Japão cria “geladeira humana” para proteger trabalhadores do calor extremo

Com temperaturas cada vez mais elevadas durante o verão, o Japão investe em soluções criativas para proteger trabalhadores e reduzir os impactos do calor.

créditos: Do Hiemon Box (divulgação), Kuchofuku (divulgação)

Isabella Lura 5 minutos de leitura
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Com verões cada vez mais quentes e ondas de calor mais frequentes, o Japão vem investindo em soluções para proteger trabalhadores e reduzir os impactos das altas temperaturas. Entre elas está a chamada “geladeira humana”, uma cabine individual criada para resfriar rapidamente pessoas expostas ao calor extremo.

O equipamento faz parte de um conjunto de iniciativas que inclui roupas com ventiladores, colares refrigerantes e tecidos inteligentes desenvolvidos para tornar o trabalho ao ar livre mais seguro.

A principal novidade é a Do Hiemon Box, cabine comercializada pela japonesa Trusco Nakayama. Inspirado nas tradicionais máquinas de venda automática de bebidas, o equipamento acomoda uma pessoa sentada enquanto direciona jatos de ar gelado para regiões como cabeça, pescoço, ombros e costas.

A cabine mantém a temperatura interna em cerca de 15°C, enquanto o sistema libera ar a aproximadamente 5°C. A proposta é oferecer aos trabalhadores um espaço para se recuperar rapidamente durante intervalos em ambientes de calor intenso.

Voltada principalmente para profissionais da construção civil, da indústria, de centros logísticos e de eventos ao ar livre, a Do Hiemon Box também foi projetada para reduzir o consumo de energia.

Segundo a Trusco, o custo de operação é aproximadamente 48% menor que o de um aparelho de ar-condicionado portátil de 100 volts. O equipamento oferece três níveis de ventilação, desligamento automático após 20 minutos, rodas para transporte e proteção contra a água para uso ao ar livre.

Lançada em abril de 2026, a cabine superou a marca de 300 unidades vendidas em agosto. Além de fábricas e canteiros de obras, o produto passou a ser usado em campos de golfe, universidades, eventos e prédios públicos.

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Equipamentos de resfriamento deixam de ser apenas soluções curiosas e passam a fazer parte da adaptação ao calor extremo.

A preocupação não é exclusiva do Japão. À medida que as temperaturas sobem e as ondas de calor se tornam mais frequentes e intensas, proteger o corpo deixa de ser apenas uma questão de conforto e passa a fazer parte da adaptação às novas condições climáticas.

O cenário ganha importância com o fortalecimento do El Niño. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o fenômeno continua se intensificando e deve influenciar os padrões globais de temperatura e precipitação nos próximos meses.

A projeção mais recente da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos indica 81% de probabilidade de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro de 2026. A chance de o fenômeno persistir até o início de 2027 é de 97%.

A previsão também acende um alerta para o Brasil. O Instituto Nacional de Meteorologia explica que o El Niño pode alterar os padrões de chuva e temperatura, com efeitos diferentes entre as regiões. O Sul tende a registrar mais chuva, enquanto Norte e Nordeste podem enfrentar períodos mais secos.

Isso não significa que toda onda de calor será causada pelo El Niño. O fenômeno, porém, pode aumentar a probabilidade de extremos climáticos em um planeta que já está mais quente.

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ROUPAS FUNCIONAM COMO AR-CONDICIONADO PORTÁTIL

A cabine não é a única aposta japonesa contra o calor extremo. Há anos, trabalhadores utilizam as chamadas kuchofuku, roupas equipadas com pequenos ventiladores movidos a bateria e instalados na região das costas.

Os ventiladores fazem o ar circular por dentro da roupa, acelerando a evaporação do suor e reduzindo a sensação térmica sem comprometer a mobilidade.

A tecnologia é usada por profissionais da construção civil, agricultura, logística, entregas e manutenção urbana, setores nos quais a exposição prolongada ao sol faz parte da rotina.

Além de proporcionar conforto durante a jornada, essas roupas podem ajudar a reduzir o risco de fadiga, exaustão térmica e insolação.

O avanço das soluções acompanha mudanças na legislação trabalhista japonesa. Segundo a Reuters, desde junho de 2025, empresas que mantêm funcionários expostos ao calor intenso são obrigadas a adotar medidas para prevenir casos de insolação.

As exigências incluem monitoramento dos trabalhadores, áreas de descanso, acesso à hidratação e protocolos de atendimento para emergências relacionadas às altas temperaturas.

COLARES E PLACAS REFRIGERANTES RESFRIAM O CORPO

Outra solução que ganhou espaço no Japão são os colares e as placas refrigerantes usados na região do pescoço. Os dispositivos empregam materiais de mudança de fase ou sistemas baseados no efeito Peltier para manter temperaturas baixas por períodos prolongados.

Posicionados perto das artérias carótidas, esses acessórios ajudam a dissipar o calor e proporcionam alívio durante os dias mais quentes. Compactos e leves, são utilizados tanto por trabalhadores quanto pela população em geral.

O Japão também investe em tecidos capazes de refletir parte da radiação solar, guarda-sóis com proteção contra raios ultravioleta e coletes refrigerados destinados a atividades que exigem esforço físico intenso.

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INOVAÇÃO COMO RESPOSTA ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

O avanço dessas tecnologias acompanha uma realidade cada vez mais presente no Japão. Nos últimos anos, o país registrou verões mais longos, temperaturas recordes e ondas de calor sucessivas, elevando os casos de insolação e exaustão térmica, especialmente entre pessoas que trabalham ao ar livre.

Em abril de 2026, a Agência Meteorológica do Japão criou a categoria kokushobi, ou “dia de calor brutal”, para identificar dias em que a temperatura máxima chega a 40°C ou ultrapassa essa marca.

A decisão reflete a frequência crescente dos eventos extremos. Segundo a Reuters, o Japão registrou em 2025 a maior temperatura de sua história, de 41,8°C. Mais de 100 mil pessoas foram hospitalizadas por insolação durante o verão.

Como continuar trabalhando e vivendo quando o calor extremo deixa de ser exceção e passa a fazer parte da rotina?

Nesse cenário, a “geladeira humana”, as roupas com ventiladores e os colares refrigerantes deixam de ser apenas invenções curiosas. Elas passam a integrar uma adaptação mais ampla ao calor.

No Japão, onde o verão já impõe desafios à saúde e à produtividade, a tecnologia tenta responder a uma questão que tende a se tornar cada vez mais urgente: como continuar trabalhando e vivendo quando o calor extremo deixa de ser exceção e passa a fazer parte da rotina?


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar... saiba mais