Esta fábrica transforma CO₂ em combustível para aviões
Tecnologia da Twelve usa CO₂ capturado e energia renovável para produzir combustível com até 90% menos emissões

Em uma ampla instalação industrial cercada por campos agrícolas no estado de Washington, nos EUA, o dióxido de carbono está sendo convertido em combustível de aviação. Os primeiros voos comerciais abastecidos com esse combustível poderão decolar ainda este mês.
A unidade, chamada AirPlant One, inaugurada esta semana, pertence à Twelve, startup que passou a última década desenvolvendo uma tecnologia capaz de transformar CO₂ em produtos úteis. Agora, essa proposta começa a ganhar escala comercial.
“Você tem uma molécula de CO₂ entrando de um lado da fábrica e saindo do outro transformada em combustível de aviação dentro das especificações exigidas”, afirma o CEO e cofundador da empresa, Nicolas Flanders.
O processo começa com grandes tanques de CO₂ capturado de uma usina de etanol. O gás é alimentado em um sistema que, utilizando eletricidade renovável, o converte em gás de síntese (syngas).
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Em seguida, esse material é transformado em petróleo sintético e refinado até se tornar o combustível que a empresa batizou de E-Jet, sua versão de combustível sustentável para aviação.
Quimicamente, ele é idêntico ao combustível convencional usado hoje nos aviões. No entanto, as aeronaves atuais ainda precisam operar com uma mistura entre o novo combustível e o querosene tradicional.
A razão está em um detalhe da engenharia aeronáutica. Os combustíveis derivados do petróleo contêm compostos chamados aromáticos, moléculas que influenciaram o projeto das vedações de borracha dos sistemas de combustível das aeronaves.

“Um querosene perfeito, como o que produzimos, não contém algumas dessas impurezas, como os aromáticos”, explica Flanders.
As aeronaves mais recentes já utilizam vedações atualizadas que vão permitir o uso de combustível produzido integralmente a partir de CO₂. Atualmente, a Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) autoriza misturas com até 50% de combustível sintético.
Fora isso, trata-se de um substituto direto: não é preciso modificar motores nem sistemas das aeronaves atuais.
ATÉ 90% MENOS EMISSÕES
Segundo a Twelve, o novo combustível pode reduzir as emissões em até 90% em comparação com o querosene convencional.
Durante a fase inicial de operação da fábrica, as emissões ainda são mais elevadas, já que a empresa continua ajustando alguns processos. Mesmo assim, os primeiros lotes já estão sendo entregues a companhias aéreas para uso comercial.
uma molécula de CO₂ entra de um lado da fábrica e sai do outro transformada em combustível de aviação.
Quando a empresa atingir suas metas de intensidade de carbono, a Alaska Airlines – investidora e parceira estratégica da startup – vai começar a utilizar o combustível em seus próprios voos.
A companhia aérea já compra combustível sustentável produzido a partir de resíduos oleosos, como óleo de cozinha usado e gorduras descartadas. Mas essa matéria-prima tem limitações.
“Em algum momento você fica sem essas gorduras, óleos e graxas”, afirma Ryan Spies, diretor de sustentabilidade da Alaska Airlines. Por isso, a empresa decidiu diversificar suas alternativas.
UMA INDÚSTRIA GIGANTESCA PARA DESCARBONIZAR
A aviação global consome cerca de 378 bilhões de litros de combustível por ano. Atualmente, apenas cerca de 0,3% desse volume corresponde a combustíveis sustentáveis para aviação (SAF, na sigla em inglês).
Para Flanders, porém, a matéria-prima necessária está longe de ser escassa. “Existe muito mais CO₂ sendo emitido todos os anos do que o necessário para produzir todo o combustível de aviação consumido no mundo”, afirma. A AirPlant One foi projetada para produzir inicialmente pouco mais de 200 mil litros de combustível. por ano.
Como seria de esperar, o combustível produzido a partir de CO₂ ainda custa mais do que o querosene tradicional. A Twelve não revelou os valores.

Para ajudar a viabilizar os primeiros projetos, a Alaska Airlines firmou uma parceria com a Microsoft, que está adquirindo créditos de carbono de Escopo 3 gerados pela iniciativa.
No longo prazo, Flanders acredita que os ganhos de escala e eficiência poderão reduzir drasticamente os custos. Segundo ele, o custo marginal de produção poderá se aproximar do custo marginal da geração de energia renovável.
Os volumes produzidos atualmente ainda são pequenos demais para aliviar a volatilidade causada por crises geopolíticas, como o conflito envolvendo o Irã, que elevou os preços do combustível de aviação e levou algumas companhias aéreas a reduzir voos.
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Mas o projeto aponta para um futuro em que os argumentos a favor desse tipo de combustível vão além da sustentabilidade. “Acho que a discussão está começando a ultrapassar os benefícios ambientais”, afirma Spies.
“Vamos falar cada vez mais sobre resiliência, produção local e segurança de abastecimento. Todos esses fatores fortalecem ainda mais um produto que já tinha argumentos muito sólidos a seu favor.”