Festival Akilomba discute quem terá espaço no futuro do trabalho com IA
Evento em São Paulo reuniu profissionais para discutir inteligência artificial, criatividade e os desafios de acesso e permanência de pessoas negras no mercado de trabalho

Antes mesmo de as palestras começarem, o Festival Akilomba já colocava em prática uma de suas propostas: criar conexões. No palco principal, chamado de Quintal Akilomba, os participantes foram convidados a conversar com quem estava ao redor, perguntar nomes e profissões e abrir espaço para trocas que poderiam se transformar em oportunidades.
Realizado em 17 de outubro, na ESPM, em São Paulo, o festival reuniu profissionais de design, pessoas em transição de carreira e participantes de outras áreas para discutir o futuro do trabalho na era da inteligência artificial. A programação também buscou impulsionar carreiras negras nas áreas de design, criação e comunicação, aproximando pessoas com diferentes experiências.
A dinâmica de abertura foi conduzida por Nathalia Henrique, profissional de comunicação estratégica. Em seguida, Dora Ribeiro, fundadora do Akilomba, convidou o público a reconhecer as próprias conquistas e compartilhar suas trajetórias.
“Olhem para a pessoa do lado, olhem para quem vocês conversam e falem daquilo que vocês construíram. Quem vocês são, o que vocês construíram, seus objetivos.”
As trocas continuaram ao longo do evento. Foi durante uma dessas conversas que a reportagem conheceu Evelyn Ruggiero, empreendedora e cofundadora da Passe na Frente, um clube de bem-estar urbano. Ela destacou os aprendizados proporcionados pelo encontro e as possibilidades profissionais que surgiram a partir das conversas com outros participantes.
“Saio desse dia nutrida de tantos encontros potentes”, escreveu posteriormente em seu LinkedIn.
DESIGN, REPERTÓRIO E CRIATIVIDADE NA ERA DA IA
A palestra de abertura, “Design sem Ponto Final: Moda, Circularidade e Futuros Possíveis”, foi conduzida por Ariane Santos, fundadora e CEO da Badu Design.
A empresária apresentou iniciativas voltadas à circularidade na moda, incluindo a criação de peças de alta-costura a partir de cintos de segurança que seriam descartados. O exemplo mostrou como a criação também pode partir de novos olhares sobre materiais que já existem.

A inteligência artificial esteve presente em diferentes painéis e oficinas do evento, levantando uma questão para profissionais de áreas criativas: se a tecnologia consegue gerar conteúdos, qual é o papel do repertório e da experiência de quem a utiliza?
“Se eu desistir, eles ganham.”
Sol Lima, coordenadora de design no Itaú, destacou a bagagem cultural e as referências pessoais como diferenciais no processo criativo.
“A IA nunca vai ter nosso molho, o tempero”, comentou.
A criatividade e a experiência de vida de cada profissional contribuem para orientar o uso das ferramentas e avaliar criticamente o que elas produzem. A tecnologia pode gerar respostas, mas cabe a quem a utiliza definir a intenção, analisar os resultados e decidir o que faz sentido para o trabalho.
IA COMO FERRAMENTA, NÃO COMO PROTAGONISTA
No painel “Do prompt ao protagonismo: a IA como Copiloto”, Débora Garcia Colonna, gestora de cibersegurança no Santander, e Andressa Tavares, especialista em desenvolvimento de produtos e cofundadora da Naya Hub, apresentaram o C.O.P.I.L.O.T.O., um método para orientar o uso da inteligência artificial no planejamento de carreira.
“A IA nunca vai ter nosso molho, o tempero.”
A proposta é fornecer contexto e informações sobre a própria trajetória, definir o que se pretende alcançar e orientar o formato da resposta. Depois, é necessário avaliar o resultado e aprimorá-lo, em vez de aceitar automaticamente o que a ferramenta sugere.
Entre as aplicações apresentadas estava o planejamento de carreira, com a possibilidade de usar a IA para refletir sobre objetivos e próximos passos profissionais.
QUEM CONSTRÓI O FUTURO DA TECNOLOGIA?
A questão de quem tem espaço para construir o futuro da tecnologia também esteve presente na palestra de encerramento do Festival Akilomba, conduzida pela física Sônia Guimarães.
Primeira mulher negra brasileira a obter doutorado em Física e a integrar o corpo docente do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), ela compartilhou reflexões sobre os desafios de permanecer em espaços que nem sempre acolhem mulheres negras, principalmente nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM).
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Ao falar sobre sua trajetória, a física também destacou outras mulheres negras na ciência, como a biomédica e pesquisadora Jaqueline Goes de Jesus e a cientista Joana D’Arc Félix de Sousa.
Sônia relembrou suas vivências no ITA e relatou a experiência de entrar em salas onde nenhuma mulher negra havia pisado antes.
Quando questionada sobre como cuida da saúde mental em ambientes que deixam claro que não querem sua presença, respondeu:
“Se eu desistir, eles ganham.”
A frase trouxe outra dimensão à discussão sobre representatividade: conquistar um espaço é apenas parte do desafio. Permanecer nele também exige enfrentar barreiras que nem sempre desaparecem com o reconhecimento profissional.
A participação de pessoas negras no desenvolvimento de tecnologias e os riscos de sistemas que podem reproduzir desigualdades também foram discutidos durante o festival. Um dos exemplos foi o reconhecimento facial, tecnologia que pode apresentar diferenças de precisão na identificação de pessoas negras.
Quando não há diversidade nas equipes que desenvolvem essas ferramentas, necessidades e características de parte da população correm o risco de não ser consideradas.
A trajetória de Sônia e as discussões do Akilomba aproximam duas questões que atravessam o futuro do trabalho: as oportunidades de acesso e as condições de permanência.
Para que mais pessoas participem da construção das tecnologias que vão transformar o mercado, é preciso que também tenham espaço para desenvolver suas carreiras e permanecer nos lugares onde essas decisões são tomadas.