El Niño de 2026 pode antecipar, por alguns meses, o calor previsto para 2037

O aquecimento causado pelo El Niño não é igual ao das mudanças climáticas, mas pode revelar como será um planeta ainda mais quente

pior El Niño da história
Créditos: kdadan97/ Pexels/ Vimal S, Zarah/ V. Windh/ Unsplash

Kristin Toussaint 3 minutos de leitura
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O fenômeno El Niño continua ganhando força e o clima extremo que ele deve provocar pode ser uma prévia do nosso futuro em um mundo ainda mais quente.

O El Niño deste ano pode se tornar o mais intenso já registrado, segundo as previsões, e isso significa impactos potencialmente severos no clima, desde secas prolongadas em algumas partes do mundo até mais tempestades e volumes de chuva em outras, provocando enchentes graves.

A intensidade de um El Niño está relacionada ao quanto as temperaturas do oceano fica acima da média. Essa água mais quente afeta a atmosfera, alterando e intensificando os padrões climáticos.

O El Niño deste ano está acontecendo ao mesmo tempo em que o oceano já registra temperaturas muito elevadas e o verão no hemisfério norte é marcado por calor extremo.

Isso significa que o aquecimento provocado pelo fenômeno pode fazer com que a temperatura média mensal do planeta ultrapasse 2 °C acima dos níveis pré-industriais – um limite que, por muito tempo, foi considerado aquele que deveríamos tentar não ultrapassar para evitar os “danos imprevisíveis e extensos” das mudanças climáticas.

Vale ressaltar que não existe um limite seguro para o aquecimento global. Já estamos vendo os impactos das mudanças climáticas, na forma do verão mais quente já registrado nos Estados Unidos e de múltiplas ondas de calor em toda a Europa.

Mas cada aumento na temperatura intensifica os impactos climáticos. Limitar o aquecimento pode ajudar a evitar desastres ainda mais extremos.

gráfico de previsão de intensidade do fenômeno climático El Niño em 2026
Gráfico: Zeke Hausfather

Ainda não estamos em um mundo 2 °C mais quente: fora do ciclo do El Niño, o planeta só deve atingir esse nível de aquecimento daqui a uma ou duas décadas, segundo especialistas. Mas, se o fenômeno nos levar temporariamente até lá, poderemos ter um vislumbre de como será esse mundo.

“Os próximos 12 meses podem ser um verdadeiro teste de estresse: calor recorde, eventos climáticos extremos, perdas de safras e impactos em cascata”, escreveu Robert Rohde, cientista-chefe da Berkeley Earth, no Bluesky sobre o El Niño deste ano. “Em parte, uma prévia do nosso futuro.”

Zeke Hausfather, cientista climático também da Berkeley Earth e responsável pela pesquisa climática da Stripe, vem descrevendo este El Niño como uma “máquina do tempo”. O aquecimento provocado pelo fenômeno, do fim de 2026 até 2027, poderá ser equivalente ao que os cientistas preveem para a temperatura em 2037.

EL NIÑO x GASES DE EFEITO ESTUFA

Mas há uma ressalva. El Niño e gases de efeito estufa provocam impactos de naturezas diferentes.

“O mundo futuro aquecido pelos gases de efeito estufa e o mundo atual, temporariamente aquecido pelo El Niño, podem ter a mesma temperatura média global e, ainda assim, apresentar diferenças consideráveis nos impactos desse aquecimento”, escreveram Hausfather e o cientista climático Andrew Dessler em um texto publicado no canal do Substack "The Climate Brink".

As mudanças climáticas, como costumamos chamá-las, estão relacionadas ao aquecimento global provocado pela liberação de gases de efeito estufa na atmosfera. Essas emissões retêm calor, aquecendo o planeta.

O El Niño, por outro lado, é mais parecido com uma “redistribuição do calor” que já existe em nosso sistema climático. Durante um El Niño, os ventos mudam e espalham a água quente do oceano para outras regiões, o que afeta o aquecimento da atmosfera.

Isso significa que o aquecimento provocado pelo El Niño não é global: algumas partes do planeta registram temperaturas mais altas, enquanto outras ficam mais frias. O fenômeno também altera os padrões de chuva de uma maneira que não é igual em todo o mundo.

Nesse sentido, este El Niño não vai reproduzir o quadro completo do aquecimento global causado pela ação humana, impulsionado pelos gases de efeito estufa, que estamos a caminho de experimentar em 2037.

Mas, para determinadas regiões do mundo, ele vai trazer alguns dos impactos intensificados que uma Terra mais quente reserva – como calor recorde e períodos de chuvas intensas – de uma maneira que nenhum El Niño jamais provocou.


SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company. saiba mais