Conselhos precisam governar o que a IA torna invisível

Entre riscos algorítmicos e metas ESG, lideranças precisam ampliar a supervisão sem transferir decisões éticas para a tecnologia

Executivos apertam as mãos entre elementos de natureza e tecnologia, em ilustração sobre governança de inteligência artificial e ESG.
Créditos: Magnific, Unsplash

Carlos Braga 6 minutos de leitura
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Os conselhos que pretendem ser transformadores já superaram a conformidade cartorial. Hoje, atuam como coproprietários da estratégia em meio a crises climáticas, tecnológicas, sociais e econômicas que se sobrepõem.

Nesse cenário, a inteligência artificial e a agenda socioambiental chegaram ao centro da mesa. A colisão redefine o dever fiduciário e o papel estratégico dos administradores.

A IA pode acelerar a sustentabilidade ao otimizar matrizes energéticas, antecipar riscos climáticos e ampliar a capacidade de auditoria das cadeias produtivas. Ao mesmo tempo, o consumo de água e energia dos data centers, os vieses algorítmicos, os efeitos sobre o emprego e a diluição da responsabilidade desafiam a solidez das lideranças.

Inovação sem governança é um risco mal precificado.

A questão central deixou de ser se a empresa adotará a tecnologia. O conselho precisa decidir como governar sistemas que operam de maneira pouco visível, sem transferir o julgamento ético para uma máquina.

O PARADOXO BRASILEIRO: ADOÇÃO SEM ESTRATÉGIA

O Panorama 2026 da Amcham Brasil mostra um descompasso estrutural. Embora 84% das empresas pesquisadas utilizem inteligência artificial, 61% ainda registram apenas resultados pontuais ou irrelevantes. Além disso, 77% destinam à tecnologia até 2% de seus orçamentos.

Na agenda ESG, o Panorama Sustentabilidade 2026 encontrou outra distância. Enquanto 74% das empresas reconhecem ganhos reputacionais associados à sustentabilidade, apenas 34% conseguem medir seu retorno financeiro de forma estruturada.

Os números revelam dois movimentos semelhantes. IA e ESG avançaram no discurso e na adoção, mas continuam enfrentando dificuldades de integração à estratégia e de mensuração de valor.

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Cabe ao conselho transformar a tecnologia em diferencial competitivo e a sustentabilidade em arquitetura financeira. Isso envolve reduzir o custo de capital, mitigar riscos de transição e incorporar cenários climáticos às decisões de investimento.

Sem essa supervisão, a empresa corre o risco de acumular ferramentas, compromissos e indicadores que não alteram a estratégia nem melhoram seus resultados.

A IA PODE AMPLIAR A MATERIALIDADE DO ESG

A sustentabilidade passou a ocupar uma posição mais próxima da disciplina financeira com a criação das normas globais IFRS S1 e IFRS S2.

A IFRS S1 estabelece critérios para divulgar riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade que possam afetar os fluxos de caixa, o acesso a financiamento ou o custo de capital. A IFRS S2 concentra-se nos riscos e oportunidades climáticos, incluindo emissões, planos de transição e resiliência da estratégia.

No Brasil, esses padrões foram incorporados pelas normas CBPS 01 e CBPS 02 e aprovados pelas Resoluções CVM 217 e 218. Em maio de 2026, porém, a CVM retirou a obrigatoriedade anteriormente prevista para as companhias abertas. A adoção passou a seguir um regime voluntário.

Ainda assim, os padrões oferecem uma referência importante para empresas que pretendem traduzir riscos socioambientais em informações comparáveis e relevantes para investidores.

A IA pode ajudar a medir os impactos do negócio, mas seus próprios impactos também precisam ser medidos.

A inteligência artificial pode apoiar esse processo. Sistemas bem estruturados conseguem automatizar parte da análise de emissões indiretas, cruzar dados de fornecedores, modelar riscos climáticos e identificar oportunidades de descarbonização.

O uso da tecnologia, contudo, também precisa entrar na conta. Conselhos devem acompanhar a pegada ambiental dos fornecedores, o consumo de infraestrutura, a origem dos dados e os sistemas incorporados às operações.

OS RISCOS INVISÍVEIS DA AUTOMAÇÃO

As falhas mais graves da inteligência artificial muitas vezes começam na ausência de controles corporativos.

Uma das armadilhas é o decision washing: gestores atribuem ao algoritmo decisões que foram, na prática, tomadas ou autorizadas por pessoas. A tecnologia se transforma em escudo para diluir responsabilidades.

Outra é a assimetria de automação. A empresa acelera a adoção de ferramentas sem desenvolver salvaguardas, critérios de revisão e capacidade humana para supervisioná-las.

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Também existe o governance washing. A organização cria comitês e documentos formais para demonstrar preocupação com o tema, mas essas estruturas não têm acesso às informações necessárias nem poder para interromper sistemas considerados arriscados.

Casos de modelos que escondem erros, agem sem autorização ou tentam contornar mecanismos de supervisão mostram por que a transparência precisa fazer parte da governança.

QUATRO RESPONSABILIDADES DOS CONSELHOS

Para exercer seu dever fiduciário diante desses riscos, o conselho precisa assumir quatro responsabilidades que não podem ser transferidas ao algoritmo.

A primeira é estabelecer limites. Isso significa definir quais decisões não podem ser inteiramente automatizadas e em quais situações a supervisão humana será obrigatória.

Ter um ser humano no processo não basta. Essa pessoa precisa ter informação, autoridade e condições reais de contestar a máquina.

A segunda é determinar quem responde pelo risco. Cada sistema precisa ter um executivo responsável por acompanhar seu funcionamento e responder por falsos positivos, falsos negativos e outros incidentes capazes de afetar o negócio.

A terceira é criar mecanismos reais de prestação de contas. Modelos opacos não podem ser usados como justificativa para decisões que a própria empresa é incapaz de explicar, revisar ou contestar.

A quarta é proteger a capacitação das pessoas. A adoção da IA deve vir acompanhada de formação, autonomia técnica e uma transição responsável para os profissionais afetados.

REGULAÇÃO, ÉTICA E SOBERANIA DIGITAL

Os conselhos já contam com referências internacionais para estruturar essa governança.

O EU AI Act, da União Europeia, estabelece obrigações proporcionais ao nível de risco dos sistemas e cria proteções relacionadas a direitos fundamentais.

A norma internacional ISO/IEC 42001 orienta a criação de sistemas de gestão para inteligência artificial. Já o AI Risk Management Framework, do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos, oferece parâmetros para identificar, avaliar e administrar riscos.

Essas referências podem apoiar a auditoria de dados, a mitigação de vieses, a gestão de vulnerabilidades e a definição de responsabilidades.

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A conformidade legal representa o piso. A confiança pública depende também da capacidade de a empresa justificar suas escolhas e demonstrar que mantém controle sobre seus dados, ativos e sistemas essenciais.

Nesse contexto, soberania digital significa preservar autonomia sobre recursos estratégicos sem criar uma dependência irreversível de fornecedores e ecossistemas externos.

O NOVO REPERTÓRIO DA LIDERANÇA

O conselho não precisa ser formado apenas por especialistas em algoritmos ou sustentabilidade. Precisa, porém, desenvolver capacidade suficiente para fazer as perguntas certas, compreender os riscos e contestar respostas excessivamente simples.

Isso exige aprendizado contínuo, curiosidade e abertura para novos modelos de negócio e de controle.

Conselhos transformadores questionam certezas e conectam tendências. Enxergam a tecnologia como alavanca estratégica e preservam o julgamento humano sobre os limites de sua utilização.

Uma governança disciplinada de IA ajuda a mitigar riscos invisíveis, manter a supervisão humana e garantir que os sistemas permaneçam subordinados à estratégia do negócio.

A perpetuidade corporativa não pertencerá simplesmente às empresas que adotarem mais rapidamente a ferramenta da moda. O diferencial estará na capacidade de equilibrar ousadia, responsabilidade e rigor ético.

No fim, a liderança será medida por aquilo que decidiu automatizar — e também por aquilo que se recusou a delegar.


SOBRE O AUTOR

Carlos Braga é professor associado e coordenador do Centro de Referência em Inovação e ESG da Fundação Dom Cabral, conselheiro sênior ... saiba mais