Grazi Mendes: o futuro também é ancestral
A futurista mostra como conceitos como Sankofa, ginga e ancestrais do futuro podem ajudar empresas a repensar os próximos anos

Minutos antes de conversar com a Fast Company Brasil, Grazi Mendes havia pedido que as mulheres reunidas na quinta edição do Festival Pacto das Pretas se olhassem. Depois, que se abraçassem.
O gesto encerrava uma aula sobre futuro, mas não apontava para máquinas, previsões ou tendências. Falava de memória, sobrevivência e da possibilidade de construir caminhos coletivamente.
É também assim que Grazi pensa a inovação. Para a futurista, autora de “Ancestrais do Futuro” e líder de diversidade para as Américas na empresa de consultoria Thoughtworks, imaginar o que vem pela frente exige reconhecer os saberes que nos trouxeram até aqui.
“Somos ancestrais do futuro, independentemente da nossa vontade. As próximas gerações vão nos questionar sobre o que fizemos com os lugares que ocupamos”, afirma.
ANCESTRAIS DO FUTURO
Filha de empregada doméstica e de um vigia, Grazi volta à infância para explicar de onde nasceu a forma como enxerga o futuro. Ela conta que vivia debaixo da mesa da cozinha lendo livros e, desde então, já imaginava futuros. “Naquela mesa que eu chamo de fantástico mundo de graça, ali eu imaginava muitas histórias”.
Foi ali, ainda criança, que ela percebeu a potência da imaginação como forma de projetar o que ainda não existia. Hoje, define esse exercício como uma "tecnologia de planejamento".
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Para ela, o conceito de “ancestral do futuro”, não é algo abstrato. É um chamado para honrar tudo o que foi construído antes de nós e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade por aquilo que entregaremos às próximas gerações.
IMAGINAÇÃO COMO TECNOLOGIA
O provérbio africano de Sankofa, que significa "nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou para trás", está muito presente em Grazi.

Para ela, inovar não significa apenas olhar para frente, mas também recuperar os conhecimentos que ficaram pelo caminho. Como uma provocação para o presente: ao ignorar saberes ancestrais, corremos o risco de construir um progresso desconectado das necessidades humanas.
É a partir dessa perspectiva que a futurista defende a imaginação como uma tecnologia humana e ancestral. Para ela, a base de dados dos algoritmos é apenas uma leitura do que já aconteceu, por isso podem limitar novos caminhos.
“A grande potência da tecnologia da imaginação é que ela subverte as fronteiras daquilo que foi conhecido e pode criar outros mundos, outros futuros, outras possibilidades”, afirma.
GINGA: TECNOLOGIA ANCESTRAL DA COLETIVIDADE
O conceito do filósofo nigeriano Bayó Akomolafé diz que a ginga vai além de um movimento físico: é uma tecnologia de sobrevivência, herdada dos mesmos que transformaram as tranças em mapa de fuga e desenhos de territórios, dos saberes com as plantas e chás das avós.
Para Grazi, o ato de gingar envolve olhar para a trajetória de outras mulheres negras como referência e possibilidade e assim perceber que também pode.
“A grande potência da tecnologia da imaginação é que ela pode criar outros mundos, outros futuros, outras possibilidades”
A força de outras mulheres deixa de ser inspiração e passa a funcionar como combustível para projetar novos futuros e caminhos.
Quando Sankofa ensina que o passado guarda conhecimentos valiosos para a construção do futuro, a ginga nos mostra como esses saberes podem ser colocados em movimento – e o próprio Festival Pacto das Pretas é exemplo disso.
No ambiente corporativo, a ginga aparece como uma construção de estratégias coletivas, de colaboração e de capacidade de leitura do cenário. Para ela, a liderança não precisa ser um exercício solitário. "Às vezes na força da outra você se fortalece... são saberes ancestrais que podemos usar no ambiente corporativo."
A TEIMOSIA ESPERANÇOSA
Ao falar sobre o Pacto das Pretas, os olhos de Grazi se enchem de lágrimas. Reconhecida entre as 100 futuristas mais influentes do mundo pela Organização das Nações Unidas (ONU), Grazi deixa de lado a conversa sobre futuros por alguns instantes para falar sobre afeto.
Estar há dois anos como embaixadora do festival, diz ela, é viver uma "teimosia esperançosa". "Pacto é um pouco isso para mim – o lugar de esperança e de esperança ativa", explica.
Ela faz uma breve pausa antes de continuar. Durante o tratamento de um câncer de mama triplo negativo, hoje metastático, o festival tornou-se, em suas palavras, um lugar de cura e uma espécie de remédio.
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Diagnosticada em 2024, Grazi fala publicamente sobre a doença. Ela explica que, embora a medicina ainda não ofereça cura para seu quadro, o câncer tem tratamento.
“Boa parte dos meus leucócitos se fortaleceu. Eu senti, no meu corpo físico, a potência que existe quando as pessoas estão juntas para construir futuros melhores”, relata.