Estacionamento vira projeto de moradia e reabilitação em Los Angeles
Centro aposta em moradia, saúde e capacitação profissional para apoiar pessoas que deixam a prisão e outras populações vulneráveis

A apenas um quarteirão e meio de uma prisão de concreto com aparência sombria, no centro de Los Angeles, um antigo estacionamento está sendo transformado em uma nova visão do que a reabilitação pode ser.
O projeto, chamado Robert K. Ross Center for Hope and Healing, acaba de iniciar suas obras e terá apartamentos a preços acessíveis para moradores de baixa renda, incluindo pessoas que estão retomando a vida em sociedade após deixar a prisão.
Contará também com um centro de aprendizagem e capacitação profissional, um espaço dedicado à saúde mental e física e outro voltado a encontros comunitários.
Todo o projeto leva em conta os princípios do design informado pelo trauma, isto é, como os espaços podem promover o bem-estar das pessoas, reduzir o estresse e estimular uma sensação de segurança.
“Para as pessoas atendidas e impactadas por essa iniciativa, acreditamos que ela cria um caminho diferente para reduzir a reincidência e oferece a elas uma trajetória muito mais saudável”, afirma Brenda Solorzano, CEO da The California Endowment, fundação que lidera o projeto.
A organização, que trabalha para promover a saúde e a equidade racial na Califórnia, distribui cerca de US$ 250 milhões em doações todos os anos. Mas percebeu que também poderia aproveitar outro ativo: um terreno vazio ao lado de seus próprios escritórios em Los Angeles.
A equipe decidiu usar a propriedade para testar um novo modelo de como a sociedade pode ajudar pessoas afetadas pelo sistema de justiça. O projeto se baseia na abordagem "cuidado em primeiro lugar", segundo a qual investir em iniciativas que mantenham as pessoas em moradias e as ajudem a se recuperar pode evitar que elas acabem envolvidas com a justiça.
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O fato de os escritórios da organização e o terreno vazio ficarem perto da prisão não foi coincidência: a fundação quer trabalhar o mais próximo possível das pessoas que atende.
As moradias não se destinam apenas a quem está deixando a prisão, mas também a pessoas que já viveram em situação de rua e a outros moradores de baixa renda que enfrentam obstáculos para conquistar estabilidade.
UM ESPAÇO DE TRANQUILIDADE
Cada aspecto do projeto arquitetônico considera como o espaço físico pode oferecer acolhimento e apoio.
“Há muitas pesquisas em neurociência mostrando que o ambiente construído influencia consideravelmente indivíduos e comunidades, não apenas do ponto de vista estético, mas também em seu bem-estar físico e mental”, afirma Alan Pullman, sócio do Studio One Eleven, escritório de arquitetura e urbanismo que desenvolveu o projeto em parceria com a Linc Housing, incorporadora especializada em moradias populares.

O antigo estacionamento terá 120 árvores e os moradores poderão usufruir de uma horta comunitária e de outros espaços ao ar livre. Os arquitetos suavizaram as linhas dos prédios e adotaram formas curvas e mais orgânicas em um dos espaços de convivência.
“Nosso cérebro ainda não se adaptou, do ponto de vista evolutivo, à vida em ambientes urbanos. Por isso, qualquer iniciativa que permita trazer um ambiente mais natural será benéfica para a recuperação e a redução do estresse”, diz Pullman.
A equipe trabalhou com um engenheiro acústico para projetar os espaços de modo a minimizar os ruídos. As janelas têm uma classificação aprimorada de isolamento acústico, para bloquear o som tanto quanto possível.

A disposição dos prédios também ajuda a reduzir o barulho das ruas movimentadas do entorno: os apartamentos e seus terraços ficam voltados para um pátio central mais silencioso.Também permite que muitos apartamentos tenham janelas em duas paredes, o que melhora a ventilação e a iluminação e faz com que os espaços se pareçam menos com quartos de hotel.
“Acho que muitas vezes não paramos para pensar em como o design pode afetar a percepção que uma pessoa tem de si mesma – seja por meio das cores, da iluminação ou de outros elementos incorporados ao espaço – e criar um lugar que transmita tranquilidade”, afirma Solorzano.

“Sabíamos que as pessoas que seriam atendidas pelo centro não têm muito acesso a espaços desse tipo. Vimos ali uma oportunidade de criar um ambiente assim e mudar, de certa forma, a percepção que elas têm do que merecem e também a maneira como a sociedade enxerga o que essas pessoas merecem.”
Quando a construção for concluída, em 2028, a equipe pretende realizar um estudo pós-ocupação para avaliar os impactos do design sobre os moradores.
“Há uma quantidade enorme de dados que deveríamos obter com este projeto sobre o que funcionou e o que poderíamos fazer de maneira diferente. Essas informações poderão orientar futuros projetos semelhantes”, afirma Pullman.