Ghosting, ou a morte sem corpo

Pesquisa do site Plenty of Fish, divulgada pela revista Fortune, revela que 78% dos millenials já sofreram ghosting

Crédito: Good Ware/ Flaticon/ Justin Shen/ Unsplash

Marcelo Conde 4 minutos de leitura

Os tímidos são, em sua maioria, seres com baixa autoestima. Especialmente durante minha adolescência, fui muito tímido. As espinhas e as partes do corpo que cresciam cada uma a sua hora, unidas à total falta de traquejo social, só me deixavam à vontade quando estava em grupo e ao lado de pessoas muito conhecidas. O que tornava minha vida amorosa um inferno.

Como puxar conversa se eu nunca falava? E se o assunto morresse? E se a menina ficasse entediada? A culpa, na visão do tímido, é sempre dele. Nas festas ou mesmo nas boates, eu ficava de longe, olhando. E torcendo para que nunca me olhassem de volta, porque eu não saberia o que fazer.

Já um pouco mais velho, me escondia atrás de uma long neck de cerveja ou de um copo de drink qualquer. O tímido nunca pode ficar de mãos vazias porque, se há algum silêncio na conversa e nenhuma ideia de como puxar outro assunto, é preciso colocar o copo na boca. Nem precisa beber. Basta que esteja caracterizada a impossibilidade de dizer alguma palavra.

Na minha época de adolescente não existia Tinder, Happn, Bumble, ou qualquer outro desses aplicativos de relacionamento. Não havia nem mesmo WhatsApp, ICQ, Facebook. E-mail ainda engatinhava e era demorado demais para que se pudesse estabelecer uma conversa.

Me pergunto se, disfarçados de salvação, esses aplicativos são o golpe final na autoestima de quem usa seus serviços.

Desde que os aplicativos surgiram, tive a certeza de que minha adolescência haveria sido muito mais fácil e menos solitária se contasse com eles. Eu não tinha problemas em me comunicar, nem mesmo com pessoas de outro sexo, se fosse por escrito, escondido atrás de um computador, de um celular, e a alguns quilômetros de distância.

No entanto, hoje me pergunto se isso seria mesmo verdade. Ou se, disfarçados de salvação, esses aplicativos são o golpe final na autoestima da maioria das pessoas que usam os seus serviços.

A mesma falta de contato físico e visual, a mesma distância que parecia me trazer segurança, serviria também para que fosse mais fácil simplesmente sumir de um relacionamento. Nem que esse relacionamento fosse composto apenas de algumas conversas online.         

Por mais humilhante ou triste que o término de uma relação (ou a negação ao início de um envolvimento) fosse, sempre houve uma espécie de regra não escrita: tudo deveria ser dito cara a cara, em pessoa. Um costume social, como são as filas: não há uma lei, mas as pessoas sabem que não se pode furá-las.

A partir dos aplicativos, esse costume foi quebrado. Instituiu-se, quase como regra, o ghosting. Nele, uma das duas partes simplesmente desaparece. Não responde mais mensagens, não atende ligação. Some. Até que a outra pessoa se dê conta de que o relacionamento acabou.

SOLIDÃO, DESAMPARO E TYLENOL

De acordo com uma pesquisa do site Plenty of Fish, divulgada pela revista Fortune, 78% dos millenials já sofreram ghosting. Anita Dhanorkar, em artigo para o site MedicineNet, conta que “as vítimas de ghosting sentem um aumento da sensação de solidão, de desamparo, e uma piora na satisfação com a própria vida”.

Ela vai além quando explica que a dor da rejeição é tamanha que se iguala à dor física. E que estudos comprovam que tomar remédios como Tylenol podem aliviar também essa dor sentimental.

As vítimas de ghosting  sentem um aumento da sensação de solidão, de desamparo, e uma piora na satisfação com a própria vida.

ghosting já é tema de livros importantes da literatura brasileira, como “Copo Vazio”, de Natália Timerman. É um dos assuntos abordados em “Depois de Tudo, Queime”, da escritora e jornalista Luciana Borges. O livro traz relatos reais vividos pela autora em apps de relacionamento.

Luciana conta que já sofreu ghosting: “mandei uma mensagem falando o quanto isso era nocivo. Precisava pelo menos tirar o sentimento ruim que aquilo tinha gerado em mim e passar adiante, para a outra pessoa saber. A cada dia que eu não falava, me sentia mais entalada, com mais raiva, mais triste, uma sensação de rejeição que só aumentava, porque parece que você fica condicionado a receber algum retorno daquela pessoa – retorno que nunca vem”.

Esse detalhe final do ghosting me parece ainda mais cruel: a impossibilidade de saber que acabou. A morte sem o corpo. “O cara nunca me respondeu”, continuou Luciana, “sei que via a mensagem, mas seguiu ignorando”.

 A escritora conclui dizendo que o ghosting é, na verdade, a manifestação de um comportamento social real, mas no mundo digital. “Também é fruto de uma sociedade muito individualista. Como se perdeu o valor do coletivo, você simplesmente não dá a mínima para o que vai causar na outra pessoa. O reverso disso é que, evitando o conflito, nem que seja para simplesmente dizer que aquele relacionamento não vai ter futuro, as pessoas desenvolvem laços cada vez mais frágeis, se sentem cada vez mais solitárias”.

Aos tímidos, a boia de chumbo. A culpa de sempre, mais pesada que nunca.


SOBRE O AUTOR

Marcelo Conde (@marcelocostaconde) é escritor, autor do romance “Apneia” e de “Amanhã Vai Ser Pior”. Publicitário de formação, trabalh... saiba mais