E se a maior inovação do nosso tempo fosse a paz?

O que quatro países nos ensinam sobre construir futuros mais humanos

o que significa paz em diferentes culturas
Créditos: Calvin Dexter/ Jacob Lund/ Getty Images

Renata Broglia Mendes 7 minutos de leitura

Nas últimas duas décadas, venho investigando o que é paz e como ela é compreendida, vivida e construída em diferentes lugares e culturas.

O que encontrei, em cada uma dessas experiências, foi intrigante: a paz não aparece de forma pura e única. Ela carrega ambiguidades, tensões e paradoxos. E é exatamente aí que ela se torna real.

Mais do que um ideal, a paz é uma prática que atravessa nossa vida interior, nossas relações e os sistemas que construímos. E quando ela se encontra com a espiritualidade e a inovação, algo de novo se torna possível.

ÍNDIA: A PAZ QUE VEM DE DENTRO

Na Índia, entre buzinas, um trânsito com sua própria lógica e todos os cheiros e sabores que atravessam o ar, a paz emerge de um valor secular e profundo: o da ahimsa, a não violência. Não ferir em pensamentos, palavras e ações.

Para mim, essa experiência tocou uma camada muito interior. A paz começa no autoconhecimento e se manifesta na forma como escolhemos estar em sociedade, como contribuição. A ambiguidade está presente também: a violência de gênero e de casta coexiste com esse valor.

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Esse é o tecido contraditório de uma das civilizações mais antigas do mundo e que mostrou, por meio do movimento de Gandhi e de todas as pessoas envolvidas, a possibilidade de promover a emancipação de um território sem o uso da violência.

EUROPA: A PAZ COMO PROJETO SOCIAL

No meu mestrado em Estudos de Paz e Conflitos Internacionais, na Áustria, aprendi que paz vai muito além da ausência de guerras. Ela é uma forma de organização social capaz de oferecer harmonia e condições para que cada pessoa desenvolva seu potencial. É nesse território que vivem grandes pensadores da paz.

Mas o que vi, para além do que estudei, foi uma paz muitas vezes vinculada à segurança via controle, principalmente de suas fronteiras e usando as leis para justiçar opressões aos de fora. No meu olhar, paz está mais para contorno do que controle. Outra ambiguidade.

Tive a oportunidade de ir à África do Sul a trabalho e testemunhar o impacto do apartheid e o movimento político de não violência que Nelson Mandela liderou.

Nelson Mandela na sede da Organização  das Nações Unidas
Nelson Mandela (Crédito: Pernaca Sudhakaran/ ONU)

Sua abordagem fala de diálogo e reparação: colocar pessoas que não se falavam em uma mesa e chegar a um acordo mínimo de convivência e redistribuição de poder. Trabalhoso e poderoso. Um exemplo concreto de que a paz pode ser construída, mesmo sobre os escombros de décadas de desumanização.

E também um lembrete de que ela precisa ser cuidada constantemente para não ser desconstruída: anos após esse feito histórico, os altos índices de violência revelam como a herança econômica e social daquela história ainda cobra seu preço.

JAPÃO: A PAZ COMO PRÁTICA COLETIVA COTIDIANA

O lugar mais seguro que conheci na vida. Era possível caminhar sozinha por lugares desertos, de dia e de noite, com uma sensação que há muito não sentia: a de que a paz não dependia de ninguém em particular, porque ela era de todos.

Ali, a paz nunca foi individual. Nem a palavra “eu” em japonês se refere apenas ao indivíduo. A paz é coletiva. O custo pessoal existe e é real, mas ele existe em função da harmonia do conjunto.

Crédito: AzmanL/ iStock

Isso se refletia em como crianças e idosos eram cuidados. Crianças andando sozinhas pelas ruas. Idosos com mobilidade e respeito, independentemente da classe social, porque a desigualdade existe, mas não determina quem merece dignidade.

Cada pessoa cuidava do seu lixo. Todos protegiam as leis. E vale notar: proteger a lei, e não apenas obedecê-la, faz toda a diferença. Essa distinção muda a atitude de cada pessoa envolvida, tornando-a parte ativa de algo que se sustenta coletivamente.

O cuidado era diário. O valor pela beleza e pela simplicidade estava no tecido social, não apenas nos templos, no design e nas cerimônias de chá.

a paz é uma prática que atravessa nossa vida interior, nossas relações e os sistemas que construímos.

Havia uma sensação de temporalidade secular. Uma capacidade de reconstrução diante de tantas destruições: guerras, incêndios, bombas atômicas, tsunamis. E, em pouco tempo, construir trem-bala.

Isso mostra como honrar a história, mantendo-a viva, e a inovação podem andar de mãos dadas. Pertencimento. Memória. Respeito à vida.

A ambiguidade também aparecia: a saúde mental seguia sendo tema tabu, as taxas de suicídio eram altas e havia uma certa rigidez diante das nuances da existência.

Mas existia, inegavelmente, um valor fundante pela harmonia, e ele organizava tudo. A paz ali não era um ideal distante. Era uma prática que se reconstruía a cada dia.

BRASIL: A PAZ QUE AINDA NÃO ENCONTROU SEU NOME

No Brasil, apesar de diretrizes legais sobre educação para a paz e programas de não violência nas escolas, a palavra ainda é pouco usada e pouco compreendida.

Para alguns, é algo individual. Para outros, carrega uma conotação de pacificação e opressão. E há quase nenhuma produção de conhecimento sobre paz com olhar genuinamente brasileiro.

Mas isso não quer dizer que ela não exista, nem que não esteja sendo construída.

Ailton Krenak, com sua provocação sobre adiar o fim do mundo e nossa capacidade de imaginar futuros, o devir no qual a vida seja soberana.

Nego Bispo, nos convidando para as confluências, para o reconhecimento do saber vivido e ampliado.

Lia Diskin, disseminando a cultura de paz por meio dos valores de convivência, do diálogo e da tradução, literal e simbólica, de ideias que transformam.

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A nossa ambiguidade talvez seja achar que o Brasil é mais violento do que realmente é. Uma herança histórica dos maiores genocídios da humanidade que, como sociedade, ainda não fomos capazes de reconhecer, nomear e reparar.

Sem esse gesto, a paz segue sem endereço. E sem endereço, ela não pode ser evidenciada e construída coletivamente como um valor de convivência.

PAZ: DINÂMICA, CONTEXTUAL E SEMPRE EM CONSTRUÇÃO

O que aprendi, e continuo aprendendo, é que a paz tem muitas faces. Ela é dinâmica, contextual, nunca aparece de forma pura e raramente sem contradições.

Mas ela é passível de ser construída, reconstruída, reparada, imaginada e repactuada por qualquer sociedade, em qualquer tempo. Chamando-se paz ou não.

No trabalho que desenvolvo com cultura de paz, essa compreensão se desdobra em três dimensões interdepen- dentes: a paz interior, que nasce do autoconhecimento e da nossa relação com a gente mesmo; a paz interpessoal, que se tece no diálogo, na empatia e na capacidade de reparar vínculos, sejam eles de trabalho, de amizade ou familiares; e a paz sistêmica, que se constrói em sistemas, instituições e valores sociais capazes de sustentar dignidade e pertencimento para todos.

a paz tem muitas faces, não é só a não violência

Cada cultura que visitei ilumina uma dessas dimensões com mais intensidade. E nenhuma delas é suficiente sozinha.

Essas três dimensões também se encontram em um ponto que raramente associamos à paz: a espiritualidade e a inovação. A espiritualidade, em seus muitos formatos e tradições, tem sido, ao longo da história, um dos maiores motores da paz interior e da coesão entre pessoas.

A inovação, por sua vez, quando enraizada em valores, e não apenas em eficiência, tem o potencial de criar sistemas mais justos, relacionamentos mais humanos e futuros mais habitáveis.

Não há quase nenhuma produção de conhecimento sobre paz com olhar genuinamente brasileiro.

Paz, espiritualidade e inovação não são mundos separados. São dimensões que, quando integradas, ampliam nossa capacidade de construir algo novo sobre o que foi destruído.

Em um ano eleitoral no Brasil, quando o discurso da divisão tende a ser mais rentável do que o da coesão, essa provocação me parece urgente: paz não é ingenuidade.

É uma escolha política, social e pessoal. É uma prática. Uma construção coletiva que exige intenção, coragem e continuidade. E, como qualquer prática, ela pode ser ensinada, aprendida e, acima de tudo, vivida.


SOBRE A AUTORA

Renata Broglia Mendes é pesquisadora de cultura de paz e inovação social, com foco em autoconhecimento, relações construtivas e transf... saiba mais