POR ADELE PETERS

Nos EUA, as famílias jogam fora cerca de 30 milhões de toneladas de alimentos por ano — quase o dobro da produção do que é desperdiçado em fazendas. Em algumas outras partes do mundo, a situação se inverte: devido à falta de infraestrutura e eletricidade, os alimentos muitas vezes não podem ser refrigerados e apodrecem antes de chegar aos consumidores.

Mas uma nova tecnologia pode ajudar a eliminar a necessidade de armazenamento a frio. A Farther Farms, uma startup com sede no norte de Nova York, desenvolveu um novo tipo de pasteurização que faz com que os alimentos durem mais tempo, para que os perecíveis possam ficar em uma prateleira ao invés de em uma geladeira. Para comprovar, a empresa fez batatas fritas embaladas — alimentos que normalmente seriam vendidos congelados — que podem ficar em temperatura ambiente por 90 dias antes de serem comidas. Melhor ainda: o processo não utiliza conservantes artificiais.

O co-fundador Vipul Saran desenvolveu a tecnologia quando era um estudante de graduação na Universidade Cornell. Ele cresceu em uma família de agricultores na Índia e via como era difícil entregar a produção (no caso, de batatas) à cadeia de abastecimento. A infraestrutura necessária era mínima e cara de usar; contêineres refrigerados às vezes custam mais do que o valor da produção em si. Na Cornell, ele começou a explorar uma alternativa. “O objetivo era, basicamente, poder olhar para novas tecnologias inovadoras de processamento de alimentos que podem nos permitir criar produtos alimentícios de valor agregado a partir de produtos alimentares perecíveis. Isso evita a necessidade e a dependência, o máximo possível, da refrigeração e do congelamento”, diz ele.

Quando um alimento como o leite é pasteurizado, ocorre um rápido aquecimento usando vapor para matar patógenos. O novo processo usa dióxido de carbono em vez disso. O alimento é colocado em embalagens adequadas, depois processados com CO2 de alta pressão (“supercrítico”) a uma temperatura moderadamente alta, que, de acordo com os estudos da empresa, inativam microrganismos e ações enzimáticas. Em escala, o CO2 pode ser usado em um circuito fechado e capturado no final do dia para ser reutilizado no dia seguinte.
“Devido ao nosso uso de dióxido de carbono em vez de vapor ou água, o dano do produto à nutrição é significativamente menor, mas alcançamos a mesma segurança do leite, queijo ou cerveja pasteurizados”, afirma o CEO Mike Annunziata. O processo vai além da pasteurização normal, assemelhando-se ao processamento de temperaturas altíssimas por vezes utilizado para tornar o leite estável nas prateleiras, mas sem afetar o sabor. (Os fundadores também ressaltaram que se você tentasse usar pasteurização típica em uma batata frita, você terminaria com purê de batatas).

Embora as batatas fritas da empresa sejam a primeira oferta, o mesmo processo também pode ser usado em outros tipos de alimentos perecíveis. A startup testou outros vegetais, molho de tomate, laticínios como o queijo paneer, frango cozido, todos os quais podem ter datas de validade semelhantes nas prateleiras. Eles estão focados em alimentos processados — batatas fritas em vez de batatas, ou molho em vez de tomates — para ajudar a gerar mais valor econômico para os agricultores.

Como os produtos podem viajar mais facilmente por longas distâncias, isso também abre novos mercados. “Se você pode começar a produzir internacionalmente e criar mercados para produtos alimentícios de valor agregado que atualmente não existem, você ajudará os agricultores ao máximo”, diz Saran. Na Índia, onde milhões de agricultores vivem na pobreza, e onde US$ 14 bilhões em alimentos são desperdiçados a cada ano, a tecnologia poderia ajudar a criar oportunidades. Também pode ajudar os EUA, já que caminhões refrigerados e armazenamento a frio aumentam tanto o custo quanto a pegada de carbono dos alimentos.

A startup espera trabalhar globalmente. “Imaginamos um mundo onde essa tecnologia esteja em todos os continentes, tendo de fato um impacto sobre os agricultores que querem processar seus alimentos e transformá-los em produtos de valor agregado para obterem um retorno maior”, explica Annunziata.

SOBRE A AUTORA

Adele Peters é repórter da Fast Company que cobre soluções para alguns dos maiores problemas do mundo, de mudanças climáticas à falta de moradia. Anteriormente, ela trabalhou com a GOOD, BioLite e o programa de Produtos e Soluções Sustentáveis na UC Berkeley, e contribuiu para a segunda edição do livro best-seller Worldchanging: A User’s Guide for the 21st Century.