Festival MARTE 2026 recusa simplificações sobre arte e tecnologia
Em Ouro Preto, música indígena contemporânea, congado e debates sobre inteligência artificial coexistiram em pé de igualdade

Fazia frio na noite de Ouro Preto, enquanto passava o cortejo da Guarda do Congo de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia do Alto da Cruz. As camisetas cor-de-rosa que seus integrantes vestiam traziam a imagem da Igreja Matriz de Santa Efigênia. De calças e saias brancas, e coroas e chapéus com longas fitas coloridas - elementos do traje tradicional do congado - o grupo ia em direção à Praça Tiradentes, palco da programação de shows do Festival MARTE, e, muito antes disso, do fim da Inconfidência Mineira. Foi ali, onde hoje existe uma estátua de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que sua cabeça ficou exposta depois de sua execução em 1792.
Naquela sexta-feira (24), a percussão era marcada pelos pandeiros, gungas e caixas, e ditava o ritmo da coreografia e da caminhada da Guarda pelas ruas de paralelepípedos. Era o anúncio do início oficial do MARTE deste ano, depois de um dia repleto de palestras do MARTE Lab na Casa Câmara.
Aconteciam ali as justaposições que representam o evento: passado, presente e futuro coexistiam, numa concepção de tempo circular ao invés de linear. Quem participou do primeiro dia do festival, já na sua sexta edição, foi dos debates sobre racismo e inteligência artificial (IA) diretamente para o congado, manifestação cultural brasileira que traz elementos católicos e afrodescendentes.
O Festival MARTE nasceu em 2017 com uma pergunta: o que a tecnologia poderia fazer com as artes? De lá pra cá, Carolina Daves, uma das criadoras e curadoras do evento, diz que o questionamento se inverteu para considerar o impacto e a relação da arte na tecnologia.
“Ao longo das edições, percebemos que a tecnologia não é neutra. Ela carrega valores, escolhas políticas, modelos econômicos e formas específicas de imaginar o mundo. A arte tem a capacidade de revelar essas estruturas, questioná-las e propor outras possibilidades. Mais do que acompanhar a inovação, queremos participar da discussão sobre que tipo de inovação faz sentido para a sociedade", disse ela.

Para a curadora, o ponto é resistir a simplificações binárias, oposições como o futuro versus o passado, ou o antigo versus o novo. Isso fica claro com o tema da edição deste ano, “O Futuro é Ancestral": “O futuro também é feito de memória; a inovação também nasce da tradição; a tecnologia também é cultura", aponta a idealizadora.
COMO PODE O FUTURO SER ANCESTRAL?
Existe, por trás do mote de 2026, um questionamento da inovação ligada a uma ideia de progresso, de uma trajetória linear e cartesiana do avanço tecnológico. No MARTE, aponta Daves, a concepção de tecnologia se relaciona diretamente ao termo grego tékhne, que remete à feitura e à criação.
Nesse sentido, a tecnologia existe tanto na IA quanto nos muitos tipos de tranças feitas há séculos em cabelos afros - ideia defendida por Zaika dos Santos, afrofuturista que mediou o debate "Hackear o futuro: tecnologia, ancestralidade e poder no Sul Global". A discussão aconteceu no primeiro dia do evento, e contou com a participação de Sérgio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC , Tarcízio Silva, pesquisador em tecnologia e IA e Tatiana Nascimento (fundadora da produtora de som Janga).
A arte tem a capacidade de revelar essas estruturas, questioná-las e propor outras possibilidades
O painel realizado logo em seguida também exemplifica a recusa em simplificar oposições. Com mediação do diretor do Museu da Inconfidência, Alex Calheiros, as artistas Uýra Sodoma, Aline Motta e Giselle Beiguelman discutiram sobre "Arte, tecnologia e espiritualidade no século 21.”
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Toda a curadoria do festival deste ano se baseou nisso. “Não se trata de olhar para o passado com nostalgia, mas de reconhecer que existem conhecimentos, cosmologias e formas de organização social que nunca deixaram de produzir futuro. Povos indígenas, comunidades negras, culturas populares e territórios historicamente marginalizados sempre desenvolveram tecnologias — tecnologias sociais, ambientais, artísticas e políticas — que permanecem extremamente atuais", diz Carolina Daves.

A perspectiva do Sul Global é essencial para esse olhar, o que justifica não só a presença de artistas e pensadores brasileiros no line-up, como também da cantora argentina Catalina Telerman, do duo paraguaio Purahéi Soul, e do DJ, produtor e performer ugandense Faizal Mostrixx, que subiram ao palco na noite de sábado, 25 de julho.
Daves destaca que o Sul Global “é um lugar onde surgem respostas extremamente sofisticadas para desafios contemporâneos.” Segundo ela, a arte e o pensamento que vêm do Sul Global nascem e se desenvolvem de contextos de escassez, mas também de muita criatividade justamente porque os poucos recursos pedem mais imaginação, fora de visões "tradicionais” na perspectiva do Norte Global.
Além disso, o foco na ancestralidade procura ressaltar aquilo que permaneceu ao longo do tempo, o tékhne que perdurou até o Brasil do século XXI. Num país com legado de apagamento estrutural de histórias negras e indígenas, isso é essencial.
Na abertura da parte musical do evento, que contou com a artista de música indígena contemporânea Djuena Tikuna, um dos integrantes da Guarda do Congo de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia do Alto da Cruz tomou o microfone para compartilhar algumas palavras sobre o tema do festival.
“Quando falamos de ancestralidade, pensamos naqueles que vieram antes. E quando a gente pensa no congado, a gente pensa na população negra. O congado é uma manifestação que mostra que esse povo conseguiu guardar sua cultura apesar dos pesares”, disse ele, rodeado das construções de paredes brancas características da cidade colonial. Ali na praça, ainda frisou outro ponto importante: tudo o que se via tinha sido erguido por pessoas pretas, com o recurso e conhecimento de pessoas pretas.
OURO PRETO: CENÁRIO E PARTICIPANTE
Fora do eixo São Paulo - Rio de Janeiro, onde muitas das discussões sobre inovação acontecem e onde um grande polo cultural e artístico se encontra, Ouro Preto parece, à primeira vista, uma escolha paradoxal para um festival que pretende trazer debates sobre tecnologia e arte.
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Existe, porém, um motivo para a escolha da cidade conhecida não só por seu legado escravocrata, como também pela obra do mestre barroco Aleijadinho, filho de uma mulher negra escravizada e de um arquiteto português. “Ouro Preto é um dos lugares mais potentes para discutir o futuro. A cidade nos lembra que o tempo não é linear: todo futuro é construído sobre memória, conhecimento e escolhas feitas ao longo da história", diz Daves, que frisa a importância das técnicas de mineração, engenharia e construção do século XVII, visíveis na antiga Vila Rica até hoje.

Ao mesmo tempo, a curadora reconhece a tensão que existe na relação com a cidade e a escravidão, ainda mais palpável quando se considera que o segundo dia da edição de 2026 ocorreu em 25 de julho, quando é comemorado o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. A presença de pensadoras e artistas que devem ser celebradas nessa data, para Daves, vai além de uma questão de representatividade.
“É uma escolha curatorial que desloca o centro da narrativa, reconhecendo como protagonistas aquelas que historicamente foram mantidas à margem da construção dos imaginários sobre o futuro; aqui elas aparecem para produzir presente e formular futuros”. Num único dia, Ouro Preto abriga a devoção a Santa Efigênia, uma das primeiras santas negras do catolicismo, o trabalho antirracista de Tatiana Nascimento, e o afrofuturismo de Zaika dos Santos: Passado, presente e futuro, todas juntas num mesmo tempo.