Empresas querem combater mudança climática sem pôr a mão no bolso

CEO da marca Patagonia, denunciou a disparidade entre o marketing pró-clima das empresas e a sua oposição à legislação climática

Crédito: rawpixel.com/ Matt Palmer/ Unsplash

Jeff Beer 4 minutos de leitura

O pacote climático, tributário e de saúde que ficou conhecido nos EUA como Lei de Redução da Inflação de 2022 está mais perto da aprovação do que jamais esteve ao longo dos seus 18 meses de existência.

Logo agora, porém, tanto a Câmara de Comércio dos EUA quanto a Mesa Redonda Empresarial (Business Roundtable) – um grupo de quase 200 CEOs de empresas como Apple, Walmart e GM, que em 2019 se comprometeram a abordar as preocupações da sociedade junto com os interesses dos acionistas – manifestaram oposição ao pacote. 

O projeto de lei, embora tenha sido significativamente reduzido em relação às versões anteriores, ainda prevê centenas de bilhões em financiamento para programas climáticos e de energia, tornando-se um investimento histórico no combate às mudanças climáticas.

Em resposta, o CEO da Patagonia, Ryan Gellert, pediu aos membros corporativos desses grupos que se calassem quando se trata de ação climática.

“Muitas empresas que pertencem a essas organizações adoram fazer grandes discursos sobre o clima – basta olhar para os seus sites”, escreveu Gellert em um post no LinkedIn. “Eles não deveriam ficar calados enquanto a Câmara e a Mesa Redonda Empresarial fazem seu trabalho sujo. Se você fala sobre como sua empresa quer proteger o planeta, então precisa pagar uma contribuição justa para ajudar a escalar soluções para áreas como energia limpa, transporte e fabricação.”

Os pontos de discórdia na legislação que criaram essa dissonância são os aumentos de impostos corporativos contidos no projeto de lei, como aqueles que fariam com que as taxas para as empresas com US$ 1 bilhão ou mais em lucros fossem de pelo menos 15%.

Membros da Mesa Redonda, como Google, Pepsi e Chipotle, investiram dezenas de milhões para tornar suas próprias operações mais sustentáveis ​​– e para criar campanhas de marketing para divulgar seus esforços – mas dão para trás na hora de defender publicamente políticas pró-clima ou uma mudança substancial e mais ampla.

A versão atual do pacote – que, depois de ter sofrido cortes, parece ter conseguido o apoio de todos os democratas do Senado – diminui muito a soma de dinheiro que o governo poderia ter em mãos caso a chamada “brecha de juros transportados” tivesse sido fechada.

O fim dessa brecha resultaria em mais recursos para resolver os problemas que os membros desses grupos alegam apoiar. No fim das contas, fica parecendo que eles querem que uma mudança aconteça, mas não acham que a situação está ruim a ponto de pôr a mão no bolso para melhorá-la. 

A Coca-Cola exibe uma biblioteca inteira de conteúdo dedicado aos seus esforços de sustentabilidade, todos girando em torno da missão da empresa de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 25% até 2030. 

Desde 2018, a Levi’s tem uma Estratégia de Ação Climática até 2025 que descreve os planos da empresa para pegada, mas que não inclui fazer lobby junto ao governo federal para iniciar ou financiar programas que reduzam coletivamente as emissões do país. No entanto, a marca de jeans lançou recentemente uma campanha elegante com a ativista climática Xiye Bastida.

O Google tem um site inteiro dedicado a explicar tudo o que está fazendo, incluindo como está descarbonizando seu consumo de energia para operar com energia livre de carbono, e como pretende, até 2030, reabastecer 20% mais água do que consome em média.

Há dois anos, a Apple lançou um vídeo com fotos lindas e o close-up de um bebê dormindo, enquanto uma voz sussurrante fazia promessas sobre a questão do clima.

No ano passado, a Chipotle disse que pretendia reduzir suas emissões de carbono em 50% até 2030 e o marketing da marca se apoiou fortemente em seus princípios de sustentabilidade.

Entrei em contato com Google, Apple, Pepsi, Netflix, Chipotle e Nike para comentar sua posição. Até o momento em que escrevo, não recebi resposta. Não duvido inteiramente da boa intenção desse trabalho, mas, assim como Ryan Gellert, estou frustrado ao ver tanto hype – e dinheiro – gasto, sem ação coletiva real, tangível e suficiente.

Está tudo bem com as mudanças que as empresas estão fazendo “dentro de casa”. Mas qual é o sentido desses esforços isolados se, quando pode fazer algo maior, você impede o avanço de uma legislação impactante? Independentemente da intenção, fica parecendo que essas empresas estão praticando greenwashing.

“As empresas ainda estão quase inteiramente focadas em sua pegada de carbono individual, no nível de empresa isolada. Infelizmente, mesmo que 20% reduzam suas emissões, isso não resolveria as mudanças climáticas”, disse o cientista climático Mark Trexler ao podcast The Realignment.

A luta por trás de legislações mais rígidas nos últimos dois anos mostra como as corporações e suas marcas de consumo precisam direcionar seus poderes de persuasão para pressionar ativamente por uma legislação que corresponda às suas próprias ambições de sustentabilidade, para que todos sigam os mesmos padrões e para que empresas e governo comecem a remar na mesma direção.

Isso sim seria uma publicidade e tanto para essas marcas. 


SOBRE O AUTOR

Jeff Beer cobre publicidade, marketing e criatividade para a Fast Company. saiba mais