidas, segundo atualização divulgada em 22 de setembro pela Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres do Nepal (NDRRMA).

Uma análise da World Weather Attribution (WWA), conduzida por pesquisadores de diferentes países e instituições, examinou os fatores que antecederam o colapso.

Os cientistas não atribuíram o desastre a um único evento climático. A análise identificou uma combinação de características geológicas, danos provocados por um terremoto anterior e transformações relacionadas ao aquecimento do planeta.

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Ao longo das últimas décadas, o aumento da temperatura alterou as condições do gelo, das geleiras e do solo congelado na região, contribuindo para tornar a encosta mais vulnerável.

AS MUDANÇAS NAS MONTANHAS

Na área analisada, próxima à fronteira entre Nepal e China, o aquecimento médio anual atribuído às mudanças climáticas já chega a cerca de 2°C em relação ao período pré-industrial.

Somente em julho e agosto de 2026, as temperaturas ficaram aproximadamente 1,5°C acima do que seria esperado sem a influência do aquecimento provocado pela atividade humana. Os dois meses foram os mais quentes já registrados localmente.

Nos dias anteriores ao colapso, as temperaturas chegaram a cerca de 5°C acima da média das três décadas anteriores. O calor favorece a perda de neve e gelo e aumenta a quantidade de água presente na montanha, alterando as condições da encosta.

A análise também identificou uma mudança de longo prazo na chamada linha de congelamento, correspondente à altitude em que a temperatura chega a 0°C. Essa linha subiu aproximadamente 100 metros por década desde os anos 1980.

O deslocamento expõe áreas que antes permaneciam protegidas pelo gelo e contribui para a degradação do permafrost, o afinamento das geleiras e a substituição de parte da neve pela chuva.

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QUANDO O GELO DESESTABILIZA

As geleiras da região do Himalaia vêm perdendo massa há décadas. Na área de Langtang Lirung, essa perda equivale a mais de meio metro de espessura por ano, segundo a análise.

Desde 2010, a retração da geleira Langtang Lirung também acelerou. O recuo, que ocorria a uma taxa estimada de 0,5% ao ano durante os dois séculos anteriores, passou a variar entre 1% e 2,3% ao ano nos últimos 16 anos.

Vista aérea de casas cobertas por lama e detritos após inundação em Devghat, no Nepal.
Vista aérea mostra casas cercadas por lama e detritos após as inundações em Devghat, no Nepal, em 28 de agosto de 2026. Crédito: Ambir Tolang/ AFP via Getty Images.

O gelo que ocupava espaços nas paredes rochosas também oferecia uma forma de sustentação natural. Quando a geleira perde espessura e recua, esse apoio diminui e a distribuição das forças sobre as rochas ao redor é alterada.

O permafrost é a camada de solo ou rocha que permanece congelada por longos períodos. O gelo presente nessa estrutura funciona como uma espécie de liga natural, ajudando a manter rochas e sedimentos unidos.

Quando ocorre o descongelamento, essa coesão diminui. A água também pode penetrar nas fissuras, aumentar a pressão em seu interior e ampliar instabilidades geológicas preexistentes.

A análise aponta que a degradação do permafrost pode ter enfraquecido a parede rochosa ao elevar a temperatura do substrato e derreter o gelo presente nas fraturas.

Esses processos acontecem em um planeta que continua aquecendo. Um relatório climático recente já alertava para a possibilidade de os próximos anos registrarem novos recordes de temperatura.

NÃO FOI SÓ O CLIMA

As condições climáticas, porém, não explicam o colapso sozinhas.

Em 2015, um terremoto de magnitude 7,8 atingiu a mesma região do Nepal e provocou outra avalanche de rocha e gelo em Langtang Lirung. Segundo os pesquisadores, o abalo pode ter enfraquecido a estrutura rochosa da encosta e criado condições para novos deslizamentos.

Sua contribuição específica para o evento de 2026 ainda não pode ser confirmada. As próprias características geológicas da montanha também ampliaram sua vulnerabilidade.

A WWA ressalta que a análise não determinou se o colapso teria acontecido sem as mudanças climáticas. Uma atribuição direta exigiria mais informações sobre a temperatura abaixo da superfície, a pressão da água dentro das fissuras e a evolução mecânica da encosta.

Ainda assim, o rápido aumento das temperaturas, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis, amplia a probabilidade e a gravidade desse tipo de perigo nas regiões montanhosas.

A tragédia, portanto, resultou de uma cadeia de fatores interligados: a geologia vulnerável da montanha, os possíveis danos deixados pelo terremoto de 2015 e décadas de aquecimento, retração das geleiras e degradação do permafrost.

O desastre também expõe os limites da adaptação. A massa de água, rocha, gelo e sedimentos percorreu os primeiros 22 quilômetros em apenas sete minutos, a uma velocidade média estimada em 188 km/h.

Nenhum dos sistemas de alerta existentes conseguiria emitir um aviso com antecedência suficiente para evitar a destruição nas áreas mais atingidas. Para os pesquisadores, eventos tão rápidos e complexos podem ultrapassar a capacidade de adaptação das comunidades à medida que o Himalaia continua aquecendo.


SOBRE A AUTORA

Beatriz Felizardo é estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, apaixonada por direitos humanos e curiosa sobre as transformaç... saiba mais