E se o livro tivesse uma trilha sonora?
Startup usa visão computacional para sincronizar músicas, sons e narrações com as páginas, enquanto mercado brasileiro de livros volta a crescer

Todo leitor tem uma mania na hora de ler seus livros. Tem quem marque as páginas, quem faça anotações nas margens, quem escolha um lugar específico da casa para ler e até quem monte uma playlist para acompanhar a história. A Radioposter decidiu transformar essa última ideia em parte do próprio livro.
A startup sediada em Omaha, Nebraska, nos Estados Unidos, criou o que chama de Paper-fi, um formato de livro físico que combina imagem, narrativa e trilha sonora. A proposta é fazer com que a música e os sons acompanhem o leitor em tempo real, conforme ele avança pelas páginas.
UM LIVRO QUE TAMBÉM TOCA
A tecnologia não depende de chips escondidos no papel nem de códigos QR espalhados pelo livro. O sistema utiliza visão computacional com patente pendente e outros recursos por meio de um smartphone ou de óculos inteligentes para identificar em que ponto da publicação o leitor está e reproduzir o áudio correspondente.
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Assim, uma página pode trazer música, outra pode acrescentar sons ambientes e uma terceira pode ser acompanhada por uma narração. O áudio não segue um tempo predeterminado, como acontece em um filme ou em um audiolivro: ele acompanha o ritmo de cada leitor.

Os próprios livros são pensados para explorar essa combinação. Em vez de funcionarem apenas como suporte para textos, as publicações da Radioposter têm uma proposta mais próxima de objetos de arte, com histórias altamente visuais nas quais fotografia, ilustração, composição sonora e narrativa se complementam.
A ideia está entre um livro de arte, um documentário e uma trilha sonora. Não é exatamente um audiolivro, nem um livro ilustrado acompanhado por uma playlist. O Paper-fi tenta criar uma nova relação entre o conteúdo visual e o som, usando o papel como parte da experiência.
O LIVRO FÍSICO AINDA TEM ESPAÇO
A proposta surge em um momento em que a relação com os livros passa por mudanças. No Brasil, 53% da população com 5 anos ou mais não leu sequer parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, do Instituto Pró-Livro. Foi a primeira vez que a parcela de não leitores superou a de leitores na série histórica. O país também perdeu 6,7 milhões de leitores nos quatro anos anteriores ao levantamento.
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As editoras produziram cerca de 367 milhões de exemplares e 45 mil títulos em 2025. O segmento de Obras Gerais, que reúne categorias como ficção e não ficção, respondeu por 39% das vendas ao mercado e teve alta real de 4% no ano.
O consumo também avançou. Segundo o Panorama do Consumo de Livros 2025, 18% dos brasileiros com 18 anos ou mais compraram pelo menos um livro nos 12 meses anteriores à pesquisa, dois pontos percentuais acima de 2024. O aumento representa cerca de 3 milhões de novos compradores.
Os números mostram um contraste: enquanto a leitura enfrenta uma queda, o consumo e o mercado de livros voltaram a crescer. É nesse intervalo que a Radioposter aposta. Em vez de substituir o livro por uma tela ou transformar a leitura em um audiolivro, a empresa tenta acrescentar uma nova camada à experiência física.
ANALÓGICO, MAS NEM TANTO
Depois de anos de rolagem infinita, recomendações algorítmicas e conteúdo produzido para ser consumido rapidamente, existe também uma busca por atividades mais tangíveis e com começo, meio e fim. O Paper-fi parte justamente dessa lógica: manter aquilo que torna o livro físico diferente: o papel, as páginas e o ritmo de leitura. Enquanto incorpora recursos que normalmente ficam restritos às telas.
Um dos argumentos por trás do formato é o valor da chamada “mídia finita”. Um livro tem um número determinado de páginas, uma história que termina e um ritmo que depende do leitor. Ao contrário de feeds digitais baseados em rolagem contínua, a experiência tem um limite físico. Para a Radioposter, essa limitação não é uma deficiência, mas parte do que torna o formato atraente.
A proposta, portanto, não é abandonar a tecnologia em nome do analógico. É fazer com que ela deixe de ocupar o centro da experiência. O celular funciona como intermediário para identificar a posição do leitor e controlar o áudio, enquanto o papel continua sendo o espaço onde a história acontece.
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A Radioposter publica seus próprios títulos e desenvolve o aplicativo responsável pela experiência. Segundo a empresa, seu primeiro livro, Forest Bathing for Punks, tem edição limitada a 10 mil exemplares. A publicação combina um guia visual sobre plantas com música punk e elementos de áudio.
Ainda é cedo para saber se o formato vai se tornar um novo meio de contar histórias ou permanecer como uma experiência experimental. Mas a proposta aponta para uma ideia interessante: talvez o futuro do analógico não esteja apenas em recuperar objetos do passado, mas em descobrir o que eles ainda podem fazer. No caso do livro, isso pode significar transformar aquela playlist que costumava ficar aberta ao lado da leitura em parte da própria história.