El Niño vai jogar combustível no fogo da crise climática

Cientistas alertam para riscos à produção de alimentos, à pesca e aos ecossistemas marinhos nos próximos meses

mapa-mundi simula o efeito do fenômeno climático El Niño
Créditos: NOAA/ Europeana/ Unsplash

Kristin Toussaint 5 minutos de leitura

O fenômeno climático El Niño chegou oficialmente e pode se tornar um dos mais intensos da história, segundo alerta da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).

Com os oceanos já aquecidos pela queima de combustíveis fósseis e pelas mudanças climáticas causadas pela atividade humana, o El Niño adiciona ainda mais calor ao sistema climático global.

Isso significa que o fenômeno tem potencial para intensificar eventos extremos, provocando secas prolongadas, enchentes severas e incêndios florestais mais destrutivos. Também pode afetar a pesca e causar perdas para a agricultura em diferentes regiões do planeta.

Embora algumas pessoas tenham apelidado o padrão climático deste ano de “Super El Niño”, os meteorologistas da NOAA não utilizam esse termo. Em vez disso, classificam os episódios de El Niño como fracos, moderados, fortes ou muito fortes.

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“Há 63% de chance de estarmos diante de um El Niño muito forte entre novembro e janeiro”, afirmou Ariel Cohen, meteorologista do escritório de Los Angeles do Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos. “Esse evento pode figurar entre os maiores episódios de El Niño do registro histórico, que remonta a 1950”, acrescentou.

O QUE CARACTERIZA UM SUPER EL NIÑO?

O El Niño é um fenômeno climático associado a temperaturas da superfície do mar acima da média. Em condições normais, as águas quentes do Pacífico equatorial são empurradas para o oeste e acompanhadas por áreas de águas mais frias.

Durante um episódio de El Niño os ventos alísios enfraquecem e essa massa de água quente se estende mais para o leste. Isso altera a posição da corrente de jato na atmosfera. Em geral, o resultado é um clima mais chuvoso que o normal da região sul do Brasil e mais seco no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

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A cor alaranjada/ vermelha indica o aquecimento do Oceano Pacífico (Crédito: NOAA)

Mas os especialistas alertam que existe grande variabilidade entre os episódios de El Niño. Mesmo um evento classificado como “muito forte” – ou um chamado Super El Niño – não produz os mesmos impactos em todos os lugares. Na prática, o fenômeno apenas aumenta bastante as probabilidades de determinados eventos meteorológicos.

Para que um El Niño seja oficialmente declarado, as temperaturas da superfície do mar no Pacífico equatorial precisam permanecer pelo menos 0,5°C acima da média por alguns meses consecutivos. Em um episódio considerado muito forte, essa anomalia alcança 2°C acima da média.

“As condições de El Niño já estão presentes e devem se fortalecer em todo o Hemisfério Norte ao longo dos próximos meses”, disse Cohen.

MAIS ENCHENTES, SECAS E INCÊNDIOS

Com um aquecimento tão intenso, “o resultado pode ser impactos mais fortes e persistentes em todo o mundo na forma de secas, enchentes, ciclones, calor extremo e outros eventos”, segundo o Instituto Mundial de Recursos (WRI).

Os oceanos do planeta já registraram temperaturas recordes em 2025. A quantidade de calor armazenada nas águas aumentou em 23 zettajoules, o equivalente energético a mais de 365 milhões de bombas atômicas.

mapa da América do Sul mostra os efeitos do fenômeno climático El Niño
Impactos do El Niño na América do Sul nos períodos de verão e inverno (Fonte: BTR1/CPTEC/INPE)

“As condições de El Niño vão jogar combustível na fogueira de um mundo em aquecimento”, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, em uma mensagem de vídeo divulgada em junho. “Os impactos serão ainda mais severos, alcançarão distâncias maiores e atravessarão fronteiras com velocidade devastadora”, acrescentou.

Os cientistas já observam condições semelhantes às do poderoso El Niño de 1997-98. Segundo estimativas do Banco Mundial, aquele episódio causou US$ 45 bilhões em prejuízos aos governos no mundo todo, devido a tempestades severas, secas e outros impactos.

Além de secas, tempestades e enchentes, o El Niño pode trazer condições mais quentes e secas para áreas já vulneráveis a incêndios florestais. Isso reduz os chamados “limiares de ignição”, facilitando o surgimento e a propagação do fogo.

EFEITOS SOBRE A VIDA MARINHA E A AGRICULTURA

O El Niño também afeta os ecossistemas marinhos por causa do impacto das ondas de calor oceânicas. Durante episódios fortes registrados no passado, a abundância de plâncton diminuiu consideravelmente, explicou Andrew Leising, do Centro de Ciência Pesqueira do Sudoeste da NOAA. A preocupação é grande porque o plâncton é a base da cadeia alimentar marinha.

El Niños intensos anteriores também resultaram em mais casos de baleias presas em equipamentos de pesca, à medida que os animais se aproximam da costa em busca de alimento. Focas, leões-marinhos e aves sofreram mortalidade elevada. Tubarões também passaram a aparecer mais próximos do litoral.

existem muitas incógnitas sobre como esse potencial El Niño muito forte vai se desenvolver.

Outro risco é o aumento da ocorrência de florações de algas nocivas, que prejudicam a vida selvagem e afetam o sistema alimentar. No passado, esses episódios levaram ao fechamento de operações comerciais de pesca de caranguejos e moluscos.

O abastecimento global de alimentos também pode ser afetado pelas secas e pelos eventos climáticos extremos. Segundo o WRI, um possível Super El Niño acrescentaria riscos de seca, calor extremo e enchentes a um sistema alimentar já fragilizado, aumentando a probabilidade de que custos elevados se transformem em escassez real de alimentos.

AINDA HÁ MUITAS INCERTEZAS

Os especialistas ressaltam que ainda existem muitas incógnitas sobre como esse potencial El Niño muito forte vai se desenvolver.

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“As coisas ainda podem evoluir de diversas maneiras”, afirmou Cohen. “Não podemos garantir quais as condições meteorológicas específicas que teremos daqui a vários meses.”

A principal recomendação é que a população acompanhe informações de fontes confiáveis e siga as orientações emitidas pelos órgãos de defesa civil e gestão de emergências.

Com informações da redação da Fast Company Brasil


SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company. saiba mais