Estudar fora não precisa significar romper com o Brasil

Pesquisa e o trabalho de organizações para bolsistas ilustram a nova visão sobre brasileiros no exterior

entidades custeiam bolsas de estudos para jovens brasileiros em escolas no exterior
Crédito: FG Trade/ Getty Images

Sofia Bolina 5 minutos de leitura

Por muito tempo, estudar fora do Brasil era um privilégio para poucos e a imigração de profissionais brasileiros qualificados era frequentemente descrita como uma "fuga de cérebros”.

Porém, um estudo recente da Unicamp, assim como o trabalho de organizações que oferecem bolsas de estudos para brasileiros, questionam e ajudam a mudar essa realidade. O que se vê hoje é a manutenção e o reforço dos vínculos entre o Brasil e o mundo, por meio de quem está no exterior. 

Em vez de fuga há um diálogo, como propõe a pesquisa do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (Nepp) na Unicamp. Em apresentação em junho, a coordenadora do Nepp, Ana Maria Carneiro, destacou a maneira como pesquisadores brasileiros atuam como pontes entre instituições de diferentes países.

Na pandemia da Covid-19, ela aponta, esse tipo de circulação de conhecimento foi imprescindível. Além disso, fora da academia, o aumento da procura por profissionais brasileiros no mercado de trabalho internacional cresceu 53%, segundo a revista "Exame".

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As organizações que apoiam e ajudam estudantes a conseguir oportunidades no exterior também incentivam esse tipo de conexão, especialmente em relação às próximas gerações de pesquisadores e profissionais.

É o caso da Fundação Estudar e da Brasa, que oferecem mentorias e cursos preparatórios para quem ainda está no ensino médio, assim como bolsas de graduação e pós-graduação. 

IR, VOLTAR E REPARTIR

Nos processos seletivos para bolsas de estudo, a relação que os candidatos têm com o Brasil é um quesito importante para essas instituições. Não há obrigação de os escolhidos voltarem assim que terminam sua formação, mas é importante que haja compromisso com nosso país. 

Luiza Vilanova, por exemplo, recebeu auxílio tanto da Brasa quanto da Fundação Estudar. Ela se tornou a primeira brasileira a receber a Bolsa de Estudos Rhodes, na Universidade de Oxford, para seu mestrado.

Luiza se tornou a primeira brasileira a receber a bolsa de estudos Rhodes
Luiza Vilanova

Aos 15 anos, Luiza fundou um projeto para reduzir o bullying em escolas de Goiânia e, enquanto fazia faculdade nos Estados Unidos, fundou a Tocando em Frente, ONG que procura diminuir a evasão escolar de alunos da rede pública.

Lucas Teixeira, diretor executivo da Fundação Estudar, diz que é preciso observar o histórico dos escolhidos. “Vemos como a pessoa se envolveu com as instituições nas quais ela já participou. A liderança que procuramos tem a questão do giveback. Precisa estar preocupada com a comunidade e apoiar os outros também”, afirma.

Os bolsistas são avaliados a partir de diversos parâmetros, como desempenho acadêmico, participações em olimpíadas escolares, trabalho de mobilização em organizações comunitárias (seja em igrejas, no próprio bairro, na escola de futebol), e a necessidade de apoio financeiro. 

Quando os estudantes viajam para o exterior, os vínculos com o Brasil são mantidos por meio dos capítulos locais das organizações e do contato com as comunidades brasileiras presentes nos países onde vão estudar.

O que se vê hoje é a manutenção e o reforço dos vínculos entre o Brasil e o mundo, por meio de quem está no exterior. 

A Brasa organiza conferências anuais na Europa, Brasil e América do Norte, além de reuniões nas casas de alumni da Fundação Estudar ao redor do mundo. Hugo Barra, que foi bolsista da Fundação Estudar e hoje é vice-presidente da empresa de produtos de realidade virtual Oculus, recebe bolsistas em sua casa na Califórnia para conversar.

O conceito de "diáspora” é central para a mudança no discurso sobre a ida de brasileiros para fora, como destaca a pesquisadora Ana Maria Carneiro. A palavra agora engloba, além da dispersão migratória forçada, “a mobilidade internacional de profissionais altamente qualificados”, reporta o artigo da Unicamp sobre seu estudo.

“Há muito valor na experiência de estudar fora e queremos que haja cada vez mais oportunidades para isso", diz Stephanie Passos, CEO da Brasa. "Mas entendemos que esse não deve ser o fim. O motivo da saída do Brasil nunca deve ser por falta de conexão ou de oportunidades no nosso país.” 

FOMENTANDO LIDERANÇAS BRASILEIRAS

Este ano, a Fundação Estudar, criada em 1991, chega à marca de mil bolsistas inseridos em instituições tanto dentro quanto fora do país. A Brasa, fundada em 2014, reúne hoje 15 mil membros que passaram pelos diversos processos da instituição, o que faz dela a maior associação de estudantes brasileiros no exterior. 

Embora a Brasa tenha um conselho sênior, a organização é feita por estudantes e para estudantes, que trabalham como analistas, gerentes, e ocupam os cargos de diretoria. Na Fundação Estudar, os alumni ajudam a decidir a próxima geração de bolsistas, de forma similar ao que ocorre em processos seletivos de universidades norte-americanas.

“Ainda bem que a gente entrou naquela época. Se fôssemos entrar agora ia ficar complicado”, brinca Teixeira, ao comparar o momento em que foi bolsista da Fundação Estudar, há mais de 10 anos, com as gerações atuais.

“O pessoal hoje tem acesso a muito mais oportunidades. A informação se espalhou pelo Brasil; a cada ano que passa, vejo o nível dos candidatos aumentar”, comemora. 

Entre os bolsistas, cresce também a representação da pluralidade do país. Se as primeiras levas de bolsas da Fundação Estudar foram destinadas a cariocas e paulistas, hoje há estudantes de Ilhéus (Bahia), Belém (Pará) e de um quilombo em Goiás.

A Brasa, por sua vez, tem um programa de cotas para estudantes pretos, pardos e indígenas, o Brasa Black. Isso é importante porque é a partir de exemplos que as novas gerações se inspiram e veem o quão longe é possível chegar.

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Mesmo assim, Teixeira diz que ainda há mais a ser feito para encontrar talentos. E a responsabilidade se estende também ao governo, à iniciativa privada, e ao terceiro setor.

É preciso continuar aumentado não só a diversidade de locais de onde os estudantes vêm, como também os países e universidades para onde vão. Passos diz que o desafio está em aumentar o apoio a bolsistas que voltam ao Brasil, depois de formados.

“Para os próximos anos, precisamos entender como podemos criar mais oportunidades para o retorno ao país e comunicar isso a empresas e líderes, para que eles também cumpram essa missão, tanto quanto a gente.”


SOBRE A AUTORA

Sofia Bolina é jornalista, formada em Estudos Culturais pela Universidade Humboldt de Berlim e mestre em escrita de não-ficção pela Un... saiba mais