Mulheres estão entrando em STEM. O problema é fazê-las chegar ao topo

Relatório mostra crescimento de iniciativas para ampliar a presença feminina, mas revela um gargalo na permanência e na ascensão profissional

Créditos: Unsplash/ Magnific

Beatriz Felizardo 6 minutos de leitura
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À primeira vista, o ecossistema brasileiro de incentivo à presença feminina em STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática) está crescendo. O número de iniciativas mapeadas pelo Relatório Anual de Mulheres em STEM no Brasil saltou de 75 para 105 na última edição. 

Segundo Ana Carolina Cardoso, presidente do capítulo brasileiro do STEM Women Congress, ampliar a presença feminina nessas áreas não é somente representatividade. “Não é uma questão de diversidade e de equidade, é uma questão de inovação, de desenvolvimento econômico. Faltam profissionais no mercado”, enfatiza

No entanto, o crescimento esconde outro cenário: poucas mulheres chegam ao topo da trajetória profissional . Apenas 2,5% dos impactos registrados por programas voltados à carreira – que correspondem às pessoas alcançadas pelas iniciativas em diferentes etapas do desenvolvimento profissional –  chegaram à chamada maturidade profissional, segundo a pesquisa. 

O dado revela  um desafio que vai além de colocar meninas e mulheres em contato com STEM: garantir sua permanência no caminho até chegar a cargos mais altos e até à liderança. Para a Ana Carolina, o aumento no número de projetos representa um passo importante. "Conseguimos captar iniciativas nos 27 estados brasileiros, o que é ótimo”, comemora. 

O FUNIL COMEÇA A ESTREITAR

Em 2025, as atividades de incentivo à presença feminina no STEM registraram 505.271 impactos. Porém, o número não corresponde  ao total de profissionais atuantes; ele reúne diferentes momentos da trajetória, do despertar do interesse na infância à formação acadêmica e ao desenvolvimento profissional. 

Quando o recorte passa para a carreira, presente em 76% das iniciativas mapeadas, surge um gargalo. Das 483.698 pessoas impactadas nesta fase, a maior concentração está na base: o estágio profissional júnior registra 127.522 impactos. À medida que a trajetória avança, o volume diminui.

A senioridade representa a etapa mais avançada desse percurso, quando a profissional já está consolidada na carreira e pode ocupar posições de maior responsabilidade, como cargos de liderança, pesquisa ou gestão de equipes e projetos.

Nessa fase, restam apenas 12.209 impactos. “Nós vamos perder as mulheres no meio do caminho, exatamente por falta de oportunidades”, afirma Ana Carolina. 

Para aquelas que continuam, os obstáculos permanecem. "Às vezes temos mulheres em cargos de liderança, mas não são cargos técnicos. Precisamos de mulheres na liderança técnica para servirem de inspiração e criarem ambientes mais diversos", afirma Ana. 

O problema não começa quando elas chegam ao mercado de trabalho. Ele se forma muito antes, quando meninas ainda estão construindo as referências que definem quais áreas enxergam como possibilidades para o futuro. 

TUDO COMEÇA ANTES DA CARREIRA

O segmento de inspiração inclui atividades que trabalham com crianças desde a primeira infância até o final da educação básica, aos 14 anos, com o objetivo de despertar interesse e familiaridade com STEM antes da escolha profissional.

O relatório mostra que apenas 0,055% da população infantil é alcançada por essas iniciativas. Entre crianças de um a cinco anos, foram registrados somente 52 impactos. 

Para Ana Carolina, o problema é estrutural e cultural. É na primeira infância que começam a se formar associações sobre papeis de gênero. A menina pode crescer ouvindo que matemática é coisa de menino, ao mesmo tempo em que robótica e tecnologia dsão apresentadas de forma natural aos garotos.

a autocensura feminina é resultado de mensagens e expectativas sociais incorporadas ao longo da vida
Créditos: Good Studio/ Jorm Sangsorn/ Adobe Stock/ Anna Tarazevich/ Pexels

Aos poucos, isso ajuda a definir não apenas com o que eles brincam, mas também quais caminhos imaginar para si no futuro. “É nessa idade que a criança começa a definir o que gosta e o que não gosta”, explica. 

Além disso, a falta de referências familiares atua como uma barreira invisível. Quando não há engenheiras ou cientistas entre as referências próximas, é mais difícil que uma imagine uma dessas carreiras para si.

Leia mais: A IA está criando novos riscos para meninas e mulheres

Esse cenário é agravado pelo ensino tradicional da matemática. “A gente não conseguiu ensinar matemática de uma maneira que faça os olhos das meninas brilharem. Elas têm essa coisa do perfeccionismo: se errar uma vez, sentem que aquilo não serve para elas.” 

É nesse ponto que os projetos de experimentação ganham espaço. Atividades de programação, robótica e outras experiências práticas podem transformar uma área que parece distante. 

O DESAFIO DA PERMANÊNCIA

O contato com a robótica e a programação em projetos pode abrir portas e “fazer brilhar os olhos” das meninas, mas o despertar precoce não garante a chegada no mercado. Um dado significativo mostra esse descompasso: 25% das mulheres desistem dos cursos técnicos no primeiro ano, contra 18% dos homens. 

Entre os obstáculos identificados pelo relatório está a síndrome do impostor, apontada por 75% das iniciativas mapeadas como uma das barreiras ao desenvolvimento.

O viés de gênero nas empresas aparece logo em seguida, citado por 71,1% das iniciativas, mostrando que as dificuldades não estão apenas no campo individual. Na trajetória dessas mulheres, a insegurança pode aparecer como medo de errar, sensação de não pertencimento e comparação constante com os colegas. 

O problema começa já na infância, quando meninas ainda estão construindo as referências sobre seu futuro. 

Para Mônica Granzo, CEO da Smarkets e embaixadora do STEM Women, combater esse problema passa pela intencionalidade. Segundo ela, homens e mulheres dentro das organizações precisam questionar o status quo.

"Por que não temos mulheres nesse processo seletivo? Por que não temos mulheres em uma mesa de reunião quando estamos discutindo tecnologia?", questiona.

Essa provocação é importante para incentivar mudanças estruturais nas organizações, pois a síndrome do impostor também é influenciada pelo contexto em que a profissional está inserida – desde a família e amigos até o contexto acadêmico e profissional. 

Aumentar a confiança das mulheres não basta se o ecossistema ao redor não mudar. “Um exemplo de ação intencional é a prática de feedbacks, que exaltam os pontos positivos e as potencialidades da profissional e ajudam a identificar quando ela está usando esse padrão mental para não desempenhar ainda mais”, afirma Mônica. 

Para a executiva, líderes e colegas têm papel importante nesse processo, ao reconhecer competências e criar condições para que essas profissionais desenvolvam seu potencial.

A questão, portanto, não termina quando uma mulher consegue permanecer na formação: o ambiente que a recebe no mercado também pode determinar se ela vai avançar ou ficar pelo caminho.

O problema ganha uma dimensão ainda maior quando chega à tecnologia que está moldando o futuro. No Brasil, a presença feminina em inteligência artificial é de apenas 8%, segundo o levantamento.

Em um momento no qual soluções baseadas em IA e dados passam a influenciar empresas, profissões e decisões, a baixa participação feminina levanta uma questão: quem está, de fato, participando da construção dessas tecnologias?


SOBRE A AUTORA

Beatriz Felizardo é estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, apaixonada por direitos humanos e curiosa sobre as transformaç... saiba mais