Akilomba: de encontros entre profissionais negros a um negócio de empregabilidade
Criado por Dora Ribeiro, projeto combina festival, aceleração de carreira e conexões com empresas para ampliar oportunidades nos mercados criativo e de tecnologia.

Em sua terceira edição, o Festival Akilomba reúne profissionais e empresas dos setores de design, marketing, tecnologia e negócios para ampliar redes de contatos, aproximar talentos do mercado corporativo e criar oportunidades de desenvolvimento profissional e contratação.
Fundado pela designer e administradora Dora Ribeiro, o projeto realiza sua edição de 2026 neste sábado (17 de outubro), no campus Álvaro Alvim da ESPM, em São Paulo. Com protagonismo negro, mas aberto a pessoas de todas as raças e em diferentes momentos da carreira, o evento busca conectar talentos a empresas e ampliar as oportunidades de contratação.
A proposta vai além de uma programação de palestras e encontros pontuais, O Akilomba funciona como um ecossistema de desenvolvimento profissional, com atividades de formação, uma comunidade ativa e iniciativas de aproximação com o mercado corporativo ao longo do ano.
“As pessoas se ajudam ali ao longo do ano”, afirma Dora, ao descrever a dinâmica da comunidade. A ideia é que as conexões construídas no festival continuem gerando trocas e oportunidades mesmo depois do evento.
Nesta edição, o encontro traz como tema central “Conexões humanas e o futuro do trabalho na era da IA”. Em meio às transformações provocadas pela inteligência artificial nos setores de tecnologia, design e comunicação, o festival coloca em pauta o papel das relações humanas e das redes de apoio no desenvolvimento profissional.
DA FALTA DE REFERÊNCIA À CRIAÇÃO DE UMA REDE
A trajetória de Dora Ribeiro sempre esteve ligada ao design e à estratégia de negócios, com passagens pelo desenvolvimento de produtos digitais em grandes empresas como iFood, Grupo Boticário e Localiza.
Ao longo desse percurso, a falta de representatividade e de referências negras marcou tanto sua formação acadêmica quanto sua experiência profissional.
Ainda durante o curso de design gráfico na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), Dora percebeu a escassez de referências de mulheres negras nas bibliografias que consultava para desenvolver um projeto de livro.
A inquietação diante desse apagamento a levou a criar o Narrativas Negras, uma publicação autoral que mapeou e reuniu 42 histórias de protagonismo feminino negro.
Anos mais tarde, a busca por referências e espaços de troca voltou a aparecer em sua trajetória, dessa vez no ambiente corporativo. Ao alcançar a posição de analista sênior no iFood aos 22 anos, a designer sentia falta de outros profissionais negros com quem pudesse compartilhar experiências.
O Akilomba funciona como um ecossistema de desenvolvimento profissional.
"Era muito nova, então aquilo me rodeava muito: ser uma mulher negra muito nova em uma carga de senioridade dentro de uma grande corporação. Eu me perguntava: 'cadê os outros designers negros? Cadê essas pessoas para eu conversar, para celebrar da mesma forma que a gente gosta de celebrar?'", relata Dora.
Foi dessa necessidade de encontrar outros profissionais e construir uma rede de apoio que surgiu a iniciativa de reunir designers negros. Dora publicou um convite no LinkedIn e o primeiro encontro reuniu um grupo pequeno. Com o tempo, a adesão cresceu e a iniciativa começou a ganhar outra dimensão.
O Akilomba nasceu não de um plano de negócio definido desde o início, mas da necessidade de criar conexões e combater o isolamento profissional. O crescimento da comunidade levou Dora a perceber que a rede de trocas profissionais poderia se transformar em uma estrutura mais ampla, capaz de conectar pessoas e criar oportunidades de carreira.
DO ENCONTRO À EXPANSÃO
O salto de um pequeno encontro informal para um festival voltado aos mercados criativo e de tecnologia aconteceu em pouco tempo. Para a edição de 2026, a expectativa é receber cerca de 700 participantes.
Segundo Dora, o público deve chegar a quase nove vezes o registrado na primeira edição, quando o encontro reuniu cerca de 80 pessoas, e a quase três vezes o de 2025, que recebeu 240 participantes. De acordo com a fundadora, desde a criação do festival, mais de 1,5 mil pessoas já foram impactadas pela iniciativa, entre participantes e fornecedores.

Além do festival, a programação deste ano inclui o Akilomba Coworking Day, uma iniciativa que leva profissionais para dentro dos escritórios de grandes empresas na véspera do evento. Entre as empresas parceiras estão FutureBrand, OLX, Alice Saúde e WTFilm.
A expansão também veio acompanhada da aproximação com empresas patrocinadoras. Depois de contar com o apoio do Itaú em 2025, o festival tem, em 2026, ESPM, Cielo e Analysa Inteligência em Negócios entre seus patrocinadores oficiais.
No caso da Cielo, a parceria envolve tanto a aproximação com talentos e o recrutamento durante o evento quanto o fornecimento das soluções de pagamento utilizadas no festival.
UM NEGÓCIO QUE VAI ALÉM DO FESTIVAL
Embora o evento anual seja o momento de maior visibilidade do projeto, o Akilomba atua durante todo o ano com iniciativas de aceleração de carreira e empregabilidade nos setores criativo e de tecnologia.
Essa estrutura de negócios foi pensada para reduzir a dependência de patrocínios corporativos ou editais sazonais, um desafio para iniciativas de diversidade que podem ter dificuldade para manter suas atividades por falta de recursos.
Ao oferecer produtos e jornadas de desenvolvimento profissional ao longo do ano, o negócio gera receita para financiar suas atividades e a produção do festival.
Entre as iniciativas está uma jornada de aceleração de carreira, direcionada tanto a quem busca a primeira oportunidade ou deseja migrar de área quanto a profissionais que querem avançar na carreira.
O programa conta com acompanhamento individualizado de especialistas para ajudar os participantes a identificar lacunas profissionais, aprimorar o portfólio e se preparar para novas oportunidades. Em paralelo, a comunidade mantém um grupo ativo no WhatsApp, onde os participantes trocam contatos, indicações e informações sobre vagas.
As conexões também podem abrir caminhos para novas oportunidades profissionais e de negócios. Em uma das edições anteriores, por exemplo, uma participante que estava em transição de carreira conheceu uma gestora do Itaú Unibanco durante o almoço do evento e, segundo Dora, foi indicada no dia seguinte para uma vaga de cientista de dados no banco.
Embora não tenha um levantamento completo das contratações resultantes dessas conexões. Dora cita profissionais que conseguiram oportunidades em empresas como Itaú, PagBank, Leap e iFood
Para os próximos anos, o Akilomba planeja avançar na internacionalização. Dora afirma que quer ampliar as conexões entre talentos brasileiros e empresas multinacionais no exterior. A ambição é consolidar a marca como referência em empregabilidade nos setores criativo e tecnológico da América Latina.