Pela primeira vez, crianças têm menos celulares no Brasil
Dados da PNAD mostram a primeira queda na posse de celulares entre crianças de 10 a 13 anos. A preocupação com segurança está mudando a relação das famílias com a tecnologia e pressionando a indústria a responder.

O Brasil atingiu a marca histórica de 95% dos domicílios conectados, mas, em paralelo, as famílias parecem repensar a forma como as crianças acessam a tecnologia. Dados da pesquisa mais recente da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) revelam que a posse de celulares próprios entre crianças de 10 a 13 anos recuou pela primeira vez, de 56,7% para 55,2% em apenas um ano.
Segundo o levantamento, a preocupação com privacidade e segurança passou a ser o principal motivo citado pelos responsáveis para adiar o primeiro celular, somando 32% das respostas e superando fatores como preço ou falta de necessidade. O dado indica que a decisão deixou de ser predominantemente econômica e passou a refletir uma preocupação crescente com a proteção de crianças no ambiente digital.
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Para Rodrigo Nejm, psicólogo e especialista em educação digital do Instituto Alana, os números refletem uma mobilização da sociedade brasileira por mais cuidado e proteção às crianças . “Não é mais apenas teoria; as pessoas estão visualizando as consequências na saúde mental e na aprendizagem”, afirma.
POR QUE MENOS CRIANÇAS TÊM CELULAR PRÓPRIO
Na avaliação de Nejm, a maior exposição aos riscos do ambiente digital fez com que famílias e educadores passassem a perceber os impactos do uso precoce e sem supervisão dos celulares. Entre os principais estão apatia, dificuldades de socialização, radicalização por grupos de ódio, cyberbullying, acesso precoce à pornografia, violência e até jogos de azar.
Para o especialista, já está acontecendo uma transformação gradual e mundial. Países como França, Espanha e Reino Unido colocaram o tema no centro da agenda pública e passaram a proibir as redes sociais para menores. Nejm explica que “o tema deixou de ser um problema individual de cada família e passou a ser um desafio civilizatório."
NÃO É CONTRA TECNOLOGIA
Para Nejm, o objetivo não é expulsar as crianças das redes, mas sim garantir que elas acessem ambientes seguros.”A metáfora é tornar a ‘cidade digital’ (parques, praças) apropriada para que as crianças possam estar lá com segurança e privacidade, exercendo sua cidadania” exemplifica. O mantra, segundo ele: "proteger as crianças NA internet, e não DA internet".
Essa mudança de comportamento não altera apenas a rotina das famílias. Ela também envia um novo sinal para a indústria de tecnologia, que passa a ser pressionada a desenvolver produtos e plataformas mais seguras. Além de oferecer acesso, os fabricantes de dispositivos, plataformas e desenvolvimentos começaram a ser cobrados a produzir produtos que tenham proteção e privacidade em seus mecanismos.
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Para Patricia Peck, advogada especialista em Direitos Digitais, “não basta ampliar o acesso; é preciso oferecer confiança”.
Na avaliação da especialista, adiar o uso do celular não representa uma rejeição à tecnologia, mas uma mudança na forma como ela é introduzida. Patricia afirma que a inclusão digital deixa de ser medida apenas pela posse de um aparelho e passa a considerar um uso seguro, ético e adequado à idade.
TRANSFORMAÇÃO DE DENTRO
Com as novas demandas das famílias, o setor passa a rever o desenvolvimento de produtos e serviços. Segundo Peck, a tendência é que dispositivos mais limitados, com verificações de idade, controles parentais e mecanismos de supervisão claros ganhem mais espaços. “A segurança não pode depender apenas da boa vontade ou do conhecimento técnico dos pais. Ela precisa estar incorporada ao desenho do produto, de forma simples, acessível e compreensível”, afirma a advogada.
Outro fator que acelera essa transformação é o avanço da regulamentação. O ECA Digital estabelece princípios de proteção para crianças e adolescentes no ambiente digital e reforça conceitos como safety by design e privacy by design, incentivando que a segurança seja incorporada ao desenvolvimento de plataformas e aplicativos desde sua concepção.
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O FUTURO
A inteligência artificial também deve desempenhar um papel importante nessa transformação. Para a advogada, a IA pode ajudar muito na identificação de conteúdos inadequados, no combate ao assédio, na detecção de fraudese adaptar experiências de acordo com a faixa etária. Para Nejm, porém, a IA generativa traz novos desafios. "O desafio é aplicar camadas rigorosas de proteção, classificação indicativa e dever de cuidado também para os ambientes de IA."
Ao olhar para o futuro, Patricia Peck acredita que os próximos anos devem trazer dispositivos com autonomia progressiva, funcionalidades liberadas conforme a idade e recursos de inteligência artificial capazes de apoiar a supervisão familiar.