Ninguém jamais viu um mamute-lanoso porque eles foram extintos há mais de 10 mil anos. Mas e se fosse possível “des-extinguir” esses gigantes? A startup Colossal, cofundada por George Church, professor de genética da Harvard Medical School, pretende levar uma versão do animal para o Ártico dentro de uma década. 

Church ajudou a lançar a startup com o empresário de tecnologia Ben Lamm. O empreendimento foi inspirado em um projeto de cientistas russos que planejam povoar a Sibéria com bisões, em uma tentativa de desacelerar a mudança climáticaQuando mamutes e outros grandes herbívoros desapareceram do planeta há milhares de anos, o mesmo ocorreu com as pastagens locais. A teoria é que essas pradarias foram substituídas por florestas que aceleraram o derretimento do pergelissolo — tipo de solo encontrado no Ártico constituído por rochas, gelo e terra congelados.  A neve isola o solo no inverno e o mantém mais quente e, em uma pastagem, os animais pisam na neve, o que esfria ainda mais o solo. Em uma floresta, o solo fica mais exposto e a casca escura das árvores também absorve mais o calor. Os bisões, iaques e outros animais que já foram introduzidos em um canto remoto da Sibéria, podem ajudar na restauração de pastagens comendo pequenas árvores, mas não podem desempenhar o papel de um mamute, que — se não estivesse extinto — pisotearia mais neve e derrubaria árvores.

A nova empresa não está tentando ressuscitar totalmente um mamute-lanoso, mas planeja editar dezenas de genes em elefantes, que já compartilham mais de 99% do genoma do mamute, a fim de criar um animal híbrido que possa sobreviver no Ártico. O animal terá uma espessa camada de gordura, uma pelagem lãzuda e orelhas pequenas. Em seu laboratório, Church já testou dois genes-chave, incluindo um gene de hemoglobina que permite ao corpo trocar oxigênio quando a temperatura da pele está perto de congelar. “Esses [genes] são comprovadamente funcionais, e não foram trazidos à toa de volta ao nível do DNA”, ele diz. “Portanto, estamos a caminho. Dois já foram, faltam talvez 40.”

Em trabalho separado com outra startup, Church edita geneticamente órgãos de porcos para transplante em humanos. O processo básico será semelhante, embora em porcos as células editadas sejam transplantadas para uma mãe substituta. Como os elefantes asiáticos estão em risco de extinção, a startup planeja cultivá-los em úteros artificiais. Só há um pequeno obstáculo: úteros artificiais ainda não existem. Mas a empresa está — talvez irrealisticamente — otimista sobre as próximas etapas.

“A maior parte da ciência foi resolvida”, comenta Lamm. “Na verdade, agora estamos apenas trabalhando em alguns aspectos mais desafiadores da engenharia. Portanto, nossa meta é ter nossos primeiros filhotes daqui a quatro ou seis anos. Achamos que é uma meta agressiva, mas acreditamos ser viável considerando onde estamos.”

Se é realmente uma boa ideia, é outra questão. Alguns pesquisadores destacaram os riscos potenciais da reintrodução de espécies extintas em um ecossistema, como os efeitos imprevisíveis de afetar outras espécies. (Também é um tanto questionável como os híbridos de elefante-mamute podem ser influenciados, à medida em que o Ártico esquenta rapidamente e dezenas ou centenas de incêndios florestais queimam a cada ano). Existem também centenas de outras maneiras menos arriscadas de lidar com a mudança climática.

Church argumenta que, se a introdução dos animais não for bem-sucedida, é possível revertê-la. “Não é como introduzir um inseto”, ele destaca. “São espécies relativamente grandes que podemos rastrear. Portanto, é obviamente algo que podemos monitorar e reverter, se necessário. ”

Essa tecnologia também pode ajudar a salvar algumas espécies que agora estão à beira da extinção. Os cientistas podem “copiar geneticamente uma espécie”, diz Lamm, e talvez fazer edições genéticas para que os animais sejam mais capazes de sobreviver a secas, calor ou outros aspectos de um planeta ambientalmente fragilizado.

 

SOBRE A AUTORA

Adele Peters é repórter da Fast Company que cobre soluções para alguns dos maiores problemas do mundo, de mudanças climáticas à falta de moradia. Anteriormente, ela trabalhou com a GOOD, BioLite e o programa de Produtos e Soluções Sustentáveis na UC Berkeley, e contribuiu para a segunda edição do livro best-seller Worldchanging: A User’s Guide for the 21st Century.