Tudo aquilo que é vital, e que a IA não consegue nos dar
Miguel Nicolelis e outros especialistas defendem pensamento crítico, educação, vínculos e literatura como formas de resistência aos impactos da IA.

O neurocientista e pesquisador Miguel Nicolelis chama a inteligência artificial (IA) por um apelido que a princípio parece carinhoso, “NINA”. O significado da sigla, porém, passa longe disso: "Nem Inteligente, Nem Artificial". A seu ver, a inteligência é intrínseca aos organismos vivos, e portanto não é algo que a IA de fato possua, já que ela também depende do trabalho de dados feito por humanos, comumente em situação precarizada.
Os impactos negativos da IA para todos nós, assim como as maneiras através das quais podemos lidar com seus perigos, foram tema recorrente nas conversas do Encontro Futuro Vivo 2026, que ocorreu na última terça (01). Nicolelis, em especial, se preocupou em abordar como a "NINA” é diferente de muito do que já enfrentamos enquanto humanidade:
“Até recentemente, todas as tecnologias que nós criamos eram absorvidas como parte de nós. Esse é o primeiro momento da história, nos últimos 80 anos, em que nós criamos uma tecnologia que nos absorve, que nos assimila", diz.
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Mas não significa que não há mais o que fazermos; o neurocientista foi enfático ao falar que a resistência não só é possível como é nossa responsabilidade, contrariando o discurso de que é preciso aceitar e incluir a IA em nossas vidas de forma desenfreada. É preciso entender que aquilo que a IA faz deixar de ser prioridade nossa é justamente o que nos ajuda a resisti-la: exercitar o cérebro, incentivar e melhorar a educação, e nutrir as relações com os outros.

A DESVALORIZAÇÃO DA INTELIGÊNCIA
Um dos grandes efeitos do emprego da IA como acontece hoje se dá no cérebro humano.
O cérebro é como um músculo; se não é usado e exercitado, atrofia. Por isso, delegar certas tarefas para a IA ao invés de fazer você mesmo pode te incentivar a pensar cada vez menos. De acordo com Nicolelis, temos que "treinar” refletir, escrever à mão e ler, antes de recorrer à resposta rápida do chatbot, ao resumo com referências em links, à transcrição e anotação automatizadas.
A preguiça em pensar - o sedentarismo cognitivo - é uma questão anterior à IA, mas é exponencialmente agravada por essa tecnologia. Segundo Nicolelis, há três funções específicas da IA por trás disso.
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A primeira é que a IA nos faz deixar de confiar em nós mesmos, principalmente para resolver problemas humanos em sua essência. “Nenhuma IA vai curar o câncer, porque se você treina IA em tudo o que já foi publicado e a solução não está lá, você só vai produzir algo baseado no passado. Então precisamos de gente fazendo pesquisa, fazendo estudo clínico, e tendo insights", diz o professor da Universidade Duke, nos EUA.
O segundo fator é a vigilância e monitoramento crescentes em que a IA é utilizada, para rastrear cidadãos que não cometeram crime algum como parte do solucionismo tecnológico presente em muitos centros urbanos ao redor do mundo. E a terceira é a automação, que, como defende o neurocientista, não cria de fato nada e gera alucinações.
Para Nicolelis, “a inteligência é propriedade da vida orgânica, da matéria orgânica. É a otimização das estratégias de sobrevivência dos seres vivos". Para ilustrar isso, o pesquisador menciona como exemplo uma jabuticabeira, que floresce para atrair abelhas e passar pelo processo de polinização. Quando isso chega a um estágio suficiente, as flores restantes desaparecem para salvar energia da árvore e gerar a jabuticaba. “Isso sim é inteligência. E é não-computável. Não sei se vocês já viram uma jabuticabeira de silício… eu ainda não encontrei,” brinca.
A EDUCAÇÃO DAS NOVAS GERAÇÕES
O desenvolvimento de crianças e adolescentes num mundo cada vez mais nocivamente digital, da IA às redes sociais, é um dos tópicos mais relevantes considerando o sedentarismo cognitivo. Em adultos, a IA pode atrofiar uma capacidade já adquirida; em crianças, pode impedir que ela se desenvolva.
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Daniel Becker, pediatra e ativista pela infância, expressa uma grande preocupação com a inteligência artifical e os aplicativos de vídeos curtos viciantes, que deslocam as crianças do aprendizado.
“De forma geral, isso as afasta de tudo que é importante para o desenvolvimento delas. Tudo que na verdade formou a espécie humana como ela é ao longo de milhões de anos: contato com a luz do dia, o movimento físico, a brincadeira, a interação social, a imaginação, o confronto do tédio, o confronto com a dificuldade e com a frustração, a leitura e o sono, que são fundamentais… tudo isso está sendo perturbado ou removido da vida das crianças e dos adolescentes", disse o médico no Encontro Futuro Vivo 2026.
Nesse contexto, a educação cumpre um papel importante. Para além de proibir o uso de celulares nas escolas, ou até mesmo o próprio uso da IA - como anunciado esta semana para alunos do ensino fundamental em Nova Iorque, EUA - é necessário ainda algumas mudanças nas prioridades brasileiras, que tendem a focar no conteudismo.
Segundo a especialista em educação pública Priscila Cruz, devemos implementar os quatro pilares para a educação no século XXI, cunhados pela UNESCO. O primeiro é “aprender a aprender”, ou seja, desenvolver habilidades de pensamento crítico, autonomia, e curiosidade; o segundo é “aprender a fazer", aplicando o conhecimento de forma prática. O terceiro é “aprender a conviver", trabalhando em equipe e respeitando perspectivas e vivências diferentes. O último é “aprender a ser", desenvolvendo a ética, a responsabilidade, e a identidade do aluno.
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Não significa, contudo, que a IA precise ficar totalmente de fora do currículo. A educadora Gi Santos, também presente no evento, defende o letramento digital. De acordo com ela, as crianças e adolescentes devem aprender sobre IA, aprender com a IA, aprender além da IA, e aprender apesar da IA, seguindo a lógica dos quatro pilares. Sobre o último ponto, adiciona: “A gente precisa mesmo dizer que a inteligência artificial é inevitável? Será que é inevitável para todo mundo?”
AS RELAÇÕES QUE NUTRIMOS E AS HISTÓRIAS QUE CONTAMOS
O “antídoto” citado em muitas das conversas no Evento Futuro Vivo 2026, como forma de resistência mais geral e coletiva ao impacto da IA, foram os vínculos e afetos. Pensando no tipo de futuro que queremos construir, Nora Bateson, presidente do Bateson Institute, trouxe uma imagem para representar sua tese sobre o que é realmente importante: as relações.
Na foto projetada havia dois tipos de tomates recém-colhidos. Aqueles ainda conectados entre si pelo caule estavam maduros e avermelhados; os outros, todos verdes, estavam sozinhos. Os conectados amadureceram mais rápido e ficaram frescos por mais tempo, enquanto os 'solitários’ foram os primeiros a estragarem.

Bateson vê as relações que nutrimos como essenciais no processo interdependente que é a vida, tese que foi defendida também por seu pai, o antropólogo Gregory Bateson. Os dois acreditam que a cooperação e interconectividade presentes na natureza podem nos ajudar a repensar o modo como existimos nas últimas décadas, cada vez mais preocupados com dados, produtividade e eficiências que nos afastam uns dos outros.
E é através das histórias complexas e profundas, diz Nora Bateson, que entendemos contextos, construímos as relações, e valorizamos cada pessoa.
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No último painel do dia, com os escritores Conceição Evaristo e Milton Hatoum, a literatura apareceu não só como um conjunto de histórias, mas também como um exercício das relações humanas.
Evaristo enxerga a separação entre homem e natureza, e a dominação humana dos recursos, como algo profundamente enfraquecedor dos elos. “Perdemos contato com as epistemes tradicionais, assim como a conexão com o outro e com o mundo”, disse ela, enquanto os dois conversavam sobre o papel da oralidade na sua formação literária. Foi, para ambos, o que os transformou em escritores.
“As pessoas já não contam mais histórias. Porque a experiência das pessoas é muito rala. A experiência urbana, e mesmo a rural, passa pelas horas e horas de uso do celular ou das redes sociais. Então corremos o risco de não sermos lidos ou de a literatura perder força, como de alguma forma está perdendo, mas eu não acredito nisso. Eu acho que a literatura ainda é - aliás, sempre foi e eu acho que vai ser - uma possibilidade não apenas de sonhar, mas de entender profundamente a nossa realidade e a nós mesmos,” disse Hatoum.

Os livros oferecem ao leitor a chance de sair de si e entrar em contato com a multiplicidade de vivências. Assim, as relações se expandem, principalmente levando em conta dois dos pilares da educação; “aprender a ser ”e “aprender a conviver" nas complexidades.
"Toda essa pressa, essa urgência, o fato de ninguém mais querer perder tempo… Na verdade você ganha vida quando está lendo, pensando, imaginando, sonhando. Para a gente ter um futuro melhor, a gente precisa disso,” reforçou o autor manauara. Está aí a síntese daquilo que a “NINA” de Miguel Nicolelis não pode nos oferecer, de jeito nenhum.