Chega de closes? Europa muda regras para filmar atletas mulheres

Novas diretrizes orientam emissoras a evitar ângulos e imagens em câmera lenta que sexualizem competidoras durante transmissões esportivas.

Colagem mostra atletas mulheres e exemplos de enquadramentos recomendados e inadequados em transmissões esportivas
Novas diretrizes europeias orientam emissoras a evitar enquadramentos que sexualizem atletas mulheres e a manter o foco no desempenho.

María José Gutierrez Chavez 3 minutos de leitura

De Michael Phelps quebrando recordes na piscina à apresentação de Alysa Liu que lhe rendeu uma medalha de ouro na patinação artística, a televisão ajudou atletas a levar seus talentos a uma audiência global. Para muitas mulheres, porém, as transmissões também se tornaram palco para closes e ângulos de câmera que desviam o foco do desempenho.

Em resposta, a União Europeia de Radiodifusão (EBU, na sigla em inglês) divulgou um novo conjunto de diretrizes com boas práticas para a cobertura de atletas em transmissões esportivas.

Intitulado Raising the Bar: Guidelines for Respectful Media Coverage in Women’s Athletics — “Elevando o padrão: diretrizes para uma cobertura respeitosa do atletismo feminino”, em tradução livre —, o documento de 23 páginas foi desenvolvido em colaboração com as atletas Holly Bradshaw, Ivana Španović e Blanka Vlašić.

O objetivo é combater a sexualização de atletas mulheres provocada pela escolha dos ângulos de câmera, pelo uso de imagens em câmera lenta e pela edição das transmissões.

QUANDO A CÂMERA DESVIA O FOCO DO ESPORTE

Ilustrações comparam enquadramentos respeitosos e sexualizados de uma atleta após a competição
As orientações recomendam mostrar a atleta em contexto e evitar closes que direcionem a atenção para partes do corpo.

“A forma como nosso esporte é mostrado durante transmissões ao vivo pode ser incrivelmente poderosa, mas também prejudicial para as mulheres que competem e para as mulheres e meninas que assistem”, afirmou Bradshaw no documento.

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A atleta contou que já sofreu ataques nas redes sociais e viu vídeos inadequados seus e de colegas circularem online a partir de imagens em câmera lenta captadas durante as competições.

As diretrizes apresentam exemplos animados de diferentes enquadramentos, indicando quais são recomendados e quais devem ser evitados.

Ilustrações comparam planos abertos do salto em altura com ângulos baixos que sexualizam a atleta
No salto em altura, o documento recomenda planos que mostrem a execução técnica e desaconselha câmeras posicionadas abaixo da atleta.

Na seção sobre salto em altura, por exemplo, o documento incentiva o uso de planos abertos que mostrem todo o movimento das atletas, da corrida ao salto. Em contrapartida, desaconselha ângulos baixos, feitos de baixo para cima, que direcionam a atenção para o corpo das competidoras.

O DESEMPENHO DEVE SER O PROTAGONISTA

Ilustrações comparam enquadramentos adequados e inadequados de uma atleta no salto em distância
A EBU defende enquadramentos que acompanhem o movimento completo da atleta, da preparação ao resultado da prova.

“Essas escolhas têm implicações profundas. Elas moldam a percepção do público ao desviar a atenção das conquistas e das habilidades técnicas das atletas, além de poderem perpetuar estereótipos prejudiciais”, afirmou Glen Killane, diretor executivo da EBU Sports.

As orientações surgem após anos de críticas à sexualização de mulheres em diferentes modalidades esportivas. Além dos enquadramentos usados pelas emissoras, atletas também vêm questionando uniformes excessivamente reveladores e regras que estabelecem padrões diferentes para homens e mulheres.

Ao orientar operadores de câmera, diretores e equipes de edição, a EBU tenta fazer com que a narrativa visual das competições valorize força, técnica, estratégia e desempenho, em vez de transformar o corpo das atletas no principal elemento da transmissão.

POR QUE AS NOVAS REGRAS AINDA SÃO NECESSÁRIAS

Embora tenham sido publicadas em 8 de junho, as diretrizes ganharam repercussão posteriormente nas redes sociais. Parte dos usuários afirmou que a audiência das competições poderia cair com as novas orientações. Outros atribuíram o problema aos uniformes usados pelas próprias atletas.

Para muitas pessoas, porém, essas reações demonstram justamente por que as diretrizes continuam necessárias, mesmo depois de décadas de ativismo no esporte feminino.

“As respostas são apenas um bando de homens admitindo que só assistem ao esporte feminino para ficar olhando para as mulheres. Lamentável”, escreveu um usuário no X.


SOBRE A AUTORA

María José Gutierrez Chavez é editora associada da Inc. e da Fast Company. Antes de ingressar na Mansueto Ventures, estagiou no The Bo... saiba mais