Ensinar e aprender futuros: a habilidade essencial do século 21

Movimento liderado por Rosa Alegria leva o letramento em futuros às escolas para ajudar crianças e jovens a lidar com incertezas e imaginar novos caminhos.

Colagem mostra criança lançando avião de papel em meio a formas geométricas coloridas.
O letramento em futuros ensina crianças e adolescentes a observar mudanças, imaginar cenários e agir diante das incertezas.

Isabella Lura 6 minutos de leitura
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"A gente aprende História, aprende Ciências, aprende tudo aquilo que já existe e pode ser comprovado. Mas não aprende a olhar para o futuro." A frase resume a inquietação que acompanha a futurista Rosa Alegria há mais de duas décadas. Responsável por introduzir no Brasil os Estudos de Futuros de forma acadêmica, ela passou os últimos 26 anos ajudando empresas, organizações e gestores a compreender transformações de longo prazo. Mas foi quando nasceu a primeira neta que decidiu mudar o foco.

"Eu pensei: o futuro já está nascendo. São essas crianças que vão ocupar um mundo cheio de desafios. Se passei tantos anos ajudando empresas a se prepararem para o amanhã, precisava fazer alguma coisa por quem realmente vai viver esse futuro." explica Alegria

Hoje, Alegria diz ser "vovó de quatro" e afirma que foram os netos que deram um novo sentido ao seu trabalho. A preocupação com o mundo que essa geração vai herdar levou a futurista a trazer para o Brasil o movimento internacional Teach the Future, voltado ao letramento em futuros. A proposta busca ensinar crianças e adolescentes a compreender mudanças, imaginar diferentes cenários e desenvolver competências para enfrentar um mundo cada vez mais incerto. 

O QUE SIGNIFICA ENSINAR O FUTURO?

Ensinar futuros não significa prever acontecimentos, mas capacitar indivíduos a olhar para frente de forma estruturada para criar um novo presente. "O futuro funciona como o farol do carro. Ele não mostra toda a estrada, mas ilumina o suficiente para que possamos seguir adiante com mais consciência" explica Rosa.  

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A metáfora é uma das favoritas de Alegria para explicar a proposta do letramento em futuros. Em vez de tentar adivinhar o amanhã, a metodologia ensina estudantes a observar sinais que já aparecem no presente, mudanças de comportamento, avanços científicos, transformações tecnológicas e sociais  para imaginar possibilidades e construir respostas antes que os problemas se consolidem.

Esse processo desenvolve habilidades que tendem a ganhar importância nas próximas décadas, como imaginação, pensamento crítico, criatividade, visão sistêmica, capacidade de adaptação e resolução de problemas. "O futuro não tem provas de que existe, mas ele deixa sinais." afirma Alegria.

Rosa Alegria sorri enquanto segura um troféu com a frase “eu penso futuros”.
Rosa Alegria atua há 26 anos com Estudos de Futuros e trouxe ao Brasil o movimento internacional Teach the Future.

UMA GERAÇÃO QUE TEM MEDO DO AMANHà

A necessidade de ensinar essas competências fica evidente quando se observa a relação dos jovens com o futuro.

Na pesquisa Da Futurofobia à Futurotopia, coordenada por Rosa Alegria com cerca de 800 estudantes brasileiros, 62% afirmaram sentir medo do futuro, enquanto 78,5% disseram associar o amanhã à ansiedade.

Para a pesquisadora, esses números refletem uma geração que cresceu convivendo simultaneamente com crises climáticas, econômicas, tecnológicas e sociais. "Nós estamos vivendo uma policrise. As mudanças sempre existiram, mas nunca aconteceram de forma tão rápida, tão profunda e em escala tão grande." explica Alegria

A pandemia de covid-19 tornou essa aceleração ainda mais evidente. Em menos de três  anos, a sociedade mudou a maneira de trabalhar, estudar, aprender e se relacionar em uma intensidade equivalente a uma década, diz a futurista.

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É diante desse cenário que o letramento em futuros ganha relevância: ao estimular os estudantes a imaginar possibilidades, a metodologia busca substituir a sensação de impotência por uma postura mais ativa diante das mudanças 

DA TEORIA PARA A SALA DE AULA 

Embora o letramento em futuros ainda seja pouco conhecido no Brasil, a metodologia já faz parte da rotina de algumas escolas. Atualmente, três instituições oferecem a disciplina como componente regular da grade curricular.

A pioneira é a Escola Estilo de Aprender, na Lapa, em São Paulo, que há cerca de cinco anos trabalha o tema com alunos do Ensino Fundamental I. A experiência também foi adotada pela Escola Force, em Bauru, há aproximadamente três anos, e pelo Colégio Marly Cury, em Niterói.

A implementação começa pela formação dos professores. O estranhamento inicial costuma dar lugar à compreensão de que a disciplina busca ampliar a capacidade de analisar mudanças, pensar estrategicamente e imaginar diferentes possibilidades para o futuro.

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Na prática, os estudantes analisam notícias, identificam sinais de mudança, constroem cenários possíveis, prováveis e desejáveis e imaginam soluções para desafios ambientais, sociais e tecnológicos. Mais do que encontrar respostas certas, aprendem a formular boas perguntas.

PRÓXIMOS PASSOS DO FUTURO NAS ESCOLAS

O próximo passo para ampliar essa cultura acontecerá no Rio de Janeiro. Em parceria com a Firjan, cerca de 40 professores da rede pública serão capacitados para aplicar o letramento em futuros em sala de aula. A iniciativa representa um dos primeiros programas estruturados de formação docente nessa área no país e busca oferecer ferramentas para que os educadores desenvolvam atividades voltadas à construção de cenários, à imaginação de futuros possíveis e à resolução criativa de problemas.

Para Alegria, preparar os professores é fundamental para que o letramento em futuros deixe de ser uma experiência pontual e passe a fazer parte do cotidiano das escolas. Na avaliação da futurista, quando os educadores compreendem a proposta, também transformam a maneira como enxergam o processo de ensino. Em vez de preparar os estudantes apenas para um mercado de trabalho em constante mudança, a escola passa a formar pessoas capazes de lidar com incertezas, criar soluções e construir diferentes possibilidades para o futuro.

 IMAGINAÇÃO COMO COMPETÊNCIA

Em uma era marcada pelo avanço da inteligência artificial, Alegria defende que a escola precisa concentrar seus esforços em desenvolver capacidades essencialmente humanas. 

Na avaliação da futurista, o sistema educacional ainda opera sob uma lógica industrial, voltada à memorização, à produtividade e à busca por respostas certas. Esse modelo, afirma, pouco estimula a imaginação, justamente a capacidade que permite criar novos caminhos diante de um cenário de mudanças constantes.

Alegria ainda faz questão de diferenciar imaginação e criatividade. Para ela, a criatividade é consequência da imaginação, e não o contrário. Antes de encontrar soluções inovadoras, é preciso haver espaço para explorar possibilidades, formular perguntas e pensar em cenários que ainda não existem. "A criatividade é resultado da imaginação. Você não consegue ser criativo por obrigação ou com hora marcada." afirma Alegria.

Se durante séculos a escola teve como missão transmitir o conhecimento acumulado pela humanidade, o desafio agora passa a ser outro: preparar os estudantes para construir conhecimentos que ainda não existem. Em um mundo marcado por mudanças constantes, imaginar futuros deixa de ser um exercício de ficção e passa a fazer parte da própria educação. 


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar... saiba mais