IA pode aumentar ou acabar com o sofrimento dos animais que criamos para comer

A inteligência artificial está sendo utilizada por produtores de carne, mas também pode ser a chave para um futuro melhor para os animais

Crédito: Carolien Van Oijen/ Unsplash

Brian Kateman 5 minutos de leitura

Apesar de a inteligência artificial já estar presente no nosso dia a dia, a maioria das pessoas não sabe do que a tecnologia se trata. De forma simplificada, a IA é um método de fazer um software “pensar” de forma inteligente, como a mente humana. Ele passa a tomar decisões usando dados em tempo real, aprendendo e se adaptando à medida que coleta novas informações.

O algoritmo da Netflix, por exemplo, armazena e analisa seu histórico de visualização para prever o que você estará mais interessado em assistir a seguir. Toda vez que sugere um filme, ele monitora se o usuário clica em reproduzir ou não para futuras sugestões. Em breve, poderá saber mais sobre suas preferências do que você mesmo.

As discussões sobre a ética da tecnologia surgiram muito antes de todos terem um smartphone no bolso. Alguns argumentam que a tecnologia em si é neutra – em essência, que ela depende da intenção do usuário. Outros argumentam que os valores são incorporados às tecnologias pelas pessoas que as desenvolvem.

A ética da IA é um tema muito debatido nos dias de hoje. Ela conseguirá tornar o mundo melhor para as pessoas ou criará mais problemas do que soluções? Ninguém sabe ao certo. Mas a tecnologia não afeta somente os humanos, ela também afeta outros animais, e seríamos negligentes em deixá-los fora de nossas considerações.

ANIMAIS EM CONFINAMENTO

Em um artigo recente publicado na revista “AI and Ethics”, o filósofo Peter Singer e o pesquisador Yip Fai Tse apontam que os efeitos da IA nos animais é um tópico que tem sido “quase totalmente negligenciado”.

Um contexto importante que eles discutem extensamente é

A inteligência artificial conseguirá tornar o mundo melhor ou criará mais problemas do que soluções?

o da pecuária industrial, uma indústria que mantém bilhões de animais – vacas, galinhas, porcos, peixes, etc. – confinados em condições cruéis para a produção de carne, ovos e laticínios baratos.

Nos últimos anos, grandes empresas fabricantes de produtos de origem animal de todo o mundo, como a Tyson Foods, nos EUA, a CP Foods, na Tailândia, e a Mowi, na Noruega, começaram a testar sistemas de IA destinados a tornar o gerenciamento, abate e/ou processamento de animais mais eficiente.

Esses sistemas, alimentados por grandes empresas de IA como Microsoft, IBM e Alphabet, estão sendo testados em todo o setor para, entre outras atividades, alimentar animais, monitorar seu crescimento, fazer identificação e interagir com eles usando sons ou choques elétricos para controlar seu comportamento.

Parte dessa IA pode aumentar o sofrimento dos animais. Por exemplo, se ela puder monitorar mais de perto a saúde deles, isso também poderá permitir que os produtores confinem ainda mais animais em espaços pequenos para aumentar a produção, causando ainda mais estresse.

Mas o que é mais problemático é que isso pode resultar na redução dos custos dos produtos de origem animal, aumentando assim a demanda e o consumo. Em outras palavras, a IA pode ser usada para aumentar o número de animais abatidos para alimentação.

MONITORAMENTO POR IA

Por outro lado, ela também está sendo usada por certos opositores da pecuária industrial. Por exemplo, em um esforço para reduzir as violações das políticas de bem-estar animal, foram instaladas câmeras de circuito fechado de televisão em matadouros em todo o mundo. Entretanto, monitorar um número grande de câmeras não é algo prático, então a maioria delas não é verificada.

IA pode ser usada para aumentar o número de animais abatidos para alimentação.

Cada vez mais, as imagens são monitoradas não por humanos, mas por inteligências artificiais. Essa foi a motivação por trás do sistema AI4Animals, desenvolvido na Holanda graças a uma parceria entre organizações de bem-estar animal, uma produtora de carnes (Vion), e a empresa de consultoria Deloitte.

O AI4Animals usa um algoritmo para detectar segmentos de vídeo que podem conter violações de bem-estar e os sinaliza para verificação humana. Ele é capaz, por exemplo, de detectar quando um ou mais animais ficam para trás enquanto caminham, o que pode indicar exaustão ou lesão.

CORRIDA TECNOLÓGICA

Há também empresas alternativas de tecnologia de alimentos que utilizam IA. Desde que as carnes à base de plantas, como o Beyond Burgers e o Impossible Nuggets, se tornaram populares na última década, empresas com know-how de inteligência artificial em todo o mundo se juntaram à corrida para criar produtos sustentáveis, livres de crueldade e saborosos que podem substituir produtos de origem animal.

A Equinom, empresa israelense de tecnologia de alimentos,

empresas com know-how de IA se juntaram à corrida para criar opções que substituam os produtos de origem animal.

está utilizando IA para identificar sementes que produzirão plantas com texturas e valores nutricionais específicos. Já a Firmenich, gigante suíça de fragrâncias e aromatizantes, está usando a tecnologia para testar combinações de sabores. A startup NotCo, por sua vez, usa IA para comparar a estrutura molecular de carne ou laticínios com fontes vegetais.

No momento, grande parte dessa tecnologia ainda é nova e está muito longe de ser amplamente aplicada no mercado. Mas é bastante provável que algumas avancem o suficiente e se tornem comuns, se não onipresentes, em seus respectivos setores. Para qualquer tecnologia chegar a esse ponto de desenvolvimento, ela precisa de tempo, talento e, sobretudo, financiamento.

De certa forma, é uma corrida tecnológica entre as gigantes da pecuária e as muitas empresas que desejam substituí-las ou modificar a indústria em prol do bem-estar animal e ambiental. Programadores e investidores que desejam entrar no setor de tecnologia de alimentos precisam primeiro se perguntar de que lado querem estar.

Estamos diante de dois cenários com a IA: pode ser que contribua para práticas ainda mais cruéis e desumanas, ou que seja usada para acabar de vez com elas. Precisamos lutar pela segunda opção, pois as vidas de bilhões de animais dependem disso.


SOBRE O AUTOR

Brian Kateman é cofundador e presidente da Reducetarian Foundation, organização sem fins lucrativos dedicada a reduzir o consumo de ca... saiba mais